O senegalês Khalilou Fadiga estava radiante quando chegou a Milão para realizar os rotineiros testes médicos que lhe abririam a porta do Inter. Mas o cardiologista Bruno Caru, um dos consultores do clube, tinha outra ideia: "Ele tem um problema que pode causar uma paragem cardíaca em campo". Uma arritmia cancelou a transferência. O Auxerre insiste que o jogador está apto para jogar e vai recorrer aos tribunais para validar o negócio.
O caso surge menos de um mês após a morte do camaronês Marc-Vivien Foe, durante a meia-final da Taça das Confederações. A autópsia revelou um hiper-desenvolvimento da válvula esquerda. Quando se considera os rigorosos exames médicos a que são sujeitos os futebolistas hoje em dia, não se percebe como um profissional de 28 anos pode cair redondo no relvado e morrer.
O Inter de Milão é muito rigoroso nos exames cardíacos, sobretudo em atletas africanos. Foi o departamento médico do clube que diagnosticou o defeito na aorta do nigeriano Kanu, em 1996. O jogador teve de rumar aos EUA para se submeter a uma longa intervenção cirúrgica.
O mesmo quase aconteceu a Gerald Asamoah (Schalke 04), ganês de origem, internacional alemão que alinhou no último Mundial. Os médicos do seu antigo clube, o Hannover 96, encontraram algumas irregularidades no coração e decidiram suspender-lhe a actividade. Só voltou a jogar quando especialistas norte-americanos se responsabilizaram pela sua condição, defendendo que não corria risco de vida.
O futebol alemão recebe muitos africanos e, nos últimos anos, surgiram três outros casos nas divisões inferiores, todos ligados ao coração. Emmanuel Nwanegbo, nigeriano, faleceu em campo, numa partida da Liga Regional; Edith Agoye teve de parar meio ano (98/99) devido a uma infecção, mas retomou a carreira no Esperance da Tunísia; Olivier Djappa, camaronês, era a grande estrela do Borussia Fulda, até ser "apanhado" pelos exames, o que o obrigou a parar largos meses e a responsabilizar-se pelo regresso à competição, por sua própria conta e risco.
Guy Roux contesta diagnóstico italiano
O treinador do Auxerre, Guy Roux, foi célere a desmentir o diagnóstico dos italianos: "Não sou médico, mas acho estranho que um conceituado cardiologista de Bruxelas e outro de Paris tenham feito testes ao jogador e considerarem-no apto para a competição".
Lembrou outro caso: "Quando Taribo West se transferiu para o Milan, em 1997, os médicos do clube repetiram os exames antes de o considerarem apto. O primeiro teste acusou um número muito reduzido de plaquetas sanguíneas. Depois já estava bom".
Ressureição de Kanu
Nwankwo Kanu, internacional da Nigéria, era um jovem com o mundo na mão. Desde os 16 anos, foi um jogador seguido com atenção pelos grandes clubes europeus, mas o Ajax chegou primeiro, em 1995. Foi considerado Jogador Africano de 1996 e voltou a ser eleito em 1999. No período entre as duas datas, viu a vida devastada.
Após a mudança para o Inter de Milão, o médico do clube descobriu uma válvula defeituosa na aorta. Depois de examinado por três especialistas italianos, foi-lhe dito que não voltaria a jogar futebol... sob risco de perder a vida. Kanu recusou-se a aceitar o diagnóstico e partiu para os EUA, onde se sujeitou a uma penosa operação de quatro horas e meia no Hospital de Cleveland.
A convalescença foi longa e não haviam garantias de sucesso. Milagrosamente, voltou a jogar futebol, no Inter, 18 meses após o diagnóstico inicial. No entanto, os responsáveis do Inter continuaram cépticos em relação à sua recuperação e só no Arsenal relançou a carreira.
Em 1999, anunciou a criação da "Fundação do Coração Nwankwo Kanu", agradecido "pelo extraordinário trabalho de Deus ao salvar a minha vida". O jogador quis assim dar "uma modesta contribuição para a erradicação dos problemas de coração". O seu objectivo principal é construir cinco clínicas especializadas em África. Tem mau coração? Pelo contrário...
Tragédias de Pinto a Pavão
A data de 3 de Março de 2002 é de má memória para o basquetebol português. Decorria o primeiro período do jogo entre Aveiro Basket e Benfica, quando Paulo Pinto, capitão da selecção nacional, tombou dentro de campo numa altura em que o seu técnico, Carlos Lisboa, tinha solicitado um desconto de tempo. As diversas tentativas para o reanimar falharam.
Apesar da família, com toda a legitimidade, ter decidido não divulgar os resultados da autopsia, a morte de Paulo Pinto, licenciado em Medicina, deveu-se a um colapso cardíaco. Não foi caso único no basquetebol luso. Em 29 de Julho de 1997, Angel Almeyda, espanhol da Portugal Telecom, foi traído pelo coração durante um treino de início de época, no Estádio da Tapadinha. Rui Guimarães, jovem basquetebolista angolano, 22 anos, também da Portugal Telecom, caiu fulminado durante um treino "livre" (2 contra 2) realizado em Alvalade, a 6 de Julho de 1998.
No futebol, o caso mais famoso é o de Pavão. O médio do FC Porto morreu fulminado por uma paragem cardíaca no Estádio da Antas, durante o embate com o V. Setúbal, a 16 de Dezembro de 1973. Fernando Pascoal das Neves "Pavão" tinha 26 anos.
O último caso mediático foi o do congolês Landu, falecido aos 36 anos numa partida entre o seu clube, o Oliveira de Frades, e o Oliveira do Douro, referente à I Divisão da AF Viseu. A tragédia ocorreu em 17 de Fevereiro de 2002 e as causas ainda estão envoltas em mistério. Pelo meio, a jovem promessa Tonanha (Belenenses) foi obrigada a encurtar a carreira.
Petit lembrou morte em campo do irmão
"Às vezes é preciso pensar primeiro nas pessoas e só depois no jogo". As palavras são do internacional francês Emmanuel Petit, campeão do Mundo em 1998, e dirigem-se a Sepp Blatter, por este ter decidido que França e Camarões jogariam a final da Taça das Confederações, apesar da morte de Marc-Vivien Foe.
Mesmo ausente da selecção, o médio do Chelsea sentiu a tragédia na pele, pois perdeu o irmão mais velho, Olivier, quando este sucumbiu a uma hemorragia cerebral durante um jogo de futebol amador em 1988, aos 20 anos.
Viver e morrer num campo de futebol
MARC-VIVIEN FOE
A autópsia de Marc-Vivien Foe, falecido ao minuto 72 da semifinal entre Camarões e Colômbia, revelou uma hipertrofia cardiomiopática causada pelo hiper-desenvolvimento da válvula esquerda. Segundo os especialistas, o defeito seria congénito e só detectável através de exames intensivos.
JOCK STEIN
Jock Stein, o mítico treinador do Celtic, campeão da Europa em 1967, não chegou a festejar a qualificação da Escócia para o Mundial 86. O seleccionador sofreu um ataque cardíaco no banco, quando os escoceses empataram a partida em Gales (1-1), conquistando assim o ponto que necessitavam. Stein morreu, dizem, onde queria.
OKWARAJI
O caso de Foe é similar ao do internacional nigeriano Samuel Okwaraji, 24 anos na altura em que caiu inanimado (Agosto de 1989), dez minutos após o início do embate com Angola a contar para a fase de qualificação do Mundial 2000. A autópsia descobriu um coração demasiado grande e forte pressão sanguínea.
MÁRCIO
Em Outubro último, o brasileiro Márcio dos Santos, 28 anos, faleceu de ataque cardíaco após marcar um golo pelo Deportivo Wanka, clube peruano.
LONGHURST
Na Inglaterra, o único caso conhecido é o de Dave Longhurst, falecido aos 25 anos quando o York City defrontou o Lincoln City, em Setembro de 1990. Sofria de uma doença rara no coração.
ROMÉNIA
Desde 1963, o futebol romeno tem sido devastado por várias mortes em campo, devido a colapso cardíaco. Começou com Constantin Tabarcea, aos 26 anos. Em quinze meses, entre 1999 e 2001, quatro jogadores faleceram. Entre eles, o jovem Stefan Vrabioru, que perdeu a vida no seu jogo de estreia ao serviço do Astra Ploiesti, ante o Rapid Bucareste.