Portugal-Rep. Irlanda, 1-1: Um empate de sabor amargo à laia de aviso para o futuro
O golo de Sérgio Conceição não chegou para a vitória e as entradas de Pauleta e Simão nada resolveram. A República da Irlanda complicou, é verdade, mas, paradoxalmente, chegou ao empate através de um elemento que entrara para segurar o nulo, actuando a trinco
UM EMPATE de sabor amargo, muito amargo mesmo, aquele que Portugal registou sábado, perante a República da Irlanda. Face às expectativas criadas, face ao potencial da nossa selecção - ainda em estado de graça após o Europeu -, não se previa um desfecho deste tipo, mais a mais depois da nossa selecção ter conseguido o golo. Mas o remate de Holland, o primeiro e único dos irlandeses em toda a segunda parte (!), silenciou o Estádio da Luz e fez com que a turma de António Oliveira perdesse dois pontos de forma bastante inesperada.
A República da Irlanda, por sua vez, repetiu o empate alcançado na Holanda e presta-se assim para dar luta às duas turmas que à partida detinham maior dose de favoritismo nesta corrida para o Mundial 2002. Curiosamente, Portugal e Holanda defrontam-se quarta-feira, numa partida agora ainda mais importante, se tal se pode dizer. Para meditar fica igualmente o facto de este empate poder - e dever - servir de aviso para o futuro, para os próximos jogos dos portugueses. Um alerta significativo.
Sábado, perante um público ávido de voltar a rejubilar com as fintas de Luís Figo e com os golos de Sérgio Conceição, a selecção nacional começou por ser uma equipa paciente. Cumpriu esta etapa a preceito, entrou na seguinte - de maior pressão - com a mesma lucidez e o golo do extremo do Parma não constituiu, na circunstância, qualquer surpresa. Portugal não só justificava a vantagem como, tudo o indicava, podia partir então para uma toada ainda mais convincente, com golos à mistura.
Foi então que o tal Holland, lançado ao intervalo pelo técnico irlandês para, imagine-se, segurar o nulo, decidiu-se por um remate do meio da rua, que bateu Quim sem apelo nem agravo.
No pouco mais de quarto de hora que faltava jogar assistiu-se à pressão portuguesa, é verdade, mas sem nexo e, pior do que isso, sem resultados práticos.
BETO À DIREITA
António Oliveira procedeu a algumas alterações, em relação à formação que fizera alinhar na Estónia, mas não mudou o esquema de actuar. Assim, Beto surgiu a lateral-direito, lugar para o qual não está rotinado e, embora não tivesse comprometido, também pouco ajudou em termos ofensivos, e, na esquerda; Dimas apareceu na vez de Rui Jorge; no meio-campo, Vidigal rendeu o lesionado Paulo Sousa, enquanto nos flancos a novidade foi dada por Sérgio Conceição, em detrimento de Simão.
O esquema, esse, manteve-se inalterável, com um trinco - Vidigal -, uma linha de três médios - Sérgio, Rui Costa e Figo - e os Pintos na frente de ataque.
Os irlandeses responderam num 4x4x2 típico do futebol britânico, com Roy Keane, naturalmente, a assumir as funções de patrão. Futebol atlético, aqui e ali mais pensado, mas, sobretudo, um futebol "chato" para adversários do tipo dos portugueses, uma vez que a aglomeração de elementos no meio campo impediu quase sempre que a selecção nacional explorasse esse sector do terreno como "trampolim" para as acções ofensivas.
Durante a primeira parte, não obstante os remates de Rui Costa e companheiros, a verdade é que Portugal praticamente não dispôs de uma ocasião de golo, digna desse nome. Quim ainda foi obrigado a brilhar, após trabalho dos dois Keane, mas o momento de maior frenesim nas bancadas foi dado quando Figo resolveu abrir o livro: duas jogadas colossais até obrigaram os nossos colegas da Imprensa da República da Irlanda, presentes nos camarotes da Luz, a soltar um "bruá" de espanto e admiração. Mas golos... nada!
MEXIDAS
Ao intervalo, McCarthy trocou um avançado (Quinn) por um médio defensivo (Holland), com o intuito claro de segurar o nulo. Portugal não acusou o toque, ao deparar com mais um par de pernas pela frente e continuou na sua toada paciente, do tipo "tantas vezes o cântaro vai à fonte...". A turma nacional surgiu mais determinada, mais veloz, e embora nem sempre conseguisse utilizar os flancos com a propriedade desejada o certo é que o fez com mais frequência do que nos iniciais 45 m.
O golo de Sérgio Conceição deu a ideia de que Portugal estava mesmo no bom caminho. Num ápice, Figo e João Pinto podiam até ter dilatado o "score". Em contrapartida, foi Holland a dar nas vistas. Alguma fortuna para uma turma que, até então, neste período, ainda nem uma vez rematara à baliza de Quim.
Neste particular, convenhamos, a selecção nacional não teve nenhuma luzinha a iluminá-la.
António Oliveira mexeu na equipa, num ápice, tirando João Pinto e Sá Pinto e fazendo entrar Simão e Pauleta. As trocas não surtiram efeito, até porque Portugal deixou de ter dois homens na área e passou a ter somente um, precisamente o avançado do Bordéus. Para as suas costas passou Figo, enquanto Simão e Sérgio Conceição ocupavam os flancos.
Mais tarde o seleccionador português ainda lançou Capucho, mas os dados estavam lançados e Alan Kelly, o guarda-redes irlandês, nem por um susto passou. Nestes últimos minutos, a equipa das quinas não exerceu a pressão ofensiva que o resultado então justificava.
É claro que este Grupo A de apuramento para o Mundial tem ainda muitos jogos pela frente e muitos pontos a conquistar e a perder. Nada de precipitações. O aviso está dado e é preciso, se calhar, mais audácia. As ausências do trio Nuno Gomes-Paulo Bento-Abel Xavier não pode servir de desculpa. Quarta-feira, em Roterdão, têm a palavra os jogadores em quem os portugueses, obviamente, continuam a confiar.
A arbitragem do búlgaro Ouzounov situou-se em bom plano. Nada de especial a apontar, o que é sempre sinal positivo.