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É sempre de forma emotiva que João Cancelo regressa ao momento trágico que mudou a sua vida para sempre: o dia em que um acidente de viação vitimou a mãe, Filomena Cancelo, quando o internacional português tinha 17 anos.
"Tínhamos ido levar o meu pai ao aeroporto, ia para a Suíça. No regresso, eu e o meu irmão adormecemos e só despertei quando o carro estava na vala. Foram milésimos de segundo que mudaram a minha vida para sempre. Lembro-me de algumas coisas. Lembro-me do último grito da minha mãe. Lembro-me do meu irmão a chorar no banco de trás, ainda uma criança, com 8 anos. Tentei levantar o carro para tirar a minha mãe debaixo e não consegui, não consegui. Aquilo era tudo muito escuro, estávamos no mato, na A2, num penhasco. Tentei levantar o carro com a minha força máxima, mas não consegui, levantar um carro é completamente impossível", lembrou visivelmente emocionado no programa 'Alta Definição', da SIC. No acidente, João Cancelo partiu uma clavícula e coube-lhe a dura tarefa de dar a notícia ao irmão.
"O mais difícil foi dizer ao meu irmão que ele nunca mais ia ver a nossa mãe. Disse-lhe 'a mãe foi morar com os anjos' e ele começou logo a chorar. Abraçou-me e pediu para nunca o deixar", disse.
"Tive de ser forte e tornei-me o sustento da minha família", revelou, voltando a um tempo em que pensou "desistir". "Tentava não chorar para parecer o líder, mas eu era um miúdo. Fui buscar forças onde não sabia que as tinha... Hoje em dia não são pequenas coisas que me vão deitar abaixo. Na altura, às duas da manhã, saía disparado a correr de casa, saltava o muro do cemitério para ir falar com ela. Podem parecer coisas de maluco, mas sentia necessidade... A minha mãe era tudo, o meu pilar, a mulher da minha vida. Hoje tenho sucesso, mas falta-me sempre a minha mãe, mas sinto que ela está orgulhosa".
"Hoje já não sonho com a minha mãe, mas a minha filha Alícia, que não a conheceu, de vez em quando diz que sonha com a avó Mena. Tenho fotografias dela em casa, uma na mesa de cabeceira que beijo todas as noites", atirou o jogador do Barcelona, recordando que a mãe sempre quis ter uma menina. "Ela teve dois rapazes e eu duas meninas; gostava de ter um rapaz para lhe passar as vivências do futebol que tive com o meu pai, mas a Alícia também gosta de jogar. Pode ser que venha aí uma Jessica Silva ou uma Kika Nazareth".
«Diogo Jota vai dar força a cada um de nós»
A morte de Diogo Jota foi também tema na entrevista conduzida por Daniel Oliveira. "Estava nos EUA [a disputar o Mundial de Clubes] e, quando acordei, vi que tnha 20 mensagens da minha mulher. Liguei-lhe e ela diz-me que o Diogo morreu. Desabei em lágrimas... A primeira coisa em que pensei foi na mulher, nos filhos e nos pais. Sendo frio, eu perder a minha mãe é a lei da vida, mas uma mãe nunca está preparada para perder um filho. O Ruben [Neves] estava devastado e eu não conseguia ajudar em nada. O Diogo tinha uma personalidade muito forte, um jogador extraordinário, uma pessoa de bom coração. A amizade deles [Diogo e Ruben] era uma amizade de verdade. Sei o que ele fez pelo Diogo, pela família dele, é uma pessoa que vou levar para o resto da vida. Podemos não ganhar o Mundial, mas cada um tem de pensar nele quando entar em campo. A força que ele nos está a dar desde lá de cima".