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Jogar às cartas a dinheiro não parece um pecado original. Não é preciso ir aos estágios das equipas de futebol para encontrar jogatanas “a doer”. Mas, se o visado é uma figura como Michael Owen e o dinheiro perdido sobe aos 46 mil euros, a polémica está lançada.
A inconfidência surgiu de Tony Cascarino, antigo internacional irlandês. A Imprensa procurou avidamente o nome do jogador que perdera tanto dinheiro em menos de um mês. Foi o menino prodígio de Liverpool, que já se defendeu, negando a quantia vinda a público.
Seja como for, a conservadora Inglaterra, cuja tradição nos jogos de azar e apostas suplanta o resto da Europa, vestiu-se de hipocrisia ao criticar uma perda que equivale a três dias de ordenado na conta bancária de Owen. Pouco para ele, mas muito para a maioria daqueles que o idolatram nos estádios e o vêem como um modelo, dizem os que apontam o dedo.
O pai de jogador, Terry, confirmou que abriu uma conta “offshore”, que tem utilizado para fazer apostas para amigos e família, incluindo o filho, “ocasionalmente”, disse. Não é um procedimento ilegal, diga-se.
Na mesma semana, a retratação pública do islandês Gudjohnsen [ver caixa ao lado] havia reaberto algumas feridas bem presentes na memória dos ingleses. Os casos recentes de Tony Adams, Paul Merson, Keith Gillespie e, mais antigos, de Peter Shilton, Stan Bowles e Lou Macari mostram como o vício não poupa o futebol na sua frenética busca de vítimas.
Van Nistelrooij, em entrevista à revista holandesa “Voetbal”, declarou que os salários pagos pelos clubes ingleses são “obscenos”. Para Carlos Queiroz, seu treinador no Manchester United, foi uma afirmação “responsável vinda de quem vem” e que tem “matéria para meditação e não polémica”.
“A Imprensa misturou algumas frases com o caso de Owen, porque o Van Nistelrooij também disse que se jogava às cartas a dinheiro no clube. Mas nunca afirmou que se perdiam quantias avultadas, como chegou a aparecer em certos jornais”, explicou o técnico português.
A questão que a sociedade inglesa coloca a si própria é a seguinte: poderá apontar o dedo a jogadores de futebol milionários que perdem no jogos de azar quando ela própria motiva e convida qualquer jovem com dinheiro a apostar num palpite?
Eidur Gudjohsen mata tempo e salário
Matar o tempo. Com esta premissa, o avançado islandês do Chelsea, Eidur Gudjohsen, entrou num casino. “O pesadelo começou porque estava aborrecido, quando recuperava de uma lesão. Foi assim até chegar ao ponto em que estava carregado de dívidas.”
O jovem de 24 anos só parou quando ficou com menos 600 mil euros na conta pessoal. Perdeu na roleta o equivalente a quatro meses de salário, pois aufere 150 mil euros. “Agora vejo por que é tão fácil os jovens de hoje caírem no vício do jogo e estou feliz por servir de aviso a outros”, afirmou o jogador, que veio a público reconhecer os erros e a necessidade de ajuda.
Tendo parado a tempo, resta-lhe voltar ao que sabe fazer melhor: golos. “Nunca mais porei um pé num casino”, prometeu.
Keith Gillespie foi a galope até ao fundo
Keith Gillespie, para quem se lembra, foi, antes de surgir Beckham, a grande promessa do Manchester United. Depositava na velocidade e capacidade de drible a esperança de um futuro risonho no futebol e, como qualquer jovem avançado norte-irlandês que alcance a equipa dos “red devils”, foi visto como o novo George Best.
Mas de Best a “besta” foi um salto de cavalo. Diz-se que o bichinho do jogo mordeu-o ainda novo, quando ia aos corretores de apostas entregar o dinheiro e os palpites dos companheiros de equipa e até de Alex Ferguson. As corridas de cavalos atraíram-no rapidamente e tudo se desmoronou quando o seu salário passou a alimentar o vício.
Após anos de ocaso, procura, no Blackburn Rovers, aos 27 anos, recuperar o tempo perdido. Alex Ferguson ensinou-o a jogar futebol, mas, inadvertidamente, passou-lhe a sua paixão por cavalos. O treinador escocês é co-proprietário do “Rock of Gibraltar”, um campeão dos hipódromos.
Michael Owen - jogador do Liverpool
"Não fiz nada que possa embaraçar o meu clube, o meu país, a mim próprio e, mais importante, a minha família. As alegações com que atacam estão incorrectas."
Gordon Taylor - chefe executivo da PFA
"A natureza do desportista, homem ou mulher, é a adrenalina da vitória. Estão preparados para correr riscos. Jogo e futebol estão de mãos dadas desde o início do desporto."
Van Nistelrooij - jogador do Manchester United
"O que ganhamos não é apenas um balúrdio para os padrões holandeses. É obsceno quando se compara com os salários da Europa. Quem aposta pode perder muito dinheiro."
Tony Adams - ex-capitão da selecção ingelsa
"Cada vez há mais futebolistas perdidos nos jogos de azar porque é um vício mais difícil de ser detectado do que álcoo e droga. A única pista verdadeira é a cara dos perdedores."
Glossário
Alguns jogos de casino
ROLETA – Onde cairá a bolinha?
Existem 38 números (de 0 a 36 e 00).
BLACK JACK – Fazer 21 pontos sem rebentar. O ás vale 1 ou 11 e as figuras 10.
“SLOTS” – Puxar a manivela e esperar uma série de figuras iguais.
DADOS – Lançar dois dados e esperar a combinação certa de pontos.
POKER – Ganha a melhor “mão” (sequência de cartas)
Ludopatia
Distúrbio do comportamento que consiste na necessidade compulsiva de participar em jogos de azar.
Jogadores anónimos
Grupo de apoio a ludopatas existente em Portugal, com reuniões no Estoril e em Lisboa.
Corridas de cavalos e cães
São as mais procuradas em Inglaterra e a primeira está bem enraizada na cultura do povo. Ganha quem aposta
nos animais vencedores.
Abel Xavier: "Que mal tem jogar às cartas a dinheiro?"
"Apostar em tudo o que mexe e seja competitivo está no sangue dos ingleses. O Alex Ferguson não aposta em cavalos? Por que não podem os jogadores de futebol fazer o mesmo? É uma questão individual. No caso dramatizado do Owen, só ele tem de saber o que ganha e perde, sem ter de estar sujeito a especulação da Imprensa. Se é controlado, o jogo não é uma coisa negativa. O erro está na dependência e no fanatismo. Depois de um bom jantar, ir ao casino pode ser um bom programa, desde que não se faça por vício. Na minha carreira, já fiz muitas viagens de autocarro e estive em muitos estágios, onde jogar às cartas era uma forma de fortalecer o espírito de grupo. E se for a dinheiro, que mal tem? Desde que não sejam quantias exageradas, não há motivo para alarme. Nunca vi jogadores a transformarem um autocarro num casino e se isso acontece em algum clube cabe ao treinador intervir. Já joguei muitas vezes às cartas, mas não perco a cabeça nas apostas. Existem áreas mais seguras para investir o dinheiro.”
Carlos Queiroz: "Mau é gastar-se mais do que se tem"
“Na Inglaterra, as apostas são uma questão de tradição cultural. Joga-se nos cavalos, nos cães, no futebol, no clima... O vício do jogo não é um assunto que diga respeito ao futebol. Anomalias existem em todo o lado e em muitos sectores da sociedade. Os jogadores de futebol também apostam, mas não a maioria. E, entre os que jogam a dinheiro, há que distinguir os que o fazem pouco e muito. Se Owen gasta muito dinheiro no jogo, é notícia, pois é uma figura pública e deve ser um modelo para os mais jovens. Mas já desmentiu e tenho de acreditar nele. Os jogadores do Manchester United que estiveram no Mundial disseram-me que os valores vindos a público estavam tremendamente errados. Todos nós jogamos às cartas. A perda de dinheiro é relativa. Mau é gastar-se mais do que se tem.”
Álcool, drogas, jogo, eis a família Adams
Tony Adams, ex-capitão da selecção inglesa, um alcoólico em recuperação, é o exemplo mais mediático quando se fala de vícios dos jogadores de futebol. Criou uma instituição, a “Sporting Chance”, para ajudar aqueles com problemas de adição, não só de álcool e drogas, mas também de jogos de azar.
“Estava a ver um jogo da Premiership e um jogador saiu de campo. Falou-se que estava lesionado mas não me pareceu lesionado. Desconfio que teve uma má noite nas corridas”, referiu Adams, antes de sustentar que um terço dos futebolistas que procuram apoio fazem-no por causa da adição ao jogo.
“Perdem o respeito a si mesmo e quando dão por ela estão a roubar o mealheiro do filho para fazerem uma aposta. Os clubes têm de estar atentos porque, ao contrário dos viciados em álcool ou drogas, os ludopatas não são detectados facilmente. E, com tantos testes, é difícil para um jogador esconder os excessos de drogas e álcool. Por isso, viram-se para o jogo.
Hoje em dia, cada vez mais jogadores estão a comprar cavalos e com isso vêm as apostas”, sublinha o ex-jogador do Arsenal.
Paul Merson foi companheiro de Tony Adams na selecção e no Arsenal.
Também ele caiu em desgraça e tenta agora, no Portsmouth, da Division One, dar dignidade ao final de uma bela carreira. “No meu caso, o jogo estava associado à bebida e à droga, mas não tenho dúvidas que as apostas eram o pior problema. Se tu bebes, as pessoas notam. Se exageras na noitada, o treinador percebe no treino seguinte. Mas, se fores um viciado em jogos de azar, estás safo até alguém meter a boca no trombone.”
O avançado afirma que os futebolistas ingleses têm a mania de apostar, mesmo entre eles, mas nem todos sabem quando parar: “Torna-se uma obsessão. Foi o que me aconteceu. Fala-se que Alex Ferguson é permissivo em relação às apostas, mas, tendo em conta os resultados do Manchester United desde que tomou conta do clube, quem é que vai ter com ele e criticar a atitude?”