Portugal-Inglaterra, 3-2: Um jogo que entra na lenda pela classe e personalidade

Portugal-Inglaterra, 3-2: Um jogo que entra na lenda pela classe e personalidade

Eindhoven – Fantástico! Memorável! Impressionante! De classe e personalidade! De qualidade e coragem! Poder-se-ia esgotar os adjectivos para classificar a exibição portuguesa, mas provavelmente basta dizer que este é o jogo mais histórico da selecção nacional e vai com certeza fazer lenda! Ontem foi o dia em que o futebol português virou um jogo contra a Inglaterra! Num Campeonato da Europa! Depois de estar a perder por 0-2 aos 18 minutos! Da maior das desilusões à maior das alegrias tudo em 90 minutos de futebol feito emoção e arte, num espectáculo vibrante que de certeza elevou Portugal à condição de equipa a ter em conta para todas as lutas.

Já se sabia que a nossa equipa tinha qualidade e jogadores capazes de fazer a diferença. Agora tem se ser reconhecido que também tem homens de carácter capazes de superar-se e à adversidade. É claro que ontem nada daquilo teria acontecido se, mais uma vez, um super-Figo, jogador imenso, não tivesse ido lá abaixo, ao fundo do poço, buscar a equipa com um golo magnífico de quase 25 metros quando teria de ser entendível que o desânimo estivesse instalado face à adversidade de dois golos quase oferecidos. Mas a equipa esteve sempre lá. Rui Costa fez uma exibição soberba, talvez a mais conseguida na selecção, com duas assistências para golo. Paulo Bento foi o coração da equipa, pleno de esclarecimento e carácter. E depois houve ainda espaço para pelo menos dois gritos de revolta: o de João Vieira Pinto (JVP) e Nuno Gomes, autores de dois belos golos, o segundo estreando-se finalmente ao serviço da “equipa de todos nós”.

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Num jogo como este tem de ser exaltada a qualidade do espectáculo a todos os níveis, mas convém também assinalar como a justiça do resultado está suportada noutros números que não apenas os dos golos, como a vitória da equipa de Humberto Coelho foi tudo menos uma dádiva da sorte. A esmagadora superioridade com que Portugal reagiu à adversidade teve mais remates à baliza (5 contra 3), mais cantos (11/6), menos faltas cometidas (11/17), mais tempo de posse de bola (54%)!

No lançamento do jogo tínhamos deixado expressa a ideia de que este seria um duelo de iguais, fosse qual fosse o resultado. Confirmou-se. Vencer a Inglaterra era antigamente coisa do âmbito do milagre ou fenómeno equiparado; hoje é um dos resultados possíveis com toda a normalidade e essa é a maior conquista desta geração de futebolistas que conseguiu materializar aquilo que ontem designávamos como a grande vitória destes últimos 25 anos: o amadurecimento e o crescimento mental dos jogadores, fruto da internacionalização que trouxe outro grau de profissionalismo e mais mundo aos homens que estão na selecção, dentro do campo mas também não só.

Neste momento de grande euforia, justificada, merecida, incontornável, cabe agora fazer o contraponto: Portugal, apesar de tudo, só ganhou um jogo. Este valerá sempre por si próprio, sem dúvida; mas terá outra dimensão se fizer parte de um lote de bons jogos que determinem uma competição à altura do talento da maior parte dos jogadores.

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“O desafio à equipa, neste Campeonato no qual todos apostam um pouco para regressarem às alegrias de uma juventude feliz, é também precisamente de ordem individual: estar ao melhor nível. Uma equipa que tem [Figo, o único insubstituível] Rui Costa, João Vieira Pinto, Sérgio Conceição, Sá Pinto e Capucho como expoentes máximos da criatividade ofensiva pode aspirar a muita coisa se estiver concentrada e for ambiciosa.” Escrevemos ontem e o desafio mantém-se. Dia 17 o adversário chama-se Roménia e a página brilhante que todos escreveram na noite inesquecível de Eindhoven será passado. “Eles”, habituados às voltas da fortuna, sabem-no com certeza muito bem.

O jogo não podia ter começado pior para Portugal. Dois golos sofridos em 18 minutos, sempre com Beckham a centrar. Scholes, o mais baixo jogador inglês, a marcar de cabeça na pequena área porque ninguém se lembrou de substituir Jorge Costa que fora tentar evitar o cruzamento; McManaman a “estoirar” para a baliza, depois de uma boa simulação de Scholes, porque Abel Xavier não estava no posto. A defesa nacional parecia apostada em reivindicar a análise de Rui Caçador vertida a propósito do sector defensivo inglês e que tanto tema de conversa deu nos últimos dias.

Mas como tudo mudou depois do golo de Figo (22)! E como o resultado era injusto já aí em função da produção atacante da equipa, sempre a visar a baliza.

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JVP foi infeliz num cabeceamento logo aos 11 minutos. Cabeceou de cima para baixo, a centro de Rui Costa, a bola bateu no relvado e subiu por cima da barra. Incrível. Rui Costa (que grande jogo! – também ele deu uma boa resposta às tonterias vertidas por Souness na véspera) obrigou Seaman a uma apertada defesa para canto.

A Inglaterra actuava em 4x4x2. Ince mais recuado, Scholes no habitual apoio de perto aos avançados, Owen e Shearer. Portugal, no sistema do costume (4x2x3x1), trazia o esperado Nuno Gomes na vaga de Sá Pinto.

Figo fez o jogo que se pede a um grande do mundo. E é irrelevante e especulativo dizer se ele é ou não o melhor. É um dos. Basta isso. Foi a personalidade dele que evitou um possível naufrágio. Foi a tranquilidade e inteligência dele que introduziu no jogo as paragens necessárias no período em que a Inglaterra só pensava em acelerar e pressionar. À sua volta, no entanto, e como ele pedira na véspera, esteve uma equipa. Rui Costa esteve quase ao nível de Figo. A segunda parte de Abel Xavier e Dimas foi espectacular, a ressarcirem-se das falhas do primeiro tempo. Fernando Couto e Jorge Costa foram brilhantes nos últimos momentos (a entrada de Heskey aumentou o perigo). Paulo Bento teve força para 90 minutos que não se esquecem. Vidigal passou do desacerto posicional mais elementar à generosidade útil que se lhe conhece e tão necessária foi na parte final quando a Inglaterra fez o “forcing” para pelo menos chegar ao empate. JVP provou que sabe jogar em zonas difíceis e continua a marcar golos ao mais alto nível. Nuno Gomes também fez um bom jogo e foi forte no lance do golo. Vítor Baía teve um jogo ingrato, mas com certeza que viveu um dia de grande felicidade por passar a ser, desde agora, o recordista de internacionalizações, com 71.

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Humberto geriu bem as substituições, embora talvez a primeira tivesse tardado um pouco. Sérgio Conceição trouxe o regresso da velocidade num tempo difícil. Beto, chamado a tapar Scholes, teve uma entrada de leão. Capucho também sabia que o importante era gerir.

Para além da reviravolta histórica, fica uma exibição inesquecível, em que Portugal até poderia ter ganho por mais. Nuno Gomes e Figo tentaram o chapéu que fecharia com chave de ouro. O de Figo seria um portento de classe.

E agora, que esperar desta equipa?

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