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Investigadora aponta que vitórias femininas em ultramaratonas devem-se à superior capacidade de resistência

Atletas competem numa maratona perto da estátua equestre de D. João VI, no Porto

A vitória da norte-americana Rachel Entrekin na Cocodona 250, uma ultramaratona de 412 quilómetros disputada no Arizona, confirma, segundo a investigadora Ester Alves, que as mulheres podem superiorizar-se aos homens graças à capacidade de resistência e à sua repetição.

Rachel Entrekin, de 34 anos, concluiu as 256,5 milhas da emblemática prova em 56:09.49 horas, na quarta-feira, vencendo a classificação geral e a estabelecendo um novo recorde - o anterior era de 58:47.18, de Dan Green, o campeão em 2025 -, depois de ter sido a primeira mulher em 2024 e no ano passado.

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Mesmo com paragens para acariciar alguns cães e dormir pequenas sestas durante o percurso - não mais de 20 minutos no total -, a doutorada em exercício físico 'tirou' mais de sete horas ao seu melhor registo, conseguido em 2025 (63:50.55).

"As ultramaratonas de trail running são das poucas e raras modalidades -- se excluirmos as que não são tão físicas - em que as mulheres conseguem ultrapassar os homens. Pegando neste exemplo da Cocodona, estamos a falar de 400 quilómetros, que envolvem calor extremo e privação de sono e isso não se vê nas redes sociais", advertiu Ester Alves.

Esta ultramaratona norte-americana é considerada uma das mais desafiantes do mundo, por ser disputada em condições desérticas, ter como ponto mais alto 2.817 metros e um total de desnível positivo acumulado de 11.828 metros, com Ester Alves a explicar a estratégia vencedora.

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"Uma das maiores agressões nestas provas de longa duração não é correr, é privação de sono, e a Rachel dormiu pouquíssimo e manteve um ritmo constante durante muitas horas, sem perder coordenação motora e, por isso, resistindo ao dano muscular", explicou a também treinadora e atleta da modalidade.

Doutorada em Patologia e Genética molecular pela FMUP e professora, Ester Alves explicou que "as mulheres conseguem manter durante mais tempo algumas variáveis orgânicas durante muitas horas, que os homens acabam por degradar mais rapidamente".

"São capacidades como a resiliência, a tolerância à dor e uma enorme capacidade de recuperação, que as mulheres vão adquirindo por repetição", sublinhou Ester Alves, equiparando Entrekin a outras ultramaratonistas como a também norte-americana Courtney Dauwalter, segunda mulher na Cocodona e sexta na geral, assim como à francesa Claire Bannwarth, a canadiana Stephanie Case e a britânica Jasmin Paris.

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Sem encontrar paralelo em atletas portuguesas, seja pela chegada tardia ao trail running, pela ausência de profissionalismo ou pouca cultura da modalidade, comparativamente a outros países, Ester Alves admite que esta 'superioridade' feminina é um exclusivo de provas de endurance, ou seja, acima dos 100 quilómetros.

"Estas provas mais 'curtas' exigem características mais explosivas e de força muscular -- características associadas ao sexo masculino e à testosterona. As mulheres não conseguem estar à altura dos homens na velocidade, mas, nas longas distâncias, sem dúvida, têm outros fatores hormonais e mais capacidade de resiliência e de recuperação que lhes permitem manter-se em esforço durante muito mais horas", realçou.

Ester Alves aponta Claire Bannwarth como o "exemplo extremo da repetição, autodestruindo o organismo de forma consecutiva", recordando o segundo lugar da francesa nos 250 quilómetros da Gran Canaria 360 de 2023, antes de terminar na mesma posição os 303 quilómetros do Algarviana Ultra Trail (ALUT).

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Jasmin Paris foi a vencedora absoluta da Spine Race (439 quilómetros, no Reino Unido), em 2019, 14 meses depois de ter sido mãe e antes de se tornar na primeira mulher a completar a Barkley Marathons, em 2024, enquanto Stephanie Case se destacou ao conquistar a classificação feminina do Ultra-Trail Snowdonia, em Inglaterra, enquanto amamentava a filha recém-nascida nos abastecimentos.

"Em Portugal, não temos atletas profissionais no trail running. Tirando a Stephanie Case, que é advogada [na ONU] e trabalhou em zonas de conflito e em crises humanitárias, acho que nenhuma exerce a profissão, nem mesmo a Jasmin, que é veterinária de formação. Depois, para chegar a este nível, é preciso treinar desde muito cedo, com o sucesso a estar também associado à maior proximidade da rotina de trilhos e da montanha", concluiu.

Por Lusa
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