O som das balas na favela, a morte do pai e portas partidas em casa: assim cresceu Adriano

Antigo avançado brasileiro faz relato de vida numa carta aos adeptos do Inter

• Foto: Instagram

Adriano, tantas vezes conhecido como o Imperador, é uma figura que dispensa apresentações. Brilhou pela seleção brasileira, destacou-se ao serviço do Inter e teve problemas fora dos relvados mas agora, aos 38 anos, olha para trás e recorda a infância na favela e todos os obstáculos que teve de ultrapassar. Numa carta publicada no site do Inter, o antigo internacional brasileiro contou, por exemplo, que a primeira alcunha não foi Imperador mas, sim... Pipoca!

"A felicidade é algo simples. É o sabor das pipocas que a minha tia vender. Comi tanto que ‘pipoca’ tornou-se a minha alcunha. É a cor da poeira que subia quando jogávamos na Vila Cruzeiro no campo de sempre da minha infância. De calções e descalço. Esse era o meu estilo preferido", começa por detalhar, antes de falar sobre uma tarde fatídica que deixou o pai no hospital durante bastante tempo: "Tinha 10 anos e, numa tarde aparentemente normal, ouvi o barulho de tiros na rua. Uma delas foi para a cabeça do meu pai, Almir. Atingido por acidente."

Mais tarde, já quando representava o Inter, recebeu a notícia de que o pai tinha morrido. A maior dor com a qual ainda não sabe lidar agora. "As más notícias podem doer como uma bala. Agosto de 2004, Bari. Estava no autocarro com os meus colegas e o telefone tocou: "o papá Almir morreu". Pensava que era um pesadelo e esperava que fosse. Nem descrevo como estava. Nunca me tinha sentido tão mal, uma dor tão profunda. Fui para Milão logo em busca de um voo. Era uma dor sufocante e tive de ir para o Rio de Janeiro. Só eu sei quanto sofri. A morte do meu pai deixou um vazio irreparável na minha vida", partilhou.

As portas partidas em casa

De forma emocional, Adriano destacou como a infância não foi nada fácil - "Quando nasces e cresces numa favela, é difícil imaginar um futuro diferente e brilhante" -, mas lembrou algumas histórias sobre como já treinava o potente pé esquerdo. Não era o que a mãe mais gostava... "Conhecem o meu poderoso pé esquerdo? Treinei-o desde miúdo. Usava-o para partir portas e coisas em casa e isso deixava a minha mãe louca. Foi uma das razões pelas quais ela decidiu levar-me ao Flamengo e inscrever-me na equipa de futebol. Mesmo que tivéssemos de pagar e o meu pai soubesse que não tínhamos dinheiro para isso. Mesmo assim, a minha mãe Rosilda não me negou esse sonho. Disse ao meu pai que a nossa tia podia ajudar a pagar. Foi uma mentira por um bom motivo e ela começou um trabalho extra a vender doces na rua", apontou.

Sobre as memórias no Inter, Adriano não esquece o dia em que jogou no Estádio Santiago Bernabéu como se estivesse na Vila Cruzeiro. "No início foi um sonho e continua assim. Entre centenas de jogos e momentos, há uma memória que guardo com carinho. Quando cheguei juntei-me à equipa para um jogo fora em Madrid. A 14 de agosto de 2001 cheguei ao Bernabéu. Tinha uma camisola do Inter e o Real estava à minha frente. Foi de sonho. Não precisava de mais. Fui para o campo sem pensar em nada e joguei como se estivesse na Vila Cruzeiro. Driblei, fiz ‘cuecas’, tudo. Ganhei um livre e disseram para rematar. Dizem que foi a 170 quilómetros por hora!", conclui.

Por Pedro Gonçalo Pinto
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