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Análises em vídeo publicadas no Facebook e Youtube agradaram a Paulo Fonseca
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O Shakhtar Donetsk caminha para a conquista de mais um campeonato. O êxito costuma ser associado a quem dá a cara, mas há outros portugueses fundamentais no trabalho liderado por Paulo Fonseca. Tiago Leal é o observador e, com a ajuda do vídeo, faz a análise da própria equipa e dos adversários. Costuma dizer-se que a sorte dá muito trabalho e a história deste técnico mistura as duas coisas. Em 2014, Paulo Fonseca viu uma análise em vídeo do Portugal-EUA feita por Tiago Leal e poucos dias depois convidou-o para trabalhar no Paços de Ferreira. Hoje, é um dos responsáveis pelo futebol que até encantou Pep Guardiola. E tudo começou nos jogos de computador...RECORD - Quais foram os seus primeiros passos no futebol?
TIAGO LEAL - Eu gostava de jogar futebol mas a habilidade para a prática não era a melhor. Comecei a ser influenciado pelos jogos de computador da altura, como o ‘Championship Manager’, depois denominado de ‘Football Manager’. Uns anos depois começa aquele impacto de José Mourinho no FC Porto e comecei a ser absorvido por essa área da organização, do treino e do exercício. Tinha cerca de 15 anos. Mais tarde, entrei para a faculdade e, ainda durante a licenciatura em Desporto, sou convidado para ser treinador no campeonato futebol amador (Mesão Frio). Daí sigo para o Valpedre e o presidente disse aos jogadores que tinha ido buscar o ‘Mourinho de Penafiel’. Ou seja, tinha 21 anos e já era treinador principal, o que me deu uma bagagem enorme e acabou por ser o meu laboratório de experiências. Era um rapaz novo e cheio de ideias, com influências de José Mourinho e André Villas-Boas. Desenvolvi muito a parte da liderança, já que eu, como treinador, era mais novo do que quase todos os jogadores. Aliás, sempre senti que a liderança faz parte da personalidade, não tem a ver com a idade. Implementei coisas diferentes, algo a que os jogadores não estavam habituados no futebol amador. Aliás, na altura eu era o único treinador pago no futebol amador. Dou o salto para o Paredes e fico com a camadas jovens, mas não era a minha praia. Sentia falta do stress e da pressão dos resultados. Seguiram-se mais 4 anos no futebol federado em divisões distritais.
R - Como entrou na equipa técnica de Paulo Fonseca?
TL - Dava aulas durante o dia, depois ia para o treino e, quando chegava a casa, consumia muito futebol. Via o Barcelona, Juventus e outras equipas e comecei a utilizar os vídeos dos jogos para fazer análises críticas, o que achava que estava bem e mal. Os aspetos positivos serviam para aplicar nas equipas que treinava e também dava a minha opinião sobre o que faria diferente. Basicamente, essas análises em vídeo eram uma forma de divulgar quem eu era. Vim de um meio pequeno, não tinha muitos contactos e assim crescia como treinador e, quem sabe, podia fazer chegar o meu trabalho a algumas pessoas através do Facebook e Youtube. Durante 8 anos, muitas pessoas do futebol adicionaram-me e deram-me os parabéns. Encontrei-me com muitos treinadores e vários disseram-me que a minha oportunidade iria surgir. E eu andava na luta. Em 2014, Portugal defrontou os Estados Unidos no Mundial e eu fiz a análise em vídeo a explicar por que razões, na minha opinião, a nossa Seleção tinha empatado. Na altura, o Paulo Fonseca era comentador de um canal de televisão e, acidentalmente, viu o meu vídeo. E quando o viu, pensou: "Este rapaz viu as mesmas coisas que eu. Os reparos que ele faz são os mesmos que eu vou enumerar no programa". Ele e o adjunto Nuno Campos começaram a ver outros vídeos meus e a perguntar por mim a outras pessoas. Até que um dia recebo um telefonema: "Estou, é o Paulo Fonseca. Vi um pouco do teu trabalho e gostava de encontrar-me contigo pessoalmente para conversarmos". Ele tinha acabado de assinar pelo Paços de Ferreira, encontrámo-nos no gabinete dele e a conversa durou duas horas. Discutimos as condições, chamou-se o presidente e a partir desse dia ficou decidido que ia trabalhar com o Paulo Fonseca no Paços de Ferreira. Claro que, antes, o Paulo ligou para muita gente a recolher informações sobre mim.
R - O que lhe disse ele na altura?TL - O Paulo Fonseca contrata pessoas pela competência e não por conhecimentos ou cunhas. E eu sou a prova disso. Ele tinha acabado de sair do FC Porto, tinha vários contactos, empresários a tentar colocar adjuntos e ele escolheu-me. Naquela reunião, ele disse-me que eu ia trabalhar com ele no campo e também fazer observação. Eu fui frontal e disse-lhe que nunca tinha sido observador de ninguém e que era um treinador de futebol. E ele respondeu-me: "Tiago, eu estou a contratar os teus olhos, o que tu vês. Porque o que eu vejo nos teus vídeos é como eu vejo o futebol".
R - Em que consiste a função de analista?
TL - Além do trabalho em campo, a minha função é, após o treino, fazer a análise dos adversários e ainda a análise da própria equipa. Ou seja, o trabalho que fazia e publicava na Internet é o que faço agora.
R - Devem ser muitas horas agarrado ao computador...
TL - Sim, porque é um trabalho minucioso. Além disso, eu sei que o Paulo Fonseca confia em mim a 100%, aliás a 1000%, e por isso não tenho margem de erro. São centenas de jogos por ano, ver e analisar. Ver um jogo demora 90 minutos; analisar demora, no mínimo, três horas. Puxa para a frente, para trás, corta, observa, legenda, desenha... Enfim, mas eu gosto disto, sou viciado em futebol.
R - A tecnologia tornou-se indispensável?
TL - Sem dúvida. O futebol está tão desenvolvido que a este nível - falo de de competições europeias, por exemplo - os jogos são definidos ao milímetro. E quem tem mais sucesso são aqueles que conhecem melhor o jogo e a análise é uma ferramenta imprescindível. A forma como analiso agora não é a mesma de há 4 anos. Quando comecei, era um usuário informático comum e a tarefa como analista obrigou-me a dar passos em frente e a evoluir no manuseamento de programas de análise. Mas atenção: o melhor software que existe para a análise é a competência. E isso não se compra. As tecnologias são determinantes para a transmissão da informação; a ferramenta mais importante para a análise é a competência e o conhecimento do futebol.
R - De que forma é feita a apresentação em vídeo aos jogadores?
TL - Normalmente, envio o vídeo da análise do adversário para toda a equipa técnica e, no primeiro dia de trabalho da semana, debatemos alguns aspetos para planearmos o treino em função do que vimos do adversário. Depois, o vídeo é apresentado aos jogadores pelo Nuno Campos, o braço-direito do Paulo Fonseca. Quanto à análise da nossa equipa, é um vídeo que também é visto por toda a equipa técnica e entre todos decidimos se mostramos à equipa toda ou se, por exemplo, apresentamos apenas ao sector defensivo, caso se trate de um conteúdo mais pertinente para os defesas. Também podemos fazer uma apresentação individual. Ou seja, não fazemos sempre da mesma maneira e a forma como a informação é passada aos jogadores também não.
R - A sua carreira ao lado do Paulo Fonseca tem sido ascendente: Paços de Ferreira, Sp. Braga e Shakhtar Donetsk. Ou seja, alguns jogadores mais modestos, outros mais consagrados. A aceitação do vídeo é a mesma independentemente do estatudo do futebolista?
TL - É uma pergunta muito interessante. As equipas do Paulo Fonseca possuem um ADN muito próprio e os jogadores têm de conhecer o jogo como as palmas das mãos. Numa equipa que quer ser protagonista e dominar, seja qual for o adversário ou o estádio, todos são obrigados a saber o que têm de fazer em todos os momentos e circunstâncias. E isso leva-nos à complexidade do nosso futebol, que tem muitas variáveis e detalhes. E numa fase inicial os jogadores acham que somos malucos. Por exemplo, nós falamos de posição do pescoço e dos pés, da forma como rodam o tronco... E eles devem ficar a pensar: "Mas eles estão a falar de futebol?". É que nós somos muito perfecionistas e levamos o nosso estilo ao limite. E qual é o limite? Não existe, queremos sempre mais e melhor. E o vídeo é a prova da nossa performance e permite mostrar aos jogadores o que estamos a fazer bem e mal. Afinal de contas, é uma via de ensino. Uma coisa é eu dizer ao jogador: "Na situação em que sofremos golo, o central esteve mal porque devia ter basculado mais ao corredor e a bola passou no espaço central-lateral". E ele responde-me, diz que sim ou não. Outra coisa é eu mostrar o vídeo, a imagem está lá e a absorção da informação é totalmente diferente e muito mais eficaz. O vídeo é a prova visual de que o aquilo que nos dizemos aos jogadores dá resultado. Numa fase inicial é complicado e aconteceu em todos os clubes por onde passámos, porque muitos jogadores não estão habituados a tantos detalhes, tantas especificidades sobre o que é jogar futebol. Ao longo do tempo os jogadores vão percebendo que a equipa técnica tem razão e passam a aceitar. E mais: depois vemos para que clubes vão os jogadores depois de serem treinados pelo Paulo Fonseca para perceber que é um treinador visionário.
R - O Shakhtar Donetsk costuma partilhar vídeos nas redes sociais sobre o 'The Fonseca Style'. Afinal, em que consiste o 'estilo Paulo Fonseca'?TL - É um conceito que o clube criou, porque o Shakhtar nunca foi o que é agora. O Paulo Fonseca teve um impacto enorme. O clube ganhava muitos títulos, mas nunca jogou assim. Teve o Mircea Lucescu durante muitos anos e os adeptos estavam habituados a esse estilo. E bem, cada treinador tem o seu estilo. A ideia do Paulo é completamente diferente. Por exemplo, a equipa com Lucescu fazia muitas marcações homem a homem. Nós somos contra isso. Ofensivamente, jogava à espreita do erro do adversário e esperava atrás para sair em contra-ataque; connosco, o Shakhtar quer assumir o jogo e geralmente é uma equipa de ataque planeado. O 'The Fonseca Style' tem a ver com a espectularidade da equipa do Paulo Fonseca: poucas ou nenhumas oportunidades concedidas ao adversário, pela forma pressionante e rigorosa como defende – e normalmente defende muito longe da sua baliza. E tem também a ver com o atrevimento e a atitude dominante que a equipa tem no jogo. Geralmente, temos sempre a bola e marcamos golos precedidos de 18, 20 ou 24 passes seguidos. O Paulo Fonseca até costuma dizer isto e não é num tom ofensivo: "Gostamos de subjugar o adversário ao nosso jogo". Dá-nos prazer ter a bola e colocar o adversário a correr atrás da bola. Nenhum jogador gosta de correr atrás da bola, gosta de correr com bola. O Shakhtar tem uma forma de jogar muito própria baseada no domínio constante do jogo para causar danos na estrutura do adversário. No campeonato ucraniano temos índices de posse de bola de 65% a 68% em média, e em muitos jogos fazemos 18 ou 20 remates e o adversário faz apenas um ou dois. Ou zero mesmo. E em quase todos os jogos temos equipas com 11 jogadores atrás da linha da bola, o que faz com que tenhamos de ter paciência. Atenção: se pudermos fazer um golo em 5 passes fazemos. Mas como os adversários têm uma abordagem ultradefensiva isso obriga-nos a circular a bola até termos o espaço para chegar à baliza.
R - "É uma das melhores equipas que já defrontei. Bem organizada defensivamente e com jogadores habilidosos e rápidos. Se nós não jogámos com a intensidade habitual foi porque o adversário não nos deixou. É uma equipa brilhante". Sabe quem disse isto? Pep Guardiola, depois do primeiro jogo entre o Manchester City e o Shakhtar Donetsk na fase de grupos da Liga dos Campeões...
TL - Porque o Guardiola viu os nossos jogos e teve de ficar surpreendido. A Liga dos Campeões é uma janela de oportunidade para o Shakhtar, porque ninguém vê o campeonato ucraniano, e tenho a certeza absoluta de que o Guardiola ficou admirado quando nos viu. Ninguém esperava que houvesse uma equipa na Ucrânia com um futebol tão criterioso e modernizado. E o Pep Guardiola tem tudo a ver com isto. É raro vermos equipas com atitude de futebol positivo, de querer jogar e marcar. Ele ficou surpreendido pela forma atrevida como encarámos os jogos com o Manchester City, mas nós jogamos da mesma maneira independentemente de jogar contra A, B ou C. Às vezes até incomoda algumas pessoas ver o atrevimento com que o Shakhtar jogou com o Nápoles, Manchester City e a Roma. E com a Roma, por exemplo, só não vencemos o jogo em casa porque o Alisson esteve fantástico e porque o Bruno Peres evitou um golo feito. Podíamos ter goleado a Roma em casa. Nós não temos medo de sermos nós próprios e depois o jogo dita o resultado. A bola é redonda e são 11 contra 11.
R - Depois destes elogios públicos houve alguma conversa privada entre Pep Guardiola e Paulo Fonseca?
TL - O Guardiola esteve a falar com o Paulo Fonseca ainda no relvado, voltaram a falar depois e novamente com muitos elogios à forma como o Shakhtar se apresentou. Porque, no fundo, ele gosta de ver aquele tipo de futebol na equipa dele e nos outros. Não posso contar muito mais porque são conversas privadas e pessoais que não queremos, nem precisamos, de colocar a circular na opinião pública.


R - Além dos elogios dos outros, já percebemos que a equipa técnica do Paulo Fonseca tem muita confiança no trabalho que faz. Acredita é possível repetir o sucesso num campeonato mais exigente, como Inglaterra, Espanha ou França?
R - Além dos elogios dos outros, já percebemos que a equipa técnica do Paulo Fonseca tem muita confiança no trabalho que faz. Acredita é possível repetir o sucesso num campeonato mais exigente, como Inglaterra, Espanha ou França?
TL - Não tenho dúvidas. E isso não tem a ver com arrogância, tem a ver com factos. E os factos dizem que, do Paços de Ferreira ao Sp. Braga até chegar ao Shakhtar, todas essas equipas jogaram um futebol vistoso e apresentaram resultados. Tudo tem sido feito de forma ascendente e à medida que vamos tendo jogadores melhores, mais fácil é replicar as nossas ideias. Acreditamos que é uma evolução natural chegar a um clube melhor com melhores jogadores a idea é ter mais sucesso. Tirando a etapa no FC Porto, há um ascendente permanente e de afirmação das ideias do Paulo Fonseca. Por isso, temos todas as condições para chegarmos ao patamar onde eu acho que o Paulo Fonseca pertence: ao grupo das melhores equipas do Mundo.
R - E quanto a si, quer continuar como observador do Paulo Fonseca ou gostava de ser treinador principal?
TL - Eu já fui treinador principal durante 5 anos e já não tenho essa fantasia de conhecer esse Mundo. Trabalho com o Paulo Fonseca e sinto-me valorizado todos os dias, sei que tenho um papel ativo na performance da equipa. Neste momento, nem penso em ser treinador principal. E mais: é muito difícil chegar a este patamar, já que o Shakhtar tem uma dimensão assinalável. E quando se chega a este nível não é fácil dar cinco ou seis passos atrás e começar tudo de novo, até porque já passei por isso. E, para mim, ganhar títulos e jogar grandes provas é um vício. Para ser treinador principal não iria começar numa grande equipa e iria sentir falta dessa pressão. Acredito que ainda há muitas coisas boas para acontecer connosco e, já que participei nesta caminhada ascendente, quero contribuir para que o Paulo Fonseca continue a subir a escada.
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