Klopp convenceu-se e os ingleses renderam-se: Marco Silva não foi recolher o pára-quedas

Treinador português é visto como um metódico que tem gosto pelo risco

• Foto: Reuters

Marco Silva chegou a Inglaterra no início do ano e os ingleses olharam na expectativa de o ver recolher o pára-quedas. Sim, quem era o treinador português que acabara de aterrar na Premier League, escolhido para tentar tirar o Hull City do 20.º e último lugar?

Mike Phelan, antecessor de Marco Silva no cargo, dirigiu a equipa em 24 jogos, tendo acumulado apenas seis vitórias, mais cinco empates e 13 derrotas. A sequência de cinco desaires consecutivos, entre 14 de dezembro e 2 de janeiro, foi mortífera e a administração do Hull City decidiu mudar.

As reações ao nome do 'manager' português foram cáusticas, sobretudo as expressas por comentadores de televisão cuja reputação assenta no passado de antigos campeões da liga e internacionais ingleses. Paul Merson, estrela do Arsenal nos anos 90 do século passado, gozou positivamente com o currículo de Marco Silva. "Eu também seria campeão na Grécia com o Olympiacos... Eles ganharam 107 vezes e ainda só passaram 106 anos. Nada tenho contra treinadores estrangeiros, mas o que tem Marco Silva de diferente? Que conhecimentos tem sobre a Premier League e sobre o clube?"

O antigo defesa central do Liverpool e de Inglaterra, Phil Thompson, três vezes campeão europeu de clubes, foi mais taxativo. "É bastante surpreendente que tenham apostado nele. Havia tanta gente qualificada e este trabalho caiu-lhe do céu. Ele não sabe o que é necessário para se treinar na Premier League."

Tony Banks, jornalista do The Daily Express, resume a Record, em poucas palavras, o que em Inglaterra era conhecido acerca do técnico português: "Ninguém sabia muito sobre ele, exceto que tivera sucesso no Olympiacos e Estoril!"

Marco Silva, como sempre, não levantou muito a voz. Na apresentação pelo Hull City traçou apenas um objetivo: melhorar. "Vou dar o meu melhor a este clube para melhorar a nossa situação." Simples.

A estreia com o Swansea não podia ter sido melhor: vitória por 2-0, na Taça de Inglaterra. Depois seguiram-se derrotas intercaladas com triunfos – Manchester United (D), Bournemouth (V), Chelsea (D), Manchester United (V) e Fulham (D). Na sequência de dois jogos com o Manchester United, de José Mourinho, na Taça da Liga, chegou o jogo com os red devils que valia pontos, na Premier League, e o Hull City empatou (0-0), em Old Trafford.

O tom dos comentários começou a alterar-se. Jürgen Klopp, treinador do Liverpool, o adversário que se seguia, não calou alguns elogios, que até aí só o compatriota José Mourinho fizera. "Estou impressionado, o que é que posso dizer? Muitos dos nossos rapazes estiveram lá [em Old Trafford] e foi um jogo interessante de ver ao vivo. Eles defrontaram o United três vezes, o que não é fácil. Jogaram mesmo muito bem. [Marco] Silva é, sem dúvida, um bom treinador", disse o alemão, que tinha estudado bem o que se passara no campo dos red devils. "Nos últimos 20 minutos passaram por dificuldades, porque o United recorreu a bolas longas. O Hull está nos últimos lugares da classificação [19.º]? Não parece. É uma equipa que consegue criar. Tiveram de jogar muito atrás, mas são uma equipa que joga à bola. Temos de mostrar que somos melhores do que eles no relvado, mas será difícil."

As preocupações do treinador do Liverpool, já se sabe, não eram infundadas, porque três dias depois estava a perder (2-0) com o Hull City, no Kingston Communications Stadium. E o que Marco Silva prometera começou a concretizar-se. A equipa que estava na 20.ª posição subiu dois lugares, agora a apenas um ponto do 17.º, Swansea, primeira equipa fora da zona de descida na Premier League.

Jogadores rendidos

As reações internas ao trabalho do técnico português começaram a ouvir-se, todas no mesmo sentido. Andy Robertson, lateral-esquerdo, de 22 anos, internacional escocês, foi o primeiro a falar. "As coisas não estavam a ir na direção certa, mas o treinador chegou e deixou marca de imediato. Para começar, disse-nos que não teríamos mais dias de folga. E quando se olha para os resultados e desempenhos desde que ele assumiu o cargo, há um mês, percebe-se que não estava errado."

Ter a semana totalmente preenchida com treinos e jogos não é considerado negativo pelo plantel do Hull City. "Não há problemas por isso. A rapaziada chega sempre contente aos treinos, porque com ele não estamos apenas a trabalhar no duro, estamos também a aprender muito. E, sabem o que mais, tenho a certeza que ele também está a aprender muito connosco todos os dias. porque este é o primeiro trabalho dele na Premier League. O que ele está a tentar fazer é dar-nos uma fórmula vencedora e duradoura. Se Deus quiser, no final da temporada todos estaremos aqui a testemunhar que os métodos deles foram bem sucedidos", disse Robertson, rendido a Marco Silva.

Mais experiente, o defesa inglês Curtis Davies, de 31 anos, explica como fez para se familiarizar com Marco Silva. "Não o conhecíamos bem. Eu fui à procura do currículo e vi que tinha feito um bom trabalho no Estoril. Subiu de divisão com eles e depois ganhou uma Taça com o Sporting e o campeonato com o Olympiacos. Vimos que conhece o futebol moderno e é meticuloso. Alguns treinadores chegam e colocam-se apenas a observar e a tirar conclusões. Com o Marco não foi assim."

Davis ficou surpreendido com o trabalho de campo do treinador português. "Ele atirou-se de cabeça ao trabalho. Analisou vídeos e começou literalmente a agarrar-nos fisicamente, a dizer onde nos queria em campo. Insistiu nas bolas paradas, nas jogadas ensaiadas e na condição física da equipa."

Realidade agora a cores

Os méritos de Marco Silva passaram também a ser reconhecidos pelos media, como se pode perceber pelas palavras de Tony Banks, do 'The Daily Express': "Ele organizou um grupo de jogadores que parecia condenado à descida de divisão e que quase deixara de ter esperança, e de repente começou a obter resultados. Trouxe alguns jogadores emprestados que falharam noutros clubes e remodelou a equipa um pouco, e teve algum sucesso."

Alguns textos, como o de Louise Taylor, no 'The Guardian', começaram a mostrar que a opinião publicada também mudou. "Meticuloso, metódico e, sobretudo, comedido, Marco Silva não é um apostador óbvio, mas atrás da fachada controlada esconde-se quem gosta de arriscar, com uma inclinação para recuperar causas supostamente perdidas. Por outras palavras, o disfuncional Hull City não poderia ser melhor oportunidade para o jovem treinador brilhante, apelidado de novo José Mourinho."

A perceção que os ingleses têm agora da qualidade profissional de Marco Silva é muito diferente da que Merson e Thompson deram a entender há pouco mais de um mês, mas a realidade continua dura para o Hull City, a lutar pela fuga à despromoção. "As pessoas começam a acreditar que ele pode fazê-lo - mas ainda é cedo. Há 14 jogos difíceis pela frente e o Hull tem de jogar com Burnley, Leicester e Swansea, jogos em que deve obter pontos. Precisam manter esta forma", diz Tony Banks.

Por António Varela
13
Deixe o seu comentário

Últimas Notícias

Notícias
Subscreva a newsletter

e receba as noticias em primeira mão

ver exemplo

Ultimas de Inglaterra

Notícias

Notícias Mais Vistas

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados. É expressamente proibida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Cofina Media S.A. Consulte a Política de Privacidade Cofina.