Cenário de guerra em Espírito Santo: Isaías vive drama familiar

Mãe, irmãs e sobrinhos do ex-benfiquista, em ambiente de terror, estão "refugiados em casa"

• Foto: Arquivo/João Trindade

Isaías Soares, ex-jogador do Benfica, é, pelo menos para os portugueses, o mais famoso atleta natural do estado do Espírito Santo (cidade de Linhares), que vive num autêntico caos, desde que a greve das forças policiais fez eclodir uma onda de violência sem precedentes.O antigo avançado, de 53 anos, que no nosso país passou também por Rio Ave, Boavista e Campomaiorense, descreve a Record um ambiente de horror. Em Cabo Frio, a cerca de 350 quilómetros do foco dos principais problemas, Isaías contacta diariamente com os familiares que estão no centro de todas as convulsões.

"Está lá a minha mãe, que vai completar 87 anos, as minhas irmãs e sobrinhos. A cidade está nas mãos da bandidagem e ninguém pode sair de casa. Estão assustadíssimos, como é óbvio. Tanto eles como a grande maioria das pessoas que vive no estado de Espírito Santo. A população tenta refugiar-se em casa."

A viver um drama , Isaías, mesmo assim, não perde a lucidez e faz a sua leitura dos acontecimentos dos últimos dias. "Todo este caos tem a ver com os problemas das forças de segurança, que decidiram paralisar pois não têm aumento salarial há mais de três anos. O governo não quer ceder a estas exigências e instalou-se o pânico entre as pessoas. Não existem as mínimas condições de segurança. Estão todos à mercê dos bandidos. Só espero que tudo se resolva pelo melhor..."

O ex-jogador do Benfica (1990-1995), clube pelo qual apontou 71 golos em 178 jogos, mostra-se especialmente crítico face à situação política e social do seu país. "Tudo isto é fruto de políticas erradas. São elas que fazem com que o Brasil, um país maravilhoso, lindo e... rico viva regularmente problemas deste género. Tudo isto é muito triste", conclui Isaías, visivelmente angustiado com o drama por que passam os seus familiares.

Futebol estadual é pobre e está parado

Um futebol que hoje não tem grande importância no cenário nacional. E ainda atravessa o problema da crise e da onda de violência nos últimos dias... É assim em Espírito Santo. Desde a década de 80 que o futebol capixaba não consegue ter importância no Brasil. Se os clubes do Rio de Janeiro, muitas vezes por falta de campos, não fossem jogar em Cariacica na Grande Vitória, pouco se falaria do futebol naquele estado.

Dois clubes já foram importantes e disputaram inclusivamento o Brasileirão: a Desportiva e o Rio Branco. Hoje em dia, somente se dá conta do campeonato local, com uma das médias de público mais baixas do país. Há dois estádios, na verdadeira aceção da palavra, que são utilizados pelos clubes do Rio, o de Cariacica e o Engenheiro Araripe.

Para piorar o cenário, devido ao caos que se vive nos últimos dias, o campeonato local está suspenso. No passado domingo, duas partidas já tinham sido adiadas. Agora, a federação emitiu um comunicado, informando que a 3ª jornada, cuja realização estava prevista para o próximo fim de semana, também não se realizará, visto, como é óbvio, não estarem reunidas as mínimas condições de segurança. Aliás, o expediente da própria federação também está suspenso, pois os funcionários não passam ao lado do caos instalado e, pura e simplesmente, não podem sair de casa para ir trabalhar.

Os treinos estão, por outro lado, parados na esmagadora maioria dos clubes. Por exemplo, o Espírito Santo, que foi uma das equipas que teve o seu jogo de domingo adiado, não se treina desde o passado sábado, o dia seguinte ao eclodir da onda de violência.

Outra equipa que teve a rotina de treinos alterada foi o Vitória, dos principais emblemas do estado. Após o cancelamento da partida com o São Mateus, agendada para o último domingo, o plantel trabalhou normalmente nesse dia e na segunda-feira, só que a equipa técnica viu-se obrigada a cancelar os treinos, pois jogadores e funcionários relataram dificuldades para se deslocarem dos seus bairros para as instalações do clube, situadas na capital.

Cenário de guerra já fez 100 mortos

Mais de 100 pessoas já morreram. As lojas foram saqueadas, o comércio está fechado, os bancos não abrem e as crianças estão sem aulas, já que ninguém pode sair à rua. Desde a última sexta-feira que o estado do Espírito Santo, a cerca de 300 quilómetros do Rio de Janeiro, vive num autêntico cenário de guerra, devido à paralisação das forças de segurança, que lutam por aumentos salariais.

Como, por lei, os polícias não podem fazer greve, são os seus familiares a assumirem um especial protagonismo nesta história. Não só impedem (por estratagema) os polícias de saírem dos batalhões, como são eles a marcarem presença em várias rondas negociais para tentar uma solução para o diferendo...

O Governo Federal enviou, entretanto, para as principais cidades do estado, como Vitória, Vila Velha, Cachoeiro do Itapemerim e Guarapari, elementos das forças armadas, munidos de tanques. São várias dezenas de militares que tentam agora serenar os ânimos. Espera-se que esta ausência de polícia nas ruas termine nas próximas horas, para que a paz volte a Espírito Santo e terminem os assaltos, as pilhagens e as mortes.

Por Luís Pedro Sousa e António Carlos. Rio de Janeiro. Brasil
Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
SUBSCREVA A NEWSLETTER RECORD GERAL
e receba as notícias em primeira mão

Ultimas de Brasil

Notícias

Notícias Mais Vistas

Copyright © 2019. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.