Eusébio: «Em Timor-Leste não sou estrangeiro»
Rasteiro, devagar e rematado para o lado esquerdo. Combinado antes, diplomaticamente, marca um "embaixador" e defende um presidente. Um "penalty" a fazer história. Eusébio, à "civil", Xanana Gusmão, com uma apertada camisola de guarda-redes, número 20, e sapatilhas emprestadas por um jornalista da BBC.
"A presidentes... do Benfica... não. Não posso marcar um golo ao Benfica, muito menos a um amigo. Ainda se fosse do Sporting", explica Eusébio a Record.
Estádio Municipal de Díli, era intervalo, já tinha havido uma invasão de campo e dezenas de bolas de futebol foram assinadas e distribuídas, ao pontapé, pelas duas "estrelas" e pelo primeiro-ministro, Mari Alkatiri. "É para animar o povo", explica Xanana, abraçado a Eusébio. "Já estamos é a ficar velhos". Um queixa-se das costas, outro do joelho. Viram-se a última vez no Mundial da Coreia.
Um "penalty" que já valeu a visita do "Pantera Negra" a Timor-Leste, que marcou o dia e que fez esquecer a derrota dos militares portugueses frente à selecção nacional timorense. Um esclarecedor 3-0 que poderia ter sido muito mais expressivo. "Quando chegar ao 4 a 0 mando parar", tinha já desabafado o presidente da Federação de Futebol de Timor-Leste, Francisco Kalbuadi. No aeroporto já tinha ficado um sinal do que representa a visita. Domingos Mesquita, ex-jogador e agora treinador do Sport Díli e Benfica, levou os juniores para ver Eusébio. Não se lembra do último jogo "a sério" do tempo português mas queixa-se que "com a liberdade do 25 de Abril, os jogadores meteram-se na política e deixaram de treinar". Lamentações do ministro dos Negócios Estrangeiros, José Ramos Horta, de saída e que apenas pode dar um abraço a Eusébio. "Fico verdadeiramente desapontado de partir quando esse mito gigante chega. Não sou fã do Benfica, muito pelo contrário, estamos em campos opostos, mas o Eusébio é uma figura mundial, consensual de todos os que minimamente gostam do desporto", disse o assumido sportinguista.
Mas foi no estádio que o poder de Eusébio mais se fez sentir. "É um prazer dar as boas vindas ao nosso querido irmão Eusébio da Silva Pereira", disse Francisco Amaro, o comentador de serviço que depois, para a televisão nacional, ajudou a explicar os lances mais importantes do desafio.
"Estou aqui com orgulho. Timor-Leste é a minha casa. Cá não sou estrangeiro", respondeu o "rei" português, justificando que não era "homem de discursos" e que "sabia discursar ali, naquele campo de futebol". "Se precisarem de um ponta-de-lança aí, vou dar um ajuda", acrescentou.
E foi de futebol, a pensar no Benfica-Porto de terça-feira, que vai ver em directo num hotel em Díli (às seis da manhã de quarta), que deixou a última opinião, envolta em esperança.
"É sempre um jogo difícil, mesmo jogando em casa. O Benfica está a atravessar um bom período, mas o Porto também. Como benfiquista acredito numa vitória para segurar o segundo lugar e em especial depois da igualdade que o Sporting cedeu na deslocação ao estádio do Belenenses."
Um diferido a três câmaras
Não pode ser em directo porque não há meios. Mas foi em diferido, logo a seguir ao jornal da noite. A primeira vez na história da Televisão de Timor-Leste (TVTL) que um jogo nacional era transmitido na íntegra. Uma equipa de 12 pessoas, uma realização de Josefino Babo, três câmaras, relato (de Nélio Tavares) e comentador "residente" (Francisco Amaro). A regie nas traseiras de um camião militar. Uma ajuda técnica do operador de imagem da RTP em Timor-Leste, Pedro Valador. O guião eram umas noções apanhadas de ver muitas transmissões de jogos de futebol...
«Ó meu capitão, suba... suba meu capitão»
Quem mais sofreu no 3-0 foi o treinador português. Tinha uma equipa que, "à Zé Tuga", fez "dois ou três treinos e toca a jogar" e no campo patentes superiores. "Ó meu capitão, suba... suba...", gritava, garantindo que nos "balneários" não tinha problema: "Eu ali falo à vontade, quem manda sou eu". O jogo é que estava a correr mal e a táctica de 4-3-3 não funcionou. Na segunda parte as instruções já eram outras: "Ó Rocha... ceifa pá. Vai-lhes aos pés", dizia, sempre junto à linha. A complicar a coisa, o facto de, ao contrário do combinado, os timorenses terem aparecido com um equipamento diferente, obrigando os portugueses, a meio do jogo, a trocar de camisolas. Comentadores de bancada eram mais directos na análise. "É muita Sagres... É muito bacalhau e muito feijão". Talvez isso explique as sete substituições.
Uma polémica ao tamanho de Timor
O palmarés da selecção de Timor-Leste é curto mas a sua primeira deslocação ao estrangeiro já tem polémica. Em causa está a participação na ASEAN Cup, no grupo do Sri Lanka e de Taiwan. A guerra é entre a Confederação de Desportos, chefiada por João Carrascalão – presidente da União Democrática Timorense –, e a Federação Futebol de Timor-Leste, liderada por Francisco Kalbuadi, deputado da FRETILIN. Carrascalão teima que a equipa ainda não está acreditada na Confederação, necessário para poder ir à Cup. Kalbuadi responde que não precisam da confederação para nada. A FFTL já está acreditada na FIFA e vai mesmo. A "casa" para Timor-Leste será Singapura – não há campos em condições neste país. Os jogos serão lá para Maio.