Buffon admite que passou por uma depressão: «O dinheiro e a fama são intoxicantes»

Guarda-redes da Juventus reconhece, numa carta publicada pelo 'The Players Tribune', que "o dinheiro e a fama são intoxicantes"

• Foto: Getty Images
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Numa carta publicada pelo 'The Players Tribune' Gianluigi Buffon admitiu ter passado por uma depressão profunda, quando tinha 26 anos. O carismático guarda-redes italiano da Juventus, hoje com 41 anos, diz que aprendeu a dar valor às pequenas coisas.

"Vamos começar pelas más notícias: tens 17 anos. Estás prestes a tornar-te um futebolista de verdade, como nos teus sonhos. Pensas que sabes tudo. Mas a verdade, meu amigo, é que não sabes nada", escreveu Buffon na missiva dirigida a si próprio.

"Em poucos dias vais receber três coisas que são muito, muito intoxicantes, mas que também são muito, muito perigosas: dinheiro, fama e o trabalho dos seus sonhos. Agora deves de estar a pensar: 'que pode ser perigoso em tudo isto?' Bem, é um paradoxo. Por um lado é certo que um guarda-redes precisa de confiança, de ser valente. Se deres a um treinador a opção de escolher entre o guarda-redes mais técnico do mundo e o mais destemido, garanto-te que ele vai escolher sempre o 'filho da mãe' sem medo", acrescentou.

Mas nem tudo são rosas, conforme testemunhou o internacional italiano. "Se viveres de forma niilista, olhando apenas para o futebol, a tua alma vai começar a mudar. A um determinado ponto estarás tão deprimido que não terás vontade de te levantar da cama."

"Podes rir-te se quiseres, mas isto vai acontecer-te. Vai acontecer no momento mais alto da tua carreira, quando tiveres tudo o que um homem pode desejar na vida. Terás 26 anos. Serás guarda-redes da Juventus e da seleção italiana. Terás dinheiro e o respeito de todos. As pessoas vão mesmo apelidar-te de Super-Homem."

E prossegue: "Mas tu não és um super herói. És um homem como todos os outros. Mas a verdade é que a pressão deste trabalho pode transformar-te num robot. A rotina torna-se numa prisão. Vais ao treino, vens para casa, vê TV, dormes. E fazes a mesma coisa no dia seguinte. Perdes e ganhas. Isto repete-se vezes sem conta."

"Numa manhã, quando te levantas para ir para o treino, as tuas pernas vão começar a tremer incontrolavelmente. Ficarás tão fraco que não vais conseguir conduzir o teu carro. De início vais pensar que se trata de fadiga ou de um vírus. Tudo o que queres fazer é dormir. No treino, sentes que tens de fazer um esforço titânico em todas as defesas que fazes. Durante 7 meses vais ter muitas dificuldades em encontrar alegria na vida", conta.

"Nesse momento tens de parar. Porque eu sei o que estás a pensar quando lês isto, com 17 anos. Dizes 'como é isto possível? Sou uma pessoa feliz, sou um líder nato. Se eu for o guarda-redes da Juventus, a ganhar milhões, vou ser feliz. É impossível ficar depremido'."

Buffon recorda depois que aos 12 anos decidiu que queria ser guarda-redes por causa de Thomas N’Kono, guardião dos Camarões que viu em ação no Mundial de 1990. O então pequeno Buffon admirou N’Kono pela sua calma e coragem. "Tens de te recordar que foi por isso que quiseste ser futebolista, não por causa do dinheiro ou da fama. Foi por causa da arte e do estilo desse homem, de Thomas N’Kono. Por causa da sua alma".

"E lembra-te: dinheiro e fama não são o objetivo. Se não cuidares da tua alma, se não procurares inspiração em coisas fora do futebol, vais deteriorar-te. Posso dar-te um conselho: sê curioso pelo mundo que te rodeia enquanto és novo. Vais poupar-te, a ti e à tua família, a muitos desgostos. Ser um guarda-redes é ser corajoso, isso é verdade. Mas ser corajoso, Gigi, não é ser ignorante. Quando mergulhares na depressão algo estranho e bonito vai acontecer. Uma manhã vais decidir acabar com a rotina e ir a um restaurante diferente em Turim tomar o pequeno-almoço."

Na longa carta o guarda-redes recorda uma mensagem que escreveu na camisola quando estava no Parma - 'morte aos cabardes' -, que depois soube tratar-se de um slogan fascista. E lembra a ilação que tirou do sucedido.

"Este é um dos erros que vão causar dor à tua família, mas são importantes porque relembram-te que és humano. Vão recordar-me uma e outra vez que não sabes nada, meu amigo. Isto é bom porque o futebol faz um excelente trabalho a convencer-te que és especial. Mas tens de te lembrar que não és diferente do homem do bar ou do eletricista, daqueles que vão ser os teus amigos para o resto da vida."

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