Carlos Lopes: O homem das coisas impossíveis

Carlos Lopes: O homem das coisas impossíveis
• Foto: João Trindade

Dezassete anos depois de ter conquistado a medalha de ouro na maratona nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, Carlos Lopes mantém-se fiel a si próprio e o seu discurso actual quase se assemelha a quando era atleta. "Não me posso queixar do que tenho". Este é o lado positivo das muitas glórias que deu a Portugal, mas para contrabalançar, Lopes sente que lhe falta algo mais, um justo reconhecimento de outras entidades.

Com o peso dos seus 55 anos e com o acumular de uma experiência e de uma vivência inédita em termos de alta competição, o campeão português goza hoje de um reforma, como empregado bancário, de mil e poucos euros, além de receber uma avença por parte do Sporting e da Câmara Municipal de Sintra. Deixou a grande Lisboa há dois anos para residir numa pequena aldeia, a Coutada, perto de Torres Vedras. "Há muito menos poluição em todos os aspectos", ironiza o antigo atleta.

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Do dinheiro que ganhou enquanto cortava a meta habitualmente em primeiro lugar, Lopes conseguiu garantir o sustento para a sua família. A mulher, Teresa Lopes, continua a ser a dona da casa e os seus três filhos estão bem lançados. Nuno, o mais velho, com 27 anos, que chegou a fazer atletismo no Sporting e esteve mesmo à beira de ir aos Jogos Olímpicos de Atlanta, é hoje funcionário de um banco privado; Pedro, 21 anos, desloca-se diariamente para Lisboa para as aulas na Universidade Lusófona e a Bárbara, com 15 anos, frequenta o ensino secundário. Os rapazes ainda mantêm uma actividade física ligada ao desporto e jogam futebol na equipa da terra, a Coutada, que milita na segunda divisão dos distritais.

O dia-a-dia do campeão que nos deu muitas alegrias é coordenar todas estas actividades, sem descurar o vínculo às entidades a que está ligado. "No Sporting deram-me o estatuto de relações públicas e habitualmente vou aos núcleos espalhados por todo o País e ao estrangeiro", diz o antigo atleta formado por Moniz Pereira. Na Câmara Municipal de Sintra é que Lopes desenvolve uma actividade onde é mais visível o seu nome. "Dou a cara a várias provas e a outras iniciativas da Câmara no âmbito do atletismo e procuro estabelecer com os atletas e treinadores a minha vivência, de forma a que todos eles possam aprender alguma coisa. E também vou às escolas explicar as coisas básicas do atletismo. É um trabalho que aprecio bastante". Em mãos tem um projecto para pôr de pé: o Parque Desportivo Carlos Lopes, onde toda a gente, dos mais novos aos mais velhos, se sinta bem, a passear e a fazer desporto. "É tudo muito simples, nada complicado. Depois vão ver". De resto, aquele pequeno atleta branco de apenas 1,69 metros de altura, que chegou a bater a legião de africanos, costuma ter a agenda cheia para várias cerimónias protocolares por todo o País. "Nunca tive o hábito de estar parado e não hei-de ficar", diz Lopes que gosta de preservar o seu espaço. E aqui nasce uma crítica àquilo que ele também entende por sistema. "A seguir aos Jogos Olímpicos de Los Angeles recebi propostas e ofertas de muita gente ligada ao desporto. E ainda hoje, passados quase vinte anos, muitas dessas pessoas continuam a mudar de funções em organismos do Estado e eu cá estou à espera dessas ofertas..."

Olhando para o que fez não só pelo atletismo, mas pelo desporto em Portugal, Lopes considera que é com alguma propriedade que pode agora dizer. "Se calhar fiz mesmo coisas impensáveis. Ou eu era um fenómeno que só acreditava mesmo em mim, ou então ainda hoje ninguém sabe dar valor àquilo que fiz".

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A trabalhar no banco até perto dos Jogos

Em tudo aquilo que se envolveu profissionalmente, Lopes sempre quis ser o melhor e, tendo perfeita consciência que pensar 24 horas por dia no atletismo lhe era prejudicial, quis continuar a trabalhar no banco até perto dos Jogos Olímpicos de Los Angeles.

"Só nos últimos três a quatro meses é que fui dispensado a tempo inteiro e sempre me entreguei a cem por cento enquanto estive no banco. Quis ser sempre igual aos meus colegas e de outra maneira não poderia ser. Isso fez-me muito bem, pois era uma maneira de andar descontraído e relaxado. Nunca me fez mal, antes pelo contrário. O grande problema de hoje é que os atletas são profissionais do atletismo, não trabalham e parece que não descansam o suficiente. E só falo pelo que vejo e pelos resultados nas provas".

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Do pouco dinheiro à reforma dos medalhados

Carlos Lopes não gosta muito de falar em números, mas sempre adiantou qualquer coisa. "As pessoas estão enganadas quando pensam que ganhei muito dinheiro com a maratona nos Jogos. Recebi algum, é verdade, e passado um ano bati o recorde do Mundo e desisti do atletismo. Foram dois anos bons, mas curtos", explica Lopes.

Sobre a reforma dos campeões, o medalha de ouro é muito simples na sua análise. "Portugal tem assim tantos medalhados olímpicos? Parece que não... Acho que as contas são fáceis de fazer. É tudo uma questão de vontade política", refere o antigo atleta.

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QUEM É QUEM

Nome: CARLOS Alberto de Sousa LOPES

Local/data de nascimento: Viseu, 18-2-47

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Clubes: Lusitano de Vildemoinhos (1966), Sporting (1967 a 1985) e Imortal de Albufeira (1986)

PALMARÉS

Campeão olímpico da maratona em Los Angeles'1984

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Medalha de prata nos 10 000 m em Montreal'1976

Campeão mundial de corta-mato em 1976, 1984 e 1985; medalha de prata em 1977 e 1983

Ex-recordista mundial de maratona (2.07.12 em 1985)

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Ex-recordista europeu de 10 000 m (27.21,39 em 1982)

Ex-recordista de Portugal de 3000, 5000, 10000 m e 2 milhas

9 vezes campeão de Portugal de pista

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10 vezes campeão de Portugal de corta-mato

3 vezes vencedor individual na Taça dos Campeões Europeus de Corta-Mato; 7 vezes vencedor colectivo (pelo Sporting)

34 vezes internacional, incluindo presenças nos Jogos Olímpicos de 1972, 1976 e 1984, no Mundial de 1983, nos Europeus de 1969, 1974 e 1982 e em nove Mundiais de Corta-Mato.

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RECORDES PESSOAIS

1500 m 3.41,1 (82)

3000 m 7.48,8 (76)

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5000 m 13.16,38 (84)

10 000 m 27.17,48 (84)

3000 ob. 8.39,6 (73)

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Maratona 2.07.12 (85)

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