Euro'2004: Depois da festa... as faturas
Faz hoje 15 anos que portugal foi escolhido para organizar o Euro'2004. Tudo correu bem... O pior são as dívidas ainda por pagar...
Quando, naquela manhã do dia 12 de outubro de 1999, Lennart Johansson anunciou que Portugal ia organizar o Euro’2004, a euforia apoderou-se do país. Naquela manhã de há precisamente 15 anos e naquele hotel da pequena cidade alemã de Aachen, as palavras do sueco que dirigiu os destinos da UEFA entre 1990 e 2007 fizeram particularmente feliz o quarteto por trás da candidatura nacional: Gilberto Madaíl, o então presidente da FPF, Carlos Cruz, o estratega da promoção, Miranda Calha, o secretário de Estado do Desporto à altura, e José Sócrates, o ministro adjunto que personificou o apoio incondicional do Governo português ao projeto.
Mas nem tudo foram rosas. A começar... pelo fim. O certame foi animado, entretido, a Seleção Nacional chegou ao jogo decisivo, mas, logo ali, sofreu uma das suas maiores desilusões ao perder o título europeu para a Grécia. O pior foi a herança deixada por um investimento a rondar os 650 milhões de euros só em estádios – o investimento total ultrapassa os mil milhões (!) –, sobretudo na construção e remodelação de um número (10) não exigido pela UEFA.
A construção dos 10 estádios foi conseguida com verbas do Estado e com o apoio de fundos europeus, mas houve derrapagens em relação aos contratos-programa iniciais e as autarquias (e os clubes) ainda hoje suportam dívidas a construtores e bancos.
Problemas
Recintos como os do Algarve, Aveiro ou Leiria, mas também os de Coimbra e Braga, debatem-se, hoje, com elevados custos de manutenção e dívidas à banca, que, em alguns casos, equivalem a liquidações anuais de 13 milhões de euros só em juros.
“O grande problema do Estádio Algarve é que esta região, com cerca de 450 mil habitantes, não tem dimensão para um equipamento daquele tipo. Consegue-se um ou dois eventos por ano, que enchem o estádio, mas é difícil fazer muito mais com eventos que tenham sustentabilidade financeira”, diz o presidente da Câmara de Faro, Rogério Bacalhau, a Record.
Em Leiria, está um dos casos mais preocupantes. O estádio, que está nas mãos da câmara, deixou de receber os jogos da U. Leiria em 2011 – o clube pagava 17.500 euros por jogo – e a prioridade passa, agora, por rentabilizar a estrutura. “O projeto do estádio trouxe uma situação financeira extremamente gravosa para o município, por tratar-se de um estádio caro e mal planeado. O município paga o serviço da dívida ao banco, cerca de 6 milhões de euros/ano, e isso adia projetos relacionados com o bem estar social, como escolas, saneamento e outras obras”, lamenta o vereador Gonçalo Lopes, salientando que a autarquia conta liquidar a restante dívida até 2024.
Manuel Machado, presidente da Câmara de Coimbra, é que não está para lamentos e considera mesmo o estádio da cidade um “investimento rentável e autossustentável”. O autarca defende, a Record, que a câmara não se endividou desmesuradamente, até porque, segundo argumenta, “a cidade tinha de investir num estádio e aproveitou bem a oportunidade”.
Passagem de mãos
As empresas Benfica Estádio e a Sporting Património e Marketing que exploravam os estádios das respetivas casas-mãe foram inseridas a 100% na estrutura das SAD, a primeira no final de 2009 e a segunda no ano passado. Este mês, foi a vez de 50% da EuroAntas ser incorporada na SAD do FC Porto. São dívidas de milhões que as SAD tomaram a seu cargo. É claro que o problema é menor com estes clubes, pois a exploração dos recintos – até comercial – serve para equilibrar as contas.
Uma maneira de rentabilizar os espaços, para além das zonas comerciais e do público (que muitos recintos não conseguem atrair), tem sido o de organizar eventos extra-futebol, como concertos musicais ou organização de provas de outras modalidades. Certo é que as dívidas permanecem e são grandes. Primeiro, todos quiseram fazer a festa. Agora é tempo de pagar a fatura.
E Portugal nem é o pior
Portugal, apesar dos custos elevados que ainda está a pagar com a construção e remodelação de 10 estádios para a organização doEuro’2004 acabou por gastar menos do que os países que organizaram as edições seguintes, embora em 2008 (Áustria e Suíça) e 2012 (Polónia e Ucrânia), os valores envolvidos fossem a dividir por dois.
Pior está a França, que vai receber opróximo Europeu e cujo investimento em estádios está estimado em 1,6 mil milhões de euros, quase mais mil milhões do que foi gasto em Portugal, país que até envolveu mais dois recintos do que os outros.
Analisando o quadro de baixo, verifica-se que os estádios do Euro’2012 foram os que mais custos envolveram – mais de 2 mil milhões (!) – e que o Euro’2008 é o mais “económico”, embora com menos estádios do que o certame no nosso país.