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As opiniões dividem-se, mas em nenhum casos vão no sentido de enaltecer o trabalho do Real Madrid no estádio da Juventus, de onde os espanhóis saíram derrotados do jogo da primeira mão das meias-finais da Liga dos Campeões. O resultado, 1-2, terá sido o que melhor sucedeu à equipa escolhida por Carlo Ancelotti e é aqui que começa o escrutínio, que nos leva a derivar entre o mau e o péssimo dos detentores do troféu em Turim.
O risco para os merengues é que Ancelotti acredite de facto nas palavras que proferiu no final, quando concluiu que a exibição global foi positiva e defendeu as escolhas daqueles que passaram ao lado do jogo, como foram os casos de Gareth Bale e, sobretudo, de Sergio Ramos, elogiando os seus desempenhos.
Há várias críticas, mas dois comentadores da Sky Sports - curiosamente ambos ex-médios centros contemporâneos no mesmo clube, o Manchester United - arrasaram a dupla. Roy Keane começou por dizer que o Real com Bale foi uma equipa com menos um jogador, mas Paul Scholes entendeu que o quadro só ficava completo incluindo a figura de Ramos. Ou seja, os merengues defrontaram a Juventus com um "nove" em campo em vez do normal "onze".
Mas, tendo em conta as intenções do técnico italiano, afinal quem foi de facto o grande "ausente", Bale ou Ramos? Num 4x4x2 em que o esquerdino galês figurou ao lado de Cristiano Ronaldo no ataque, ao defesa espanhol foi entregue o papel de médio-centro, ao lado de Toni Kroos. Uma forma de ter mais gente capaz nos lances de bola parada e com capacidade de pressionar o trabalhador e talentoso setor intermediário da Juventus, ontem constituído por Andrea Pirlo, Claudio Marchisio, Stefano Sturaro e, um pouco mais à frente, Arturo Vidal - Massimiliano Allegri dispôs a sua equipa num 4x3x1x2.
Logo por aqui se percebe que os merengues se viram muitas vezes em inferioridade numérica no setor, mesmo que Bale tivesse por missão "cair em cima" de Pirlo para evitar que o veterano "regista" assumisse a construção de jogo dos italianos.
Depois, há a interpretação individual de cada um dos futebolistas e Ramos não esteve à altura do que Ancelotti, com tanta firmeza defendeu agora - uma vez mais, depois de ter estreado o central como médio a 22 de abril, na segunda mão dos oitavos-de-final da Champions, diante do Atlético Madrid.
Mas nesse embate, no Santiago Bernabéu, do qual os merengues saíram vitoriosos, o treinador armou a equipa em 4x3x3, com James Rodríguez no tridente atacante, mas avisado para ajudar o meio campo. Apesar de já não ter Karim Benzema (lesionado), Ancelotti decidiu atuar com um ponta-de-lança de raiz, escalando Javier Chicharito Hernández - que haveria de fazer o golo, selando o apuramento -, repetindo a receita em Sevilha, onde venceu por 3-2, também com Ramos a médio-centro - onde já não havia Luka Modric. Mas não quis arriscar a fazer o mesmo em Turim.
Depois de um mau passe, de uma perda de bola e da divisão de culpas com Raphaël Varane no golo de Álvaro Morata (falharam na marcação a Carlos Tévez), logo no início do jogo, Ramos embalou para um desempenho sofrível que afetou toda a equipa, pois Ancelotti tinha ainda reservado para ele um papel de destaque no lançamento do ataque.
E aqui é que as coisas não correram mesmo nada bem ao defesa, que chegou ao fim da partida com 81 por cento de eficácia nos passes - depois de ter terminado a primeira parte nos... 70 por cento -, somando um total de 16 perdas de bola. Foi, de longe, o pior da equipa, mas manteve-se em campo os 90 minutos, cometendo uma falta já em tempo extra da qual não resultou o 3-1 porque Fernando Llorente cabeceou sem convicção em direção à cabeça de Iker Casillas. Deve, contudo, enaltecer-se o facto do central ter "escapado" à ação disciplinar do árbitro.
Um problema económico
A utilização de Ramos como médio centro levanta outro problema a Ancelotti até final da temporada, em todas as competições. Privado de Modric, o treinador não hesitou ao dizer que o internacional espanhol era o eleito para desempenhar as funções habitualmente confiadas ao internacional croata, deixando de fora das contas futebolistas que são médios centro de raiz e que custaram muito dinheiro.
São os casos de Asier Illarramendi (30 milhões de euros), Lucas Silva (13 milhões) e Sami Khedira (14 milhões), este último em final de contrato. Uma explicação avançada para a atitude do italiano prende-se com a tentativa de manter o controlo sobre o plantel, onde Ramos é um dos líderes. No final da temporada ver-se-à se o italiano tomou a decisão certa.