A tua cara não me é nada estranha

Gémeos Hélder e Tiago Lopes partilham uma história de sonhos e ambição

Nem os mais de 4700 km que separam Las Palmas, nas Canárias (Espanha), de Cluj, na Roménia, beliscam a proximidade entre os gémeos Lopes. Unidos pela cumplicidade de irmãos, paixão pelo futebol e desejo de triunfar ao mais alto nível, Hélder e Tiago viram os seus caminhos separarem-se em busca do sonho, mas a forte ligação entre os dois laterais mantém-se. Foi sempre assim. Mesmo quando as ruas de Gaia serviam de campo e os festejos de cada golo ecoavam como se do hino da Liga dos Campeões se tratassem. Fantasia de qualquer miúdo na sua idade. Mas, no seu caso, o sonho confundia-se com objetivo.

"Levávamos sempre a bola para a escola e nunca parávamos de jogar. Um dia o meu pai levou-nos aos treinos de captação do Coimbrões, acabámos por ficar e a partir daí foi sempre a subir por todos os escalões de formação. Foi algo que nasceu connosco", recorda Tiago Lopes, capitão dos romenos do Cluj, em entrevista exclusiva a Record. Apesar dessa aspiração ter nascido em tenra idade, os dois sempre tiveram bem definido o seu objetivo e nem os obstáculos que lhes foram surgindo ao longo do trajeto geraram qualquer tipo de incerteza. "Sempre acreditámos que poderíamos chegar a profissionais, mesmo sabendo que seria difícil. Eu, por exemplo, fui rejeitado muitas vezes. Mas as desilusões funcionaram como força extra para demonstrar a essas pessoas que estavam enganadas", conta Hélder Lopes, jogador que esta temporada trocou o Paços Ferreira pelos espanhóis do Las Palmas, à conversa com o nosso jornal.

Chegados a idade sénior, e ultrapassadas as maiores dificuldades, Hélder e Tiago fizeram as malas e partiram à aventura rumo a Itália, numa experiência que durou até 2010. O Sp. Espinho abriu-lhes a porta para o regresso a Portugal e o Tondela deu-lhes a possibilidade de continuarem juntos. Após muitos "êxitos, conquistas e emoções", o destino separou-os. Hélder deu o salto para a Primeira Liga e assinou pelo Beira-Mar, antes de vestir a camisola do clube que o projetou: o Paços Ferreira. Já Tiago mudou-se para o Trofense, permanecendo no segundo escalão, antes de se juntar ao Sp. Covilhã.

Reencontro de emoções e… marcas

Decorria a época 2013/14 quando os dois irmãos viveram o momento mais estranho – e ao mesmo tempo mais especial – das suas carreiras. "Era o meu jogo de despedida do Sp. Covilhã, já tinha tudo certo com o Cluj e jogávamos contra o Paços Ferreira, para a Taça da Liga. Lembro-me que o míster Francisco Chaló disse logo no início da semana, em tom de brincadeira, claro, que só tinha a certeza que eu iria jogar porque ia defrontar o meu irmão. Foi uma sensação única jogar contra ele", conta Tiago Lopes. Um reencontro tão inesquecível que deixou marcas... físicas. "Eu estava a jogar como lateral-esquerdo e ele como lateral-direito. Encontrámo-nos num lance e ele, sem querer, entrou mais duro. Acabei por me lesionar. Fiz uma entorse e fui substituído. Lembro-me que estive em dúvida até bem perto do jogo seguinte, que era frente ao Sp. Braga", recorda, bem disposto, Hélder Lopes.

Quem é quem

Hélder e Tiago são gémeos na verdadeira acepção da palavra. Para além das (muitas) semelhanças a nível da personalidade, fisicamente são praticamente… iguais. Sim, praticamente porque Hélder é mais alto… um centímetro. Um aspeto que até já beneficiou (e muito) os dois jogadores. "Uma vez, nos escalões de formação, ele ia ser expulso, pois já tinha amarelo, eu meti-me à frente, o árbitro confundiu-nos e acabei por ver o cartão amarelo que era para ele. Nem os próprios adversários perceberam", lembra, entre risos, Tiago Lopes. "Éramos completamente iguais. Baixinhos, magrinhos e era muito difícil distinguirem-nos. A única diferença é que eu era extremo e ele lateral", reforça Hélder.

Quero um igual ao teu

Atualmente, Hélder Lopes cumpre um dos sonhos ao jogar na Liga Espanhola, ao serviço do surpreendente Las Palmas, enquanto Tiago Lopes está em final de contrato com o Cluj e anseia por um novo desafio. O primeiro pensamento de ambos é continuar a encher de orgulho a família, o outro é a possibilidade de um dia voltarem a jogar juntos. "Sabemos que é difícil, pelos caminhos que seguimos, mas seria sempre muito bom porque saberíamos que quando as coisas não corressem tao bem, teríamos ali um apoio. Seria um privilégio e um orgulho muito grande voltar a jogar com ele", admite o esquerdino Hélder Lopes, revelando outro desejo comum ambos: "Se pudesse ter o meu pé esquerdo e o direito dele era o jogador ideal."

E como no futebol tudo pode acontecer, quem sabe, um dia, Hélder e Tiago possam preencher as laterais da mesma equipa. Até lá, os dois irmãos vão continuar a correr atrás dos sonhos, tal como em meninos. Daí até aos dias de hoje, a união e a cumplicidade apenas se fortaleceram. A única diferença é o ambiente. As ruas de Gaia deram lugar aos grandes palcos do futebol europeu e os hinos, esses, são agora bem reais.

Por Fábio Aguiar
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