Marcou Ronaldo na estreia pelo United e recorda: «Varri-o duas vezes. Depois disso, deu cabo de mim»
Nicky Hunt teve o então jovem português pela frente há 20 anos. A estreia que não esquece
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Foi há 20 anos que a lenda de Cristiano Ronaldo no Manchester United começou a ser escrita. Então com apenas 18 anos, vindo do Sporting, o jovem português era lançado a jogo diante do Bolton aos 61 minutos perante milhares de adeptos em Old Trafford desejosos de ver o prodígio em ação. Do outro lado estava Nicky Hunt, defesa direito então com 19 anos que também vivia a sua estreia. Até à entrada de CR7, tudo lhe corria de feição e os primeiros minutos com o português em campo até correram bem. Mas depois tudo mudou, conforme o agora retirado jogador inglês recorda à BBC.
"Quando ele entrou, o meu primeiro pensamento não foi 'estou tramado, vai dar cabo de mim'. Tinha jogado uns 70 minutos bons. Estávamos apenas a perder por 1-0 e para mim ele era apenas mais um jogador. O meu trabalho era ir lá e desarmá-lo. E foi isso que fiz. Varri-o duas vezes. Depois disso... ele deu cabo de mim", recorda Hunt, que lembrou a forma como todo o futebol inglês ficou louco com a chegada de Cristiano Ronaldo ao país.
"Estávamos a tentar preparar o nosso primeiro jogo e havia uma loucura em torno de um miúdo de 18 anos, quase como se fosse o Maradona. Tentámos ignorar, mas tornou-se cada vez maior. Estava em todos os jornais, nos programas de televisão. Era impossível ignorar. Qualquer pessoa ligada ao futebol estaria a mentir se dissesse que não olhou para aquele lado quando ele foi aquecer. Quando o vi, ele era incrivelmente magro. Eu era magríssimo, mas ele era ainda mais. Cabelo preto com madeixas loiras, cheio de acne. Estávamos a pensar 'ele é muito jovem, não deve ser tão bom como dizem'. Mas era".
E Hunt nem pode queixar-se de não ter uma adequada preparação, já que naquele Bolton jogava um nigeriano com um certo jeito para fintas para aqui e para lá. Só que CR7 era de outro nível. "Tive sorte de ter feito uma pré-temporada completa com o Jay-Jay Okocha. Ele era conhecido pela sua técnica e conseguia fazer umas fintas, por isso sabia como aquilo funcionava. Mas o Ronaldo conseguia fazer melhor, com ambos os pés, o que era ainda mais desafiante. E conseguia cruzar tanto com a direita como a esquerda, tal como rematar. Era uma situação complicadíssima. O meu objetivo era colocar os olhos na bola e mantê-lo longe da baliza. Nos primeiros 5 minutos consegui. Nos últimos 17 ele estava em todo. Era praticamente impossível marcá-lo. Fintava para aqui e para ali e eu pensava 'como é que alguém consegue fazer isto?'. Pensava que ele ia para a esquerda e ele ia para a direita. Pensava que ele ia à linha e ele vinha para trás."
"Foi algo surreal para mim. O dia todo. Era a minha estreia em frente de tanta gente. Fiquei devastado por ter perdido, mas o Sam [Allardyce, treinador do Bolton] não pareceu chateado depois do jogo. Disse que estivemos no jogo até aos 75 minutos. Como jogadores, sentámo-nos e olhámos uns para os outros. O adjunto encolheu os braços e sorriu. Todos sabíamos o que aconteceu nos últimos 15 minutos. Não conseguimos fazer nada", recordou.
Depois daquele dia, a vida de ambos correu por caminhos bem distintos. Hunt ficou no Bolton até 2010 - foi emprestado duas vezes - e não passou de clubes de menor nomeada. Já Cristiano Ronaldo atingiu o topo do futebol mundial, escrevendo uma história que o deixará certamente como um dos melhores de sempre.