«Deixava as minhas filhas comerem arroz e feijão puro, mas a droga não me faltava» 

Flávio Donizete, hoje com 35 anos, tenta reerguer-se depois de ter caído nas teias da cocaína

Campeão do Mundo de clubes, vencedor da Taça dos Libertadores da América, campeão do Paulistão. Sempre pelo São Paulo, o clube onde começou a jogar. Flávio Donizete tinha tudo para ter uma vida desafogada, mas a cocaína atravessou-se no seu caminho e destruiu tudo. Destruiu-lhe a carreira, levou-lhe o dinheiro, os amigos e por pouco não lhe tirou a família. Hoje, aos 35 anos, o defesa tenta voltar ao futebol depois de ter passado pelo inferno das drogas. Ao site UOL contou aquilo por que passou ao longo de sete anos de vício. Na primeira pessoa. Está limpo há 6 meses.

Em 2009 terminou o contrato com o São Paulo e Donizete resolveu tirar umas férias antes de assinar por outro clube. Passou a frequentar festas, noites regadas com muito álcool, e num ápice entrou no mundo da droga, incentivado por uns 'amigos'. "Eles disseram-me 'cheira'!' Eu cheirei e naquele momento o efeito da bebida passou. 'O que é isto?'. Toda as vezes que saía, dizia: 'hoje posso beber até à hora que quiser porque, quando usar cocaína vai passar o efeito. Vamos lá buscar!'"

O uso esporádico da cocaína passou a ser cada vez mais frequente. "Eu não parava em casa, era só festas e bebidas alcoólicas. Houve épocas em que eu não passava um dia sem usar cocaína." 

O futebol foi ficando cada vez mais de parte, até porque Donizete tinha medo de ser apanhado num controlo antidoping. "Comecei a engordar por causa da bebida, lesionei-me num joelho e não conseguia correr. Tudo junto com a cocaína. Então disse 'acabou'. Larguei de vez de futebol."

A vida de luxo que tinha com a família, as festas caras que dava para as filhas, as roupas de luxo que a mulher comprava, tudo isso acabou. Donizete gastou o que tinha e o que não tinha. "Era droga todo dia. Quando estava sozinho, tentava manipular, enganar, roubar e omitir. Fazia de tudo para conseguir a substância. A qualquer preço. Independentemente de prejudicar alguém ou não. Eu queria droga, eu ia e conseguia a droga". 

Muitas vezes à custa da família... "Se conseguisse 15 reais e não tivesse nada para comer, não pensava em trazer o dinheiro para casa. A primeira coisa era a cocaína. Às vezes as minhas filhas ficavam sem comer. Eu conseguia uns 20 reais, gastava 5 em ovos e o resto em cocaína. Às vezes, nem trazia os ovos. Deixava-as comer arroz e feijão puro, mas a minha droga não faltava". 

Mas tudo isto pesava-lhe na consciência. "Depois vinha o sentimento de culpa por estar desempregado, sem dinheiro. As pessoas acusavam, apontavam-me o dedo dizendo que eu era um vagabundo, um safado. Os amigos e a família começaram a afastar-se. Você já começa a sentir-se menosprezado. Achava injusto, mas a verdade é que não era."

Donizete conta que só conseguiu superar o problema com a ajuda da mulher, Cibele, a sua companheira há 15 anos.. "Ela é meu anjo da guarda. Acho que é amor demais. Hoje consigo ver isso. Amo-a muito. Posso fazer muitas outras coisas por ela, mas nunca vou conseguir retribuir o que ela fez por mim. Não há como pagar isso. Às vezes, ela 'briga' comigo. Eu olho para ela e rio-me: 'Eu amo-te, eu realmente amo-te'. Lembro-me de tudo o que ela viveu no passado para me ter. Se a Cibele me abandonasse hoje, eu procuraria droga na primeira esquina. Se ela não estivesse comigo, já teria atirado tudo ao ar."

E é Cibele quem faz o papel de polícia. "Eu não ando com dinheiro. Nunca. Se estiver sozinho e tiver 10 reais na carteira, sei que vou atrás da droga. Já aconteceu de ter uns 20 reais e ficar a pensar.. A minha mulher percebeu e disse: 'A partir de hoje você não anda mais com dinheiro na carteira'", conta. "Há momentos que tenho muita vontade de usar drogas. A minha mulher fica 'colada' a mim 24 horas por dia. Se vou à casa de banho, se for à rua colocar o lixo, ela está atrás de mim. Onde quer que eu vá. Sem esse suporte, a minha queda seria certa."

"A cabeça de um viciado, de um dependente químico, não pára. Estou a conseguir, mas não é fácil. É um leão. Dois leões. Três leões por dia. A droga causou-me tantos estragos e prejudicou-me tanto que hoje tenho medo de andar sozinho."

E há algo que já aprendeu: "Evito lugares, pessoas e ambientes. Hoje não posso beber um copo de cerveja porque aciona um gatilho. O corpo pede a droga. Quando eu bebo um copo, automaticamente dá-me vontade de usar drogas. Já vivi essa experiência: 'não posso usar cocaína, mas posso beber uma cerveja'. Bebi um copo de cerveja e a primeira coisa que eu fiz foi gastar 50 reais em droga. Hoje, já me policio..."

Agora quer perder 3 quilos, recuperar a velocidade de outrora e voltar ao futebol. A 'Portuguesa' abriu-lhe as portas: "Estou a encarar isto como a oportunidade da minha vida, a oportunidade única de voltar. De realizar um sonho que para mim tinha sido perdido há algum tempo. É aquele sonho de criança de poder jogar que toma conta do meu coração. Quando entro no campo, lembro-me do começo, do sofrimento que foi de chegar a um clube de grande expressão. Preciso disso para me manter feliz e me manter limpo. Com a cabeça boa. Acho que o futebol está a ajudar-me bastante com relação a isso."

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