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R - O treinador é, por vezes, um ator? José Mourinho enquadra-se nesse figurino de treinador?
DA – Mourinho é muito bom nisso, ao dirigir-se ao público em geral. Acho que hoje as personalidades dos treinadores são um pouco diferentes do que eram há 20 ou 30 anos. O Jürgen Klopp, por exemplo, é um excelente ator, para si próprio, para a equipa, para os jogadores e os adeptos. Ele, como Mourinho, sabe que é parte do jogo. Mourinho sabe que correr pela linha lateral em Old Trafford é parte de uma imagem que cria para os adeptos. De certeza que Mourinho, como pessoa, é afável, amigo, benevolente, e depois há, por vezes, aquele outro Mourinho mais guerreiro do futebol. Mas é uma atuação e ele sabe isso perfeitamente. Parece que ele planeia muito bem o que faz e diz e isso é trabalho igual ao de um ator.
R - O psicólogo ainda é olhado de lado como acontecia com os fisioterapeutas, por exemplo, há 15 anos? Ou os nutricionistas?
DA – É verdade, hoje os psicólogos desportivos em geral e no futebol em especial, ainda estão um passo atrás dos fisioterapeutas e todos os demais especialistas que hoje formam uma equipa técnica no futebol. Ainda estamos numa era em que os treinadores e jogadores tentam compreender o funcionamento do cérebro e o nosso trabalho. Penso que eles querem acreditar que é bom entender o funcionamento do cérebro, mas estão ainda céticos em relação a quem, como nós, psicólogos, vem de fora do seu círculo.
R - Desafio maior ao trabalhar com os jogadores? Os seus egos?
DA – Penso que com os jogadores é a sua primeira reação: isto vai tornar-me as coisas mais complicadas. Na verdade, é ao contrário, porque o meu trabalho é ajudar o jogador e simplificar o seu pensamento. Ensino a lidar com as emoções e frustrações e a não pensarem demasiado no que se passou, nos seus erros. Pensam quase sempre nos lados negativos das coisas.
R - Já teve casos em que os treinadores com quem trabalhou o tenham depois recomendado a outros companheiros de profissão?
DA – Sim, tive vários casos em que eles me recomendaram a outros treinadores e jogadores. Há aqueles que querem manter tudo em privado – e como psicólogo mantenho sempre o sigilo profissional da relação médico/paciente – mas há outros que falam abertamente do trabalho feito. Há mais treinadores que nos pedem ajuda do que realmente admitem publicamente.
R - No fundo é como na sociedade em geral, quando se vai ao psicólogo é porque se está meio louco…
DA – Sim, as pessoas pensam que falar com um psicólogo é sinal de que têm um problema. Mas não é assim. Se puder ajudar um jogador ou um treinador a ser apenas um por cento melhores do que são, é uma vitória.
Por José Carlos Freitas