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A suspensão preventiva de 90 dias imposta pelo Comité de Ética da FIFA parece ser só mais um triste episódio de um final de trajeto bastante penoso para Sepp Blatter, o ainda presidente do organismo que rege o futebol mundial, mas já não o todo-poderoso de outros tempos. Agora, aos 79 anos de idade e com um reinado de 17, o dirigente suíço perdeu a força que, ao longo dos tempos, lhe permitiu fazer praticamente tudo o que lhe apeteceu em torno do desporto-rei, desde dar a mão a quem o apoiava, até “encostar” todos os que ousaram dificultar-lhe a vida.
Blatter foi capaz, paulatinamente, de construir uma rede gigantesca de contactos e influências que, passo a passo, o tornaram praticamente intocável. As suas ideias, mesmo que não agradassem a outras figuras importantes da FIFA, acabaram sempre por ir avante. Exemplo flagrante dessa capacidade foi a forma, no mínimo estranha, como foram atribuídos os Mundiais de 2018 e 2022. Aliás, foram essas “prendas” a Rússia e Qatar que acabaram por acelerar o fim do reinado de Blatter.
Ao aceitar colocar a competição mais desejada do planeta em países sem muitos apoios – a nível político e desportivo -, e com outro tipo de problemas (logísticos e até de temperatura, fazendo com que a edição de 2022 tenha de ser disputada durante o inverno europeu, algo que irá obrigar a mexer nos calendários habituais das principais ligas mundiais) Blatter cometeu aquilo que, no entender de muitos analistas, foi o seu maior erro estratégico. No entanto, por outro lado, também há quem considere que este era o seu último “golpe” antes de uma retirada que pensava ser serena. Enganou-se. Apostou forte e, pelos vistos, deu-se mal.
A FIFA – como entidade que tutela uma indústria que movimenta milhões – é uma instituição poderosa e importante. Blatter sempre soube disso e trabalhou com afinco e inteligência para lá entrar e ganhar protagonismo. Depois, utilizando muito dinheiro para comprar votos ou silêncios, foi fazendo um caminho que esperava imaculado até à sua saída de cena. Funcionou muito tempo, é verdade, mas como diz o povo “não há mal que sempre dure, nem bem que não se acabe”...
“Traído” em casa
Mas, com alguma surpresa, acabaram por ser as autoridades do seu próprio país quem resolveu “apertá-lo” para perceber se, como se dizia um pouco por todo o lado, Blatter tinha mesmo “telhados de vidros”. Michael Lauber, procurador suíço, avançou com a acusação de gestão danosa e apropriação indevida a 24 de Setembro último. Em causa estavam (e continuam a estar) a assinatura de um duvidoso contrato, em 2005, com a União Caribenha de Futebol e um suspeito pagamento de 1,8 milhões de euros a Michel Platini, líder da UEFA.
Curiosamente, o cerco a Blatter intensificou-se quando, em seu redor, caíram vários atuais e antigos dirigentes da FIFA. O FBI foi atrás de várias denúncias e, num ápice, as pontas do novelo começaram a fazer sentido. O veterano dirigente helvético reagiu, não teve receio em avançar para nova reeleição (toda ela marcada pela polémica e com inúmeros relatos de ligações perigosas, conforme – entre outros – Luís Figo confirmou) e só algum tempo depois percebeu que, mesmo ganhando nas urnas, o seu ciclo já não tinha futuro. Porém, a tática utilizada – anunciar que não iria ser candidato nas novas eleições de 26 de fevereiro de 2016 – foi insuficiente para suster um processo que, está fácil de ver, já não vai parar sem conclusões definitivas. Aliás, a recente pressão de marcas como a Coca Cola e a McDonald’s, parceiras importantes da FIFA há muitos anos, provam que o nome de Blatter passou a ser visto como uma espécie de “lixo tóxico”.
Futuro imediato
Esta suspensão preventiva de 90 dias não atinge o máximo previsto nos regulamentos (135), mas é facilmente interpretada como um tremendo “sufoco” a Blatter. Ainda assim, para alguns que lidaram de perto com o ainda presidente da FIFA, tal leitura pode ser precipitada. Klaus Stoehlker, seu antigo assessor, relembra que a suspensão irá “vigorar apenas enquanto decorrem as investigações solicitadas pelo procurador suíço”. Por outras palavras: “não deve ser interpretada como sinal de que algo potencialmente comprometedor para Blatter foi encontrado”.
De resto, segundo avança a BBC, a decisão final do Comité de Ética, liderado por Hans Joachim, só será divulgada na próxima sexta-feira. Contudo, dificilmente a suspensão será revertida tão cedo. Aliás, muita imprensa internacional, aponta é no sentido de existir uma grande probabilidade de Platini ser apanhado neste imbróglio. É que se Blatter não explica a razão de ter pago tanto dinheiro ao francês, este apenas reafirma que não tem de explicar nada. Pobre explicação… Tal como foi a de Blatter em recente entrevista à revista alemã “Bunde”. “O processo é ultrajante. Estou a ser condenado sem qualquer prova”, disse. Mas, será mesmo assim?
Certo, para já, é que esta suspensão não coloca em causa a presença de Blatter na entrega da Bola de Ouro, cerimónia aprazada para 11 de janeiro do próximo ano em Zurique. Tal não acontecerá é na próxima edição do Mundial de Clubes, agendada para o mês de dezembro no Japão. Aí, o troféu terá de ser entregue por outro responsável da FIFA.