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José Morais: «Arábia Saudita quer dar imagem diferente e o futebol é um veículo»

José Morais: «Arábia Saudita quer dar imagem diferente e o futebol é um veículo»

José Morais, de 58 anos, cumpre a segunda época no Sepahan, clube do Irão. A experiência anterior foi no Al Hilal (depois do Al Shabab e Al Hazm no passado), num futebol saudita diferente do atual. Nesta entrevista a Record, o técnico garante que não está surpreendido com a explosão de investimento e contratação de craques e garante que deu alguns conselhos às pessoas influentes do país para a evolução da modalidade.

RECORD - Ajudou o Al Hilal a ser campeão 2021. Agora, em 2023, as coisas estão diferentes. O que acha deste boom do futebol saudita? Era algo já comentado na altura para colocar em prática?

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JOSÉ MORAIS- Eu não tinha indicadores de que as coisas pudessem acontecer de um momento para o outro, mas a ambição dos dirigentes que foram surgindo permitiu-me pensar que, um dia, o futebol saudita iria mudar porque o interesse é muito grande. Estas pessoas nas altas esferas da cúpula gostam muito de futebol e acompanham o futebol internacional. É gente que tem uma capacidade de receber o outro muito grande, até uma certa vaidade em receber pessoas de outra parte do Mundo. São intenções governamentais de uma nova geração que quer dar uma imagem diferente do país e o futebol é um desses veículos. Acho que a Arábia Saudita está a mudar e eu vi isso quando lá estive. Havia projetos do metro, por exemplo, e as infraestruturas desportivas a serem criadas, com o pensamento de ter condições para escolas de futebol e as camadas jovens evoluíssem. Os projetos para a melhoria da qualidade das seleções nacionais, o investimento em indivíduos ou grupos sauditas em clubes de futebol no estrangeiro para adquirirem ‘know-how’ diferente e a conhecerem pessoas que os pudessem ajudar. Culminou com este ‘boom’ que, confesso, não estava à espera que fosse tão agressivo, mas é um país que tem uma capacidade económica e que pode fazer isto. E está a fazê-lo bem. Espero que os resultados sejam visivelmente positivos no futuro.

R - O Al Hilal do seu tempo era diferente deste Al Hilal. Com todo o respeito, tinha Giovinco, Vietto e Carrillo; agora há Neymar, Koulibaly, Mitrovic, Milinkovic-Savic, Rúben Neves… Não é bem a mesma coisa…

JM - Não é a mesma coisa, não (risos). Há uns anos a própria liga tinha um limite de estrangeiros definido e a particularidade de não ser permitido que fosse contratado um estrangeiro para guarda-redes. Havia uma proteção ao jogador saudita. Mas eles perceberam que a interação do jogador saudita com o crescimento num ambiente com qualidade diferente poderia criar condições para a evolução mais rápida e pudesse beneficiar da experiência de outros jogadores de competições mais fortes. Quando jogamos com os melhores, tornamo-nos melhores. O pensamento é esse. Aumentaram número de estrangeiros, creio que até 15 no plantel, e os outros jogadores são sauditas. Se tiverem 10 sauditas a jogar com 15 estrangeiros com nome e qualidade, estes vão saltar para um nível diferente. Se eram equipas respeitadas, agora são ainda mais. Estou feliz que o país pense assim. Treinei o Al Hilal, o Al Shabab, o Al Hazm e fui assistindo à mudança. Eu próprio dizia no início que não fazia sentido, quando convivia com príncipes e pessoas influentes, haver um limite na posição de guarda-redes, por exemplo. A exigência tinha de ser diferente. As crianças não tinham referências internacionais que os motivassem a ir para as camadas jovens e dizerem que queriam ser guarda-redes. Agora, não é tão fácil marcar golos como se fazia antes porque a qualidade dos guarda-redes melhorou, assim como o nível das equipas. Qualquer uma delas tem nível competitivo que não tinha antes, o scouting é mais profissional, os jogadores têm mais qualidade… Uma equipa como o Al Tai não existia há 5, 6 anos. Hoje em dia, intromete-se na luta pelo título no meio das equipas mais cotadas: o Al Hilal, o Al Nassr, o Al Ittihad e o Al Ahli. A Liga, em termos de Ásia, elevou-se a um ponto em que pode ombrear com o Japão, Coreia do Sul, por exemplo. Em termos de direitos televisivos, vende para todo o Mundo.

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R - E acha que é superior ao campeonato português, como disse Cristiano Ronaldo? Com menos "circo"...

JM - Como português, o que posso fazer é elevar a nossa liga. Dificilmente me vão apanhar a dizer que esta liga é melhor do que aquela. Na minha visão, quero acreditar que a liga portuguesa só não é melhor porque não é possível. O campeonato português está cada vez melhor, mas em termos de público, em alguns jogos, não tem o mesmo da liga árabe. Mas Portugal tem uma população de cerca de 11 milhões de habitantes, não temos a afluência da França que tem mais do triplo ou da Arábia Saudita que tem 60 milhões de habitantes. Eu treino um clube no Irão que tem público como o Benfica, por exemplo. São ligas diferentes e não quero comparar. Se pudermos melhorar a parte das polémicas em Portugal, ótimo, mas faz parte da nossa cultura. E o que é cultural vai manter-se por muito mais tempo. Há gente que gosta da discussão e debate com emotividade; outros gostam de discussões mais agressivas e há outros que não gostam tanto. Eu, por exemplo, quanto mais paz e harmonia houver, mais feliz fico.

Por David Novo
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