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Formou com Robbie Fowler uma dupla temível no ataque do Liverpool nos anos 90 e, agora, tornou-se um homem da comunicação. De passagem por Portugal, o inglês mostrou-se atento às estrelas nacionais além-fronteiras R - Os treinadores portugueses são neste momento bastante considerados em Inglaterra, talvez mais do que os jogadores. São técnicos diferentes dos outros estrangeiros?
SC – Como se chamava o treinador do Sp. Braga antigamente? Jorge…? Jorge Jesus! Exato, que agora está no Sporting. Estava a ver a vossa televisão nacional e a pensar como é incrível como depois de Mourinho… Repare, o Nuno, que está no Wolves, eles adoram-no. É o clube do qual eu moro mais perto, um clube tradicional, que ganhou troféus nos anos 50, tem potencial para ter um apoio enorme, de 40, 50 ou 60 mil adeptos por jogo, e muitos dos meus amigos adeptos deles diziam-me no início da época… ‘Temos estes portugueses todos e não sabemos se são bons.’ E claro que têm ido muito bem. Isto para dizer que é estranho como tudo isto evoluiu, penso eu, à conta de José Mourinho.
R - Deve-se a ele?
SC – Sem dúvida. Ele abriu a porta. Olhe para Guardiola, não tenho dúvidas de que agora há muito mais catalães no futebol europeu, mais espanhóis. Sem dúvida. O respeito que treinadores e jogadores portugueses têm por essa Europa fora, como Carvalhal no Swansea, que está a dar a volta à equipa... Isso deve-se a um homem: Mourinho.
R - E Marco Silva, que saiu do Watford. O que lhe correu mal?
SC – Houve a perceção de que ele gostaria de ir para o Everton, antes do Sam Allardyce chegar. Mas o bom de Inglaterra é que, se ele esperar um pouco, terá um bom desafio de novo. Mesmo que vá para o Championship, onde há grandes clubes. Pode ir e impor lá as suas ideias, que é o que o Nuno está a fazer. Se ele saísse do Wolves amanhã, estou certo de que estaria no radar de vários clubes da Premier League.
R - E Renato Sanches, que está emprestado ao Swansea, o que se passou com ele?
SC – Saiu demasiado cedo. Falo muito disso nos meus programas em relação aos jovens. Como se chamava aquele miúdo de 15 anos que foi para o Real Madrid, que era o novo puto maravilha? Odegaard. Foi lá, fez um jogo e já saiu… Quando se é muito jovem, tem de se jogar. Jogar em Inglaterra, em Portugal, onde quer que seja. Esses são os anos de maior aprendizagem da tua carreira. E depois quanto tiveres 150 jogos, aí sim, sai. O problema dele é que era a nova estrela, foi para um grande clube demasiado cedo e foi engolido por jogadores de classe mundial.
R - Que conselho lhe daria se falasse com ele?
SC – Ser emprestado tem impacto na tua confiança. Essa trajetória pode levá-lo a cair. Ele tem de encontrar um lar para três ou quatro anos… e jogar. Tem um talento incrível. Podemos fazer a comparação, por exemplo, com o Leroy Sané. A questão é que Sané foi para o Manchester City e sabia que ia jogar, sabia que estava nos maiores planos do treinador. Eu não acredito que o Bayern Munique tenha contratado o Renato para jogar com aquelas estrelas todas. As expectativas dos alemães eram diferentes das do City. Agora tem de encontrar um lar para jogar e seguramente recuperar o seu jogo para o nível de um Barcelona, Real Madrid, Bayern Munique ou Manchester United. Só precisa de encontrar um sítio onde possa ser consistente.
«Tive de me adaptar mas foi perfeito»
R - A sua parceria com Robbie Fowler no ataque do Liverpool fica para a história?
SC – Fizemos 102 golos em duas épocas, entre golos e assistências de ambos. No Nottingham Forest era o avançado referência e no Liverpool joguei em função do Robbie. Tive de me adaptar, mas foi perfeito. Nós merecíamos vencer o título, mas não tínhamos disciplina suficiente…
R - O Liverpool teve grandes equipas durante estes 28 anos sem ganhar a liga inglesa...
SC - Acho que se o Alex Ferguson tivesse sido treinador do Liverpool, o domínio teria sido dos reds. Tão simples como isso.
«Ferguson ligou mas queriam aumentar o preço»
R - É verdade que Alex Ferguson esteve indeciso entre contratá-lo a si ou ao Andy Cole? Como foi esse processo?
SC - Ele telefonou ao meu treinador no Nottingham Forest e ele disse-lhe ‘não’ para aumentar o preço. Entretanto também falou com o Kevin Keagan, que treinava o Andy Cole no Newcastle, sobre o Keith Gillespie, que era do Manchester United. No final, Alex Ferguson perguntou-lhe pelo Andy Cole e ele respondeu-lhe ‘por quanto?’. Aí ele soube que o negócio ia acontecer.
R - Poderia ter tido uma carreira melhor do que teve?
SC – Em miúdo queria jogar pela seleção e pelo meu clube do coração, o Aston Villa, e joguei. Poderia ter ganho títulos e colecionado dezenas de internacionalizações? Sim, se fosse mais disciplinado e tivesse orientação, mas simplesmente não foi assim. Não olho para trás dessa forma.
Por André Monteiro