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Não havia muito por onde escolher no concílio futebolístico de Istambul, reunido para encontrar o herdeiro do FC Porto; entre filhos do pragmatismo, o novo rei da Europa estava condenado a ser figura menor para a grandeza do trono e dificilmente respeitaria o esplendor de tão ilustres antepassados, que entraram na lenda não apenas porque venceram mas porque voaram alto e entraram na memória de quem ama o jogo. Ganhou o Liverpool um encontro que entra directo para a história, com seis golos, toneladas de emoção e uma reviravolta, única em 50 edições, de 0-3 para 3-3. Tudo porque os deuses da eficácia endoideceram por uma noite e interferiram à vez na história da grande final.
Este Milan que tem classe e experiência atrás, personalidade e talento no meio, golo e genialidade à frente, revelou-se uma equipa vulgar – e começa aí a desgraça dos amantes da bola, ver tanto talento desperdiçado. Ancelotti distorceu as prioridades (reprime quase tudo quanto tem de bom e só aperfeiçoou factores que a aproximam da mediocridade); foi vítima de uma péssima gestão do plantel (sobrecarregou os titulares até caírem para o lado e desactivou os suplentes); traiu o seu próprio destino com a felicidade do golinho da ordem e dos triunfos que, naturalmente, vão pingando com regularidade face à qualidade do material humano de que dispõe. Uma equipa que chega a 3-0 como se estivesse a jogar uma peladinha, que tem o adversário no tapete e acaba por lamentar a derrota, é uma fraude. Perdeu e, perdoem a franqueza, foi muito bem feito.
O Liverpool é uma obra de engenharia concebida com imaginação, ainda que sustente, igualmente, uma proposta futebolística restrita, cuja salvação está única e exclusivamente dependente dos resultados. Benítez aproveitou o temperamento dos jogadores que encontrou, enquadrou-o melhor com aspectos repressivos e introduziu-lhe alguma criatividade cínica, toda ela referenciada a partir da eficácia. Mas ontem, em Istambul, o que salvou o Liverpool da queda anunciada, com os dois golos de Crespo, foi mais o temperamento britânico de quem acredita até ao fim e nunca se dá por vencido, mesmo quando está à vista de todos que pouco ou nada havia a fazer. A equipa foi buscar forças onde elas não existiam e recuperou o talento que lhe faltara em 45' medonhos, durante os quais nem sequer foi digna de pisar um palco como aquele.
Assalto
Depois de correr riscos (passou a jogar com apenas três defesas), o Liverpool lançou o assalto à baliza de Dida, com dinâmica, espírito de conquista e aquela crença inexplicável de que a partida não estava resolvida. Nos primeiros 15' aconteceu a reviravolta mais inesperada da história recente do futebol europeu, com três golos nascidos a partir de uma convicção sem fundamento mas que valeu primeiro o empate e, no fim, a vitória. Mais que não seja por isso, por se ter superado para chegar ao céu, o Liverpool mereceu ganhar. Mesmo que o tenha conseguido depois, da marca de grande penalidade.