''Caso Paula'' hoje em tribunal
A primeira audiência do julgamento do célebre “caso Paula” respeitante ao processo n.º58/2000 movido pelo treinador Joaquim Teixeira, ex-adjunto de António Oliveira na selecção nacional, e o jogador do FC Porto, Secretário, contra a estação de televisão SIC, começa hoje a partir da 9.30 horas, no 1º Juízo Cível do Tribunal Judicial de Oeiras.
Os autores reclamam indemnizações elevadas, alegando terem sido ofendidos na sua dignidade e bom nome e vítimas de prejuízos de natureza material, psicológica, familiar e profissional na sequência da reportagem transmitida pela SIC, a 2 de Maio de 1977, no programa desportivo "Os Donos da Bola".
Além da estação televisiva de Carnaxide são também arguidos neste processo, a título individual, Emídio Rangel, que à altura dos factos desempenhava as funções de director-geral, e o jornalista Jorge Schnitzer, então responsável pelo departamento desportivo da SIC. Tanto um como outro já não têm qualquer vínculo contratual com a estação, razão pela qual apresentarão os seus próprios advogados enquanto a defesa da SIC ficará a cargo do dr. José Manuel Durão.
Quanto a Joaquim Teixeira e a Secretário, serão defendidos pelo advogado Manuel Neto.
Contactado pelo nosso jornal, Joaquim Teixeira remeteu declarações sobre o caso para o final do processo, por conselho do seu advogado, com quem se encontrava na altura em que lhe falámos. No entanto, na véspera respondera a algumas questões colocadas pelo jornal “A Bola”, nas quais prometia “contar toda a verdade perante o juiz”.
Instado a ser mais específico, diria: “Vou falar dos jogadores e daquilo que se passou... Passou-se qualquer coisa, mas é mentira que os jogadores do FC Porto tenham sido os principais responsáveis... Foi o seleccionador [António Oliveira] quem me disse para dispensar os seguranças do hotel... Apenas cumpri ordens. E não compreendo porque é que o meu caso só agora é julgado quando o do Oliveira foi sentenciado em Abril de 2000 e ambos foram metidos no mesmo dia...”
Falar de mais
A avaliar pela reacção do advogado de Joaquim Teixeira, Manuel Neto, o seu constituinte terá falado de mais. Considera mesmo não ter este razão para estranhar que o processo que moveu ir a julgamento quase três anos depois do de António Oliveira, que foi metido na mesma altura. Para Manuel Neto, este atraso ficou a dever-se à dificuldade em encontrar e chamar a depor um dos arguidos, o ex-jornalista da SIC, Jorge Schnitzer.
Seja como for, o teor das declarações de Joaquim Teixeira vem ao encontro dos rumores que já há algum tempo dão conta de uma ruptura entre ele e o ex-seleccionador António Oliveira. Teixeira estará magoado por ter sido votado ao ostracismo pelo mundo do futebol e pelo próprio António Oliveira na sequência do “caso Paula”, do qual saiu com a imagem muito penalizada enquanto outros, que tiveram um grau de envolvimento e responsabilidade superiores, passaram quase incólumes.
“Foi o seleccionador que me disse para dispensar os seguranças... Apenas cumpri ordens...” – afirmou ao jornal “A Bola”. Desde a eclosão deste escândalo, já lá vão cinco anos, Joaquim Teixeira trabalhou apenas em dois clubes, no Leça e no Nacional, quando antes era um treinador com mercado.
SIC pagou 25 mil euros a Oliveira
O processo movido pelo ex-seleccionador António Oliveira contra a SIC pela reportagem sobre o célebre “caso Paula” foi julgado em Abril de 2000. O ex-seleccionador exigia uma indemnização de 500 mil euros (100 mil contos), mas o Tribunal acabou por condenar a SIC ao pagamento de uma indemnização simbólica de 25 mil euros (5 mil contos).
Crucial para esta sentença foi o facto de a estação de Carnaxide não ter sido capaz, apesar de todos os esforços nesse sentido, de trazer à barra do tribunal a brasileira Angélica Cristina Ribeiro – a famosa Paula – cujo depoimento era considerado nuclear pelo juiz.
Um ‘caso Paula’ à espanhola
Em Espanha houve um caso idêntico ao da “Paula” e que envolveu cinco jogadores do Barcelona (Dani, Gerard, Kluivert, Cocu e Gabri) acusados de participarem numa orgia no hotel Hesperia, na véspera da partida com o Rayo Vallecano da I Liga espanhola, numa reportagem difundida pela Telemadrid e pelo diário digital Micanoa.com.
Os advogados dos jogadores exigem uma indemnização de cinco milhões de euros a cada um dos meios de comunicação social por intromissão ilegítima no direito à honra e à privacidade. No entanto, os “media” visados invocam o segredo profissional que a Lei lhes confere para não revelarem as fontes que estiveram na base da reportagem. O processo está em fase de julgamento e o juiz tem vinte dias para ditar a sentença.
Prostitutas haxixe e agressões
A história há muito que era conhecida nos meandros do futebol, mas passara ao lado da opinião pública, apesar de publicada no jornal “O Semanário”, que dela fez manchete dias depois da mesma ocorrer, omitindo, porém, os nomes dos intervenientes.
A 12 de Novembro de 1995, três dias antes do decisivo Portugal-República da Irlanda para a qualificação do Euro-96, no hotel Atlantic Garden, onde a selecção estagiava, teria ocorrido um bacanal envolvendo vários jogadores, entre os quais o portista Secretário, um dos autores do processo, e várias prostitutas brasileiras que culminaria com agressões físicas a uma delas, Angélica Cristina Ribeiro, obrigada a receber tratamento hospitalar e, posteriormente, foi sujeita a uma operação plástica.
A SIC fez, então, estoirar o escândalo, ao reconstituir, no programa "Os Donos da Bola", do dia 2 de Maio de 1997, com base em depoimentos de intervenientes directos e indirectos, os acontecimentos daquela noite. Uma das prostitutas, a já citada Angélica Cristina Ribeiro, a quem a SIC deu o nome fictício de Paula, contou em pormenor algumas das peripécias, desde o consumo de haxixe por parte de jogadores até agressões a algumas das prostitutas.
Ao mesmo tempo são tornados públicos diversos intervenientes, desde o ex-seleccionador António Oliveira aos jogadores Secretário, Fernando Couto e Vítor Baía, passando pelo ex-adjunto Joaquim Teixeira, a quem teria cabido a missão de recrutar as prostitutas num conhecido clube nocturno de Lisboa.
O caso teve repercussão nacional e as consequências imediatas foram a demissão de Pôncio Monteiro do programa depois de trocar duras acusações com outro dos comentadores, Gaspar Ramos, e de quase ter chegado a vias de facto com o director do desporto da SIC, Jorge Schnitzer, e o abalo sofrido pelo coração de António Oliveira, internado na UCI do Hospital de Gaia, sobre quem o médico do FC Porto, José Carlos Esteves, proferiu uma frase que entrou para o anedotário nacional, ao declarar ter havido uma tentativa de homicídio por meios audiovisuais.
Mas o impacto da reportagem atravessaria todos os quadrantes da sociedade portuguesa. Nem o Presidente da República passou à margem deste caso, exigindo publicamente uma investigação profunda para cabal esclarecimento dos factos.