O português Rui Sousa, o ‘treinador da imagem’ campeão no Brasil (Vídeo-reportagem)

Lidera o departamento do América Mineiro que observa os adversários, a própria equipa e faz scouting

• Foto: Pedro Ferreira

Rui Sousa não é guarda-redes, mas ajuda-os a defender mais; também não é avançado mas consegue pô-los a marcar mais golos. O português, de 42 anos, é analista e coordena o Centro de Análise de Desempenho e Mercado do América Mineiro, campeão da Série B e de regresso ao Brasileirão. Este departamento analisa os adversários, a própria equipa e ainda ajuda na deteção de novos talentos. Aliado ao conhecimento, o vídeo é a ferramenta de trabalho de Rui Sousa, que passa muitas horas agarrado ao computador e outras tantas a dar palestras aos jogadores. Viaje connosco numa entrevista exclusiva sobre como a tecnologia está a fazer evoluir o futebol e os seus intervenientes graças ao testemunho deste português, tão ou mais importante do que um futebolista no América Mineiro. E veja também o que o técnico mostra aos jogadores, com os vídeos cedidos por Rui Sousa ao Record.

R - Como é que um engenheiro de eletrotécnica e de telecomunicações entra no mundo do futebol?

RS - Joguei futebol durante 22 anos nos distritais do Porto e quando terminei, devido a uma lesão no joelho, continuei como adjunto no Águas Santas. Fui tirando cursos, como a Pós-Graduação em ‘Análise de Jogo’ na Universidade do Porto, porque sempre gostei da avaliação do jogo e de perceber o porquê das coisas que acontecem no jogo.

R - E começou a exercer em clubes brasileiros...

RS -Num dos cursos, um dos formadores era o Rafael Vieira, analista que trabalhou com Mano Menezes na seleção brasileira. Na altura ele estava no Flamengo e eu perguntei-lhe se havia possibilidade de conhecer a estrutura do clube. Passei lá um mês com Vanderlei Luxemburgo e depois fui sugerido a alguns treinadores brasileiros, como o Eduardo Baptista. Colaborei com o Sport Recife mas a trabalhar em Portugal, enviando os dados. Em março de 2015 houve um concurso para o Atlético Paranaense, um clube à parte no Brasil, mais europeizado, com um projeto de ser campeão do Mundo em 10 anos. E estamos a falar de um clube que não está entre os 12 grandes emblemas do país. É um clube muito organizado, com um centro de treinos com 10 campos, relvados de última geração e com um hotel lá dentro. No Atlético Paranense conheço o Sérgio Vieira, atualmente treinador do Moreirense, e começo o percurso ao lado dele. Nos sub-23 do clube e depois em clubes satélites como o Guaratinguetá e Ferroviária. Por fim, fomos para o América Mineiro. O Sérgio saiu ao fim de apenas 43 dias, mas ele é a alavanca para o regresso do América Mineiro regressar à Série A. Os próprios diretores o reconhecem. Acima de tudo porque o Sérgio deixou a equipa técnica no clube, incluindo eu.

R - É o coordenador do Centro de Análise de Desempenho e Mercado do América Mineiro. O que faz este departamento e qual a sua função?

RS -Investimos muito dinheiro em software, computadores e até em pessoas. O Sérgio Vieira, que foi observador, quis que o América Mineiro apostasse nessa área. Sou o coordenador do núcleo e todas as decisões passam por mim, em 3 áreas: análise do adversário, da própria equipa e do mercado. Sou a ligação com a equipa técnica. Um elemento faz só a análise do adversário e todo o material que recolhe passa para mim e eu passo-a ao treinador. Quanto ao mercado, temos jogadores que nos são oferecidos e nós fazemos a dissecação da informação e percebemos se o jogador interessa em função do modelo de jogo da equipa. O meu departamento facilita a informação para uma tomada de decisão mais qualificada.

R - O clube investiu nesta área da análise sem pensar duas vezes?

RS - A área era pouco de pouco conhecimento no Brasil, mas hoje em dia já há departamentos mais estruturados, nomeadamente nos principais clubes do Brasil, com mais capacidade financeira. O que digo sempre é que o investimento tem de ser alicercado a um conhecimento. Não adianta gastar milhares de euros numa época em software se não houver alguém que o saiba trabalhar e executar. Por isso é que o Sérgio Vieira foi tão importante, porque fez ver o América Mineiro de que este departamento é fundamental. Hoje o clube sabe que a análise é tão importante como contratar um jogador. Aliás, os dirigentes já dizem na brincadeira que é pior perder um analista do que perder um jogador. Essencialmente porque não nos limitamos a dar a conhecer o adversário ou explicar situações do nosso jogo, a grande função do departamento de análise é conseguir que todos, desde diretores a jogadores, acreditem que é uma mais-valia para o processo

R - E os jogadores sentiram isso ou houve alguma resistência? Nem sempre gostam de palestras...

RS - Foi um processo de convencimento e de ver para crer. É fundamental haver disposição do jogador, até porque às vezes a linguagem não é própria do meio deles. A maioria dos futebolistas quer chegar ao treino, calçar as chuteiras, dar uns chutos na bola, acabar o treino e ir para casa. Essa é a realidade no Brasil. Mas a verdade é que o jogador tem de estar inserido no processo, coletiva e individualmente. Costumo mostrar muitos exemplos da Europa e, por exemplo, posso chamar um jogador e mostrar-lhe imagens do Javier Mascherano, de uma equipa do Pep Guardiola e das suas ideias de jogo. Tudo é feito com a autorização do treinador. O grande êxito é conseguir que o jogador se sente durante 10 a 15 minutos a ver os vídeos e fique com vontade de voltar. Nesta altura, o grande problema é que os jogadores já querem ir demasiadas vezes ao departamento e perguntar sobre as exibições em todos os jogos e não há tempo para tudo (risos). E uma coisa é passarmos as imagens individuais do jogo, sem atenção, e outra é explicarmos em cada situação o que o jogador devia ter feito. Fui professor durante 15 anos e aprendi que tenho de ser o mais pedagógico possível. Outro exemplo: também costumamos passar imagens das bolas paradas antes do treino porque assim os jogadores levam as imagens na cabeça e isso faz toda a diferença. Um futebolista pode ter todo o conhecimento mas se não treinar vai acabar por colocá-lo em prática no jogo e, assim, há menor probabilidade de ter sucesso.

Como Mascherano e o Manchester City servem de exemplo para Messias
R - De que forma o seu departamento consegue fazer evoluir os jogadores?

RS - Todas as áreas que intervêm no futebol, da análise de desempenho, nutrição, preparação física, fisiologia. E tudo isso ajuda na tomada de decisão do treinador. E o América Mineiro aproxima-se dessa filosofia. Houve um salto qualitativo e os números são taxativos: na última época, o América Mineiro fez a melhor campanha de campeonatos profissionais do Brasil; foi a equipa que perdeu menos vezes; a equipa que menos golos sofreu; a equipa que esteve mais jogos sem sofrer golos. Isto por si só representa organização, uma palavra muito usada no Brasil. No entanto, não chega dizer que um jogador tem de fazer isto ou aquilo; o mais importante é como fazer no treino para que apareça no jogo. O treinador que tenha essa capacidade, como os europeus têm, está mais próximo de vencer.

R - E há tempo para reunir informação, processá-la e apresentá-la aos jogadores num campeonato no Brasil, em que existem tantos jogos e viagens tão longas?

RS - Tem de haver. Passo muitas horas agarrado ao computador, muitas horas sem dormir e a trabalhar durante o voo e no autocarro, porque às vezes temos viagens de 7 ou 8 horas. Acontece muitas vezes mostrar vídeos aos jogadores no avião, no autocarro ou no quarto do hotel. Um caso concreto: observamos todos os penáltis do adversário, faltas frontais, faltas laterais e passamos para os guarda-redes antes do jogo. Antes de acontecer no jogo, pelo menos o guarda-redes vai recordar-se de tudo o que viu. O futebol caminha para a perfeição e se o lado de fora, de quem não joga, não estiver perto de ser perfeito acabamos por não contribuir. Vou dar-lhe um exemplo: a escolha de imagem.

R - Faz assim tanta diferença?

RS - Imagine mostrar uma imagem de 480 píxeis, 720 ou 1080. Faz muita diferença. Numa imagem de alta definição o jogador consegue ver o adversário, como ele caminha, corre e até a cor das chuteiras. No jogo ele não vai ter tempo para ver a cara do adversário, apenas vai ter um ‘flash’ dele a correr ao lado e a cor das chuteiras. O grande pormenor na análise é a escolha de imagem, porque durante um jogo de futebol há milhares de imagens. Se juntarmos 3 ou 4 jogos do adversário temos 4/5 mil imagens na nossa cabeça. É fundamental escolher a certa e essa é a minha função.

R - Considera que há informação mais pertinente para passar ao jogador na viagem de avião e outra no balneário a minutos do início do jogo?

RS - Antes do jogo apresentamos um vídeo curto, com cerca de 2 minutos, com as características individuais dos jogadores que vão defrontar: se o lateral se projeta muito na frente e se podemos aproveitar as costas, por exemplo. Já vi jogadores a a rever o vídeo no telemóvel, no grupo que temos do Whatsapp, antes de subir ao relvado. No intervalo do jogo, quando jogamos em casa, passamos um vídeo do que aconteceu na 1.ª parte. Trabalhamos no dia do jogo, alguém filma em plano aberto para apanhar todos os setores da equipa e é algo muito qualitativo até porque não há muito tempo. Desço da bancada para o balneário ao minuto 43, tenho uma mini-reunião com o treinador e depois passamos a informação aos jogadores. Por exemplo, no jogo com o Juventude, importante para as contas do título, marcámos o golo da vitória num lance semelhante a um que tinha acontecido na 1.ª parte e que foi mostrado ao intervalo e corrigido na 2.ª parte.

O que Rui Sousa mostrou aos jogadores no intervalo do jogo com o Juventude
R - Como há muitos jogos e viagens, os vídeos que produz e as palestras que dá acabam por ser um treino?

RS - Sim. O treinador costuma dizer que é um treino de imagem, não é apenas um vídeo. Acredito que o visionamento de imagens é uma forma estratégica de encarar o adversário seguinte ou até corrigir certos erros. Acontece corrigir os erros na sala e depois ir ao campo para trabalhar aquele aspeto. Nós fizemos 38 jogos na Serie B, quer isto dizer que foram 38 palestras sobre o adversário antes dos jogos e mais 38 depois dos jogos. Fora as palestras individuais ou em pequenos grupos. É muita coisa e é fundamental o jogador estar disponível e perceber que aquilo é obrigatório, quer ele queira ou não.

O golo que deu a vitória ao América Mineiro sobre o Juventude
R - O seu departamento também está encarregue do scouting. De que forma é que encontram jogadores?

RS - Temos dois observadores que veem jogos das camadas jovens, nomeadamente do campeonato mineiro. Somos o terceiro clube de Minas Gerais, atrás do Cruzeiro e Atlético Mineiro, clubes com maior capacidade de contratação. Mas isso não é um problema se nós identificarmos mais cedo o talento do jogador. Isso é essencial. Passa por aí este sucesso do América Mineiro, chegar primeiro para conseguir identificar o talento, produzi-lo e depois termos a noção se vai chegar à equipa profissional. O nosso departamento também observa as camadas jovens e tentamos passar-lhes os protocolos e que possam entender o jogo para ter uma adaptação mais fácil. Por exemplo, o Matheusinho, de 19 anos, foi escolhido pela revista 'Four Four Two' como um dos jogadores com mais potencial da idade dele e foi descoberto nas divisões inferiores de Minas Gerais. Há muita matéria-prima no Brasil e acho que, ainda hoje, é o melhor mercado do Mundo.

R - Além do Matheusinho, que jogadores do América Mineiro vê com potencial para jogar na Europa? 

RS - Há vários e não tenho problema em dizer alguns. Como o Messias, defesa-central de 23 anos. Está no clube há 3 anos, um central forte, de marcação e com ótimo jogo aéreo. Foi eleito o defesa da Série B, juntamente com o Rafael. E por isso destaco também o Rafael Lima, de 31 anos, que tem uma história interessante. Ele era capitão da Chapecoense no ano passado e só não viajou no avião que depois caiu porque estava lesionado. Coletivamente foi o jogador que mais nos ajudou esta época. E como já referi, o Matheusinho. É de um talento inacreditável, embora franzino - a única fragilidade. É um jogador que pode jogar nas costas do ponta de lança e também nas alas e que consegue resolver facilmente num metro quadrado.

R - Já não vê o futebol sem analistas e sem tecnologia?

RS - Se perguntar a José Mourinho, Pep Guardiola ou até ao Enderson Moreira, treinador do América Mineiro, se eles eram capazes de prescindir de uma analista, eles diriam que não. São informações preciosas e todos os trabahhos realizados retiram tempo ao jogador para pensar só na equipa. E isso é fundamental.

Por David Novo
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