RECORD - Como é que está a correr a experiência no Nantes?

MIGUEL CARDOSO - Está a correr muito bem. Duas semanas de trabalho, um processo de adaptação a um processo gradual. Fomos muito bem recebidos pela estrutura do clube, muito familiar, a família Kita. O pai é o presidente, o filho está todos os dias connosco. O treinador neste clube é uma espécie de manager, tem umas funções muito largas. Felizmente a língua não se tornou um obstáculo porque o nosso nível de francês é suficiente para podermos trabalhar com eles. Agora é implementar um conjunto de dinâmicas importantes. Havia uma ideia de jogo diferente e agora é uma construção, que os jogadores agarraram muito bem. Temos um grupo de trabalho entusiasmado, que tem procurado corresponder. Naturalmente que o futebol francês é um futebol diferente, a realidade dos processos é diferente. Mas também compete a nós aportar aquilo que é fundamental, em termos de rigor, de construção, de dia a dia, daquilo que queremos para os diferentes sectores do clube. É um processo a dois anos, de futuro, de crescimento do clube, de uma era diferente. Estamos no momento de recrutar, quem é que nos pode ajudar, a termos um plantel mais forte. Também uma ligação forte à academia. Este grupo é ainda um grupo muito aberto em termos daquilo que será o futuro.

R - Encontrou algum legado do Sérgio Conceição, passados dois anos?

MC - Não, aquilo que encontrei foi uma recetividade ao meu trabalho e isso é que é fundamental. O ano passado esteve cá um treinador que se chama Ranieri. Esse sim, deixou um legado forte. É preciso perceber aquilo que havia no ano passado e que pode ser aproveitável. A nossa preocupação é estabelecer aquilo que o Miguel Cardoso e a sua equipa técnica querem para o clube. Daí dizer que é um processo que vai levar o seu tempo, porque é um processo de reestruturação, não só de uma ideia de jogo mas também uma ideia de posicionamento do clube.

R - Dá para perceber da parte da direção há essa paciência. Acha que também da parte dos adeptos, que são dos mais exigentes em França, também serão pacientes?

MC - Aquilo que é fundamental perceber é que o Nantes é um clube com história. Mas é um clube com história que olha para o futuro. Quer ir à procura de traços que façam ligação ao passado. Naturalmente que todos os clubes querem ganhar, e esse é o objetivo último de todos nós. Sem dúvida que isso passa não por um ganhar qualquer. O Nantes tem um historial de um jogo de qualidade, embora seja sempre discutível o que é um jogo de qualidade. Não compete ao Miguel Cardoso resgatar aqui o jogo 'à la nantaise'. Nem de perto, nem de longe. Mas compete-me construir uma ideia de jogo positiva, que permita ao Nantes discutir, a médio prazo, os lugares mais altos da tabela. Mas acima de tudo entusiasmar as pessoas. Isso eu noto. As pessoas são recetivas a coisas novas, a uma ideia mais positiva, à capacidade de a equipa jogar mais com bola, dominadora em muitos momentos. E há algum entusiasmo em volta disso. Mas isto é um processo gradual. É preciso perceber que para uma equipa no campeonato francês ser capaz de discutir os lugares altos... cuidado! É um campeonato duro, será talvez o campeonato da seleção campeã do Mundo, vamos ver... esperemos que sim, para mim seria extremamente interessante. Temos um conjunto de equipas com um nível altíssimo. É um caminho que vamos fazer a seu tempo, com toda a ambição, toda a determinação, mas sabemos os passos que temos de dar, e vamos dar passos certos para chegar ao destino, a seu tempo.

R - Falou há pouco de jogadores que poderiam encaixar na equipa. Acha que o Rúben Ribeiro encaixaria bem?

MC - Não é nossa intenção trazer jogadores portugueses aos magotes para cá. Não me esqueço da experiência que tive no Deportivo da Corunha na altura em que tínhamos muitos portugueses lá e o processo não foi muito fácil precisamente por isso. Mas há jogadores portugueses com muita qualidade e estão espalhados pelo Mundo inteiro, como jogadores de outras nacionalidades com muita qualidade e como há jogadores franceses na 1ª e 2ª divisões com muita qualidade. Aquilo que vamos fazer é perceber quais são os jogadores que precisamos. E dentro desses perfis vamos tentar encontrar soluções, sejam elas francesas, portuguesas, espanholas ou outras. E o Rúben é um jogador como outros, que tem a sua qualidade. Não foi feliz no Sporting, mas foi feliz em outros lados. Se entendermos que esse é o caminho, mas passará certamente por outras coisas. Mas há muitos jogadores que estão a par do Rúben num conjunto de jogadores que obervamos.

R - A ideia de jogo vai querê-la implementar apesar de ter o plantel aberto e as soluções que vierem poder alterar essa ideia de jogo? 

MC - A construção da nossa ideia de jogo para o clube foi definida ainda antes de começarmos a trabalhar. Naturalmente que vamos aproveitar tudo aquilo que conseguirmos dos nossos jogadores. Agora, tudo que sejam jogadores que recrutemos, até porque houve muitas saídas, naturalmente que procuraremos que sirvam a ideia de jogo que estamos a construir. Mas isso é no Nantes, no Sporting, no Benfica, no FC Porto, em todos os clubes. É natural. Quando se fala no processo de construção, fala-se também dessa questão, do recrutamento, que é fundamental.

R - A sua vivência em vários campeonatos ajuda?

MC - Cada país, cada campeonato tem as suas idiossincrasias. Acima de tudo, aquilo que permitiu é que nós tivéssemos muito conforto passados alguns dias. Sinto-me muito bem aqui. Naturalmente que é diferente estar na Ucrânia ou estar em França. A proximidade geográfica e, acima de tudo, sentimental que nós temos a este país faz-nos estar muito próximos. Em cada canto temos um português. A cidade de Nantes é excelente, muito boa para viver. Foi muito fácil. Acredito que a experiência internacional que eu tenho permita aportar questões de posicionamento individual e depois de ação do clube aquilo que são modelos de alto rendimento. Sabemos os caminhos que podemos percorrer para ajudar o clube cada dia a ser melhor.

R - A presença de jogadores que passaram pela Liga portuguesa no Nantes é importante para si?

MC - O Diego [Carlos] está cá e o [Lucas] Lima também, são jogadores que jogaram em Portugal e temos uma língua comum, isso ajuda a que o processo seja mais rápido. Mas trabalhar com eles é tão excitante como trabalhar com os jogadores franceses. Aquilo que é fundamental é acontecer aos meus jogadores no Nantes aquilo que aconteceu no Rio Ave, que é ver 12, 13 jogadores a criar mais valias enormes para eles próprios e para os clubes. Que possamos ajudar a que o clube se engrandeça nesse sentido. Isso significa que o treinador também vai ficar valorizado. Foi uma época brutal no Rio Ave a esse nível, com feedbacks de agradecimento e de satisfação mútua. Isso é a maior alegria que um treinador pode ter.

R - Há objetivos estabelecidos ao nível da classificação?

MC - Nós não definimos um objetivo claro, pois temos consciência do momento que vamos viver. Aquilo que assumimos é uma ambição muito grande. A primeira coisa que disse a este grupo foi que queríamos construir um grupo forte que fosse capaz de gradualmente permitir criar mais valias. À medida que formos crescendo vamos aumentar os nossos objetivos. Temos um foco muito grande em melhorar e isso vai certamente permitir-nos discutir jogos com equipas muito boas. Isso é o primeiro passo para que todos nós consigamos perceber que, mais tarde, lutar por resultados que nos permitam olhar para coisas mais altas.

R - O que lhe foi pedido foi a valorização dos jovens da Academia do Nantes para futura rentabilização? O projeto a longo prazo passa muito para aposta na formação?

MC - Não só, mas também. É preciso perceber que para se valorizar jovens é preciso ter equipas fortes. Porque os jovens se forem todos metidos na fogueira ao mesmo tempo, a coisa pode não correr da melhor forma. Há que encontrar um contexto certo para a promoção dos jovens, mas esse trabalho vamos fazê-lo. Não vamos virar costas a jogadores que tenham potencial só porque eles tenham 17 anos ou 18. Todas as oportunidades que nós lhe possamos dar no sentido de eles terem possibilidade real de crescimento tem muito a ver com contexto de elevada exigência. Vamos trabalhar diretamente com o diretor da Academia. Foi uma pessoa que conheci na segunda reunião que tive em Paris com os responsáveis do clube precisamente no sentido de estabelecer diretrizes comuns, para nos conhecermos, para sentirmos se havia empatia para podermos fazer esse trabalho. Isso foi praticamente imediato e acredito que, a seu tempo, haja jovens que possam ter oportunidades na equipa principal e possam ser mais valias para o futebol francês inclusivamente.

R - Está preparado para ter o impacto que tiveram Sérgio Conceição e Leonardo Jardim em França?

MC - Estou preparado para fazer o meu trabalho honesto, sério e altamente profissional a todo o momento. É fundamental que haja uma coerência muito grande entre aquilo que é a postura do treinador e aquilo que ele faz no seu dia a dia. O momento é bom, sinto que, ao fim de quinze dias, as coisas têm o seu sentido, agora o impacto final tem sempre a ver com os resultados. É óbvio que é preciso perceber o que é este Nantes, nós não tiramos ambição mas é preciso perceber qual é o momento e o caminho que temos de trilhar. É fundamental também que nós tenhamos uma proposta de jogo que marque, que entusiasme, para as pessoas ficarem satisfeitas. As pessoas em França gostam de futebol, querem ganhar mas querem jogar bem. Há muito gente que aborda na rua e diz: 'Atenção que nós queremos ganhar mas também queremos jogar'. E isso é muito interessante, vem muito ao encontro daquilo que é a minha ideia do jogo. Que não é utópica, nem é lírica. Espero efeticamente, e tenho a certeza que isso vai acontecer, que daqui a alguns meses possamos ter um espaço no futebol francês que seja consentâneo com aquilo que é a minha ambição.


Autor: Carolina Couto