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Nunca Portugal esteve tão perto do título, como no Mundial de 1966, organizado pela Inglaterra, que havia de conquistar o troféu. Suportada por um setor defensivo maioritariamente composto por jogadores do Sporting (com o reforço dos belenenses José Pereira e Vicente) e impulsionada pela força criativa daquela que era, à época, a melhor equipa da Europa, o Benfica, a Seleção Nacional cumpriu todas as expectativas até chegar à meia-final com os anfitriões. Liderada por Manuel da Luz Afonso e treinada por Otto Glória, a equipa encantou as plateias inglesas e confirmou o genial Eusébio como fenómeno, que acedeu à eternidade também conhecido por Pantera Negra e se tornou a máxima figura de uma cimeira na qual estavam todos os melhores do planeta.
Na fase de grupos, Portugal cumpriu a obrigação de vencer a frágil Bulgária, mas cometeu duas proezas marcantes: bateu a fortíssima Hungria, com dificuldade que o 3-1 final não expressa, e o Brasil, campeão do Mundo, em crise, é certo, mas senhor de potencial capaz de vergar qualquer adversário. Nos quartos-de-final, a Seleção mediu forças com a Coreia do Norte, apurada em detrimento da Itália. O jogo foi épico, Portugal sofreu três golos em 23 minutos e, para dar a volta, teve de recorrer ao melhor de si próprio. Eusébio marcou quatro golos e consolidou a imortalidade com essa proeza difícil de igualar.
A história do Mundial’1966 pode, efetivamente, ser contada a partir da presença portuguesa. Os jogadores nacionais foram protagonistas, aclamados pelo talento reconhecido, sentimento que resistiu à voragem dos anos e agitou gerações que nem eram nascidas na altura. A lenda de Eusébio, construída ao longo de toda uma carreira, conheceu em Inglaterra o episódio mais marcante. Dizia o ‘King’ que o Mundial, para ele, acabou com a derrota em Wembley, com a Inglaterra – saiu do relvado em lágrimas, triste pelo resultado e revoltado pela mudança do palco do jogo. Explicou um dia que o 3.º lugar lhe dizia pouco e até lançou um desafio: “Podem procurar, no jogo com a União Soviética, uma imagem minha a sorrir ou com expressão de felicidade. Não a encontrarão.” O título foi inglês, envolto na polémica de um golo na final, com a Alemanha, em que dúvidas permanecem sobre a sua legitimidade: não há certeza de que a bola rematada por Hurst tenha passado na totalidade a linha de golo. Questões modernas num jogo dos anos 60.
SELECIONADOR
Alf Ramsey (22/1/1920-28/4/1999)
Era um treinador com origem nos relvados, que pisou enquanto defesa-direito, ao serviço de Southampton e Tottenham. Internacional por Inglaterra foi chamado a orientar a seleção num Mundial em que o país depositava grande esperança. Homem áspero, com uma visão iminentemente britânica de entender o futebol, manifestou rudeza excessiva em várias ocasiões, como na sequência do jogo com a Argentina, em que proibiu os jogadores de trocarem de camisola com os adversários, a quem chamou de animais.
O GOLEADOR
Eusébio (1942-2014)
Portugal – 9 golos
Quando iniciou a competição ostentava o título de melhor jogador do Mundo, reconhecido pela ‘Bola de Ouro’ conquistada em função do que fizera no ano anterior. Eusébio foi o furacão que devastou Inglaterra à custa de um futebol arrasador, explosivo, potente, habilidoso e goleador. O efeito de essas semanas foi tão grande que, pela vida fora, sentiu o reconhecimento, o afeto e a paixão de um povo que nunca o esqueceu e sempre o venerou como ídolo. É bom enquadrar a realidade: não foi um anónimo a acariciar os corações dos adeptos; já tinha sido campeão europeu, chegado a mais duas finais da Taça dos Campeões, era ‘Bola de Ouro’ e máxima referência da melhor equipa do Velho Continente. Mais do que ter confirmado tudo isso, fez a lenda atingir dimensão ainda mais elevada.
A ESTRELA
Bobby Charlton (1937-2023)
Uma calvície enganadora
Sobrevivente à tragédia de Munique, em 1958, quando desastre de avião dizimou quase toda a equipa do Manchester United, Bobby Charlton tornou-se figura esplendorosa do clube e referência do futebol inglês, estatuto para o qual muito contribuiu a participação no Mundial de 1966. Ostentando com orgulho uma calvície divina que se tornou imagem de marca, era um avançado que raciocinava como centrocampista e, quando recuava para organizar a manobra de aproximação à baliza, fazia-o com o instinto dos finalizadores, razão pela qual, não sendo um goleador nato, estimulou relação íntima com o último toque – foram 249 golos pelo United e 49 por Inglaterra. Carrasco de Portugal na meia-final de Wembley, na qual apontou os dois golos da vitória, Bobby Charlton foi a grande estrela inglesa do título, superando mesmo a excelência de Bobby Moore, capitão e líder espiritual da equipa vencedora.
ESTÓRIA
Uma viagem impensável
Portugal excedeu as melhores expectativas na fase de grupos e foi épico nos quartos-de-final com a Coreia do Norte, ganhando por 5-3, depois de ter consentido três golos em 23 minutos – Eusébio encarregou-se de liderar a revolta com quatro golos. A palestra de Otto Glória, ao intervalo desse jogo, permanece como um dos episódios mais marcantes da caminhada, elogiada por todos quantos a escutaram. A vitória da Seleção levantou um problema à organização e, por inerência, à FIFA: a meia-final com a Inglaterra, com fase inicial mais pobre (empate com o Uruguai), estava marcada para Liverpool. A FPF foi sensível ao argumento de que a final antecipada do Campeonato do Mundo fosse em Wembley (mais relevância, mais espetadores, mais receita) e aceitou a indignidade (sempre se disse que em troco de uma compensação financeira). Na véspera do duelo, a comitiva fez a impensável viagem de comboio até Londres, dando conhecimento aos jogadores só na manhã do dia. Pela vida fora, Eusébio não calou a revolta, dizendo-se traído, ele e toda a equipa, por uma decisão que, no limite, poderá ter custado a Portugal o título. José Augusto, muitos anos depois, disse com todas as letras: “Se jogássemos em Liverpool, tínhamos ganhado essa meia-final”. Nunca se saberá. Fica, tão-só, a convicção de quem estava lá e viveu a história por dentro.
RESULTADOS