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José Carlos Pinto: «Vejo os comentários maus e penso: 'Fogo, vou calar este gajo, tenho de calar esta pessoa'»

José Carlos Pinto quer silenciar críticos com bom desempenho
• Foto: José Tadeia @jvp.prod

RECORD – Tens ideia de quanto tempo passas em estágios de altitude? É o preço a pagar para o sucesso...?

JCP - Sinceramente não faço ideia. Mas, fazendo contas, podemos dizer 5 a 6 meses, enquanto antes fazia 2 meses e já era um bocado complicado. Estou com o meu colega que mora comigo na Noruega, com o Kieran [Lumb] e o Maël [Gouyette], e eles acabam por ser a nossa família. Passamos mais tempo juntos do que passamos com qualquer outra pessoa. Somos todos melhores amigos, é fantástico. É sempre uma 'coboiada' dentro de casa com brincadeiras. Claro que sinto falta da minha família e eles de mim, só que o atletismo tem um prazo de validade. Ou seja, eu só tenho de suportar isto durante mais alguns anos e depois estou de regresso a Portugal, para perto da família.

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R - Essa questão do prazo de validade: estás a caminho dos 29 e, de certa forma, estás a ter uma espécie de segunda vida no atletismo porque tiveste muitos anos em que treinavas bem e depois os resultados não saíam. Gostavas de ser um exemplo para os atletas que estão agora a construir a carreira, para perceberem que não vai ser logo imediato, que o clique pode surgir aos 28, 29, 30 anos?

JCP - Sim, claro. Eu só comecei a correr com 18 anos, não fazia desporto antes, só um ano de futebol com 16 ou 17. Antes disso, o meu desporto era jogar computador. Então, acho que o principal foco que temos de ter no nosso desporto é nunca pararmos de acreditar. Podemos falhar 50 vezes, mas o que é que custa tentar mais uma? Claro que é difícil sair quando entramos num buraco grande. Mas quando eu sair desse buraco vou sair com muito mais aprendizagens do que o que tinha antes. E provavelmente estes anos em que estive estagnado, em que não melhorei o meu recorde pessoal ou não estava a conseguir competir da melhor maneira, tudo isso me faz ter a força que estou a ter hoje.

R - Essa ideia de ir quase ao fundo do poço, tu passaste por dois momentos difíceis no último ano - os Mundiais (ficou-se pela meia-final) e os Europeus de Lagoa (desistiu devido a queda). Tens alguma ferramenta que uses para te levantares desses momentos?

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JCP - É um bocadinho mau de dizer... Eu posso ser uma pessoa péssima a responder a mensagens e a responder às pessoas, mas costumo ver muito o que as pessoas escrevem sobre mim nas redes sociais. Eu agradeço a toda a gente que escreve bem, mas por norma vou ver os comentários maus. Isto é uma realidade. Vejo os comentários maus e a minha cabeça só pensa em: "Fogo, eu vou calar este gajo, eu tenho de calar esta pessoa". E isso transforma-se numa energia negativa que se torna positiva para mim, porque só me ajuda a querer mostrar a estas pessoas que duvidaram de mim que sou capaz de fazer o que elas dizem que eu não sou capaz. Isso dá-me um gosto especial de me conseguir afirmar.

R - É o combustível que alimenta as tuas pernas. Falando de Lagoa, tiveste alguns comentários negativos por causa disso?

JCP - Sim, tive alguns comentários negativos. Lagoa foi uma situação que fiquei dececionado e chateado, mas foi algo que não consegui controlar. A culpa de eu ter desistido não foi minha porque fui atirado para o chão. Acabei por fazer uma contratura na zona lombar e abdominal. Não conseguia levantar a minha perna esquerda e, com obstáculos no percurso, era extremamente complicado conseguir saltá-los. Mas Lagoa só veio provar que eu estava num excelente momento de forma, pois pouco depois ganhei ao Thierry Ndikumwenayo [na Cursa dels Nassos]. Quem conheceu o Zé de há uns anos, se fosse a uma competição internacional e ficasse em penúltimo, provavelmente não me iriam durante um ano a competir bem. E agora não. O meu objetivo no Europeu de Lagoa era ganhar. O tombo foi grande, mas foi grande durante dois dias. Após isso não pode ser.

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R – Falando do corta-mato, Portugal não esteve nos Mundiais A justificação da Federação foi que os atletas não expressaram interesse. Tu eras um desses atletas. Queria que explicasses o porquê dessa tua opção.

JCP - O corta-mato, tendo em conta o que é Portugal, não é propriamente uma coisa que nos seja muito apelativa. Também temos de ser realistas: o corta-mato não traz muita coisa para a nossa carreira enquanto atletas, porque as marcas vêm se nós corrermos bem na estrada ou na pista. Infelizmente o corta-mato, como não é uma modalidade olímpica, acaba por não ter tanta expressão. Quando nós temos três ou quatro atletas que não querem ir, vale a pena irmos buscar os atletas que ficaram em 9.º, 10.º ou 11.º? Sinceramente não sei se vale a pena, porque se calhar mais vale não despendermos do dinheiro para ir a esse Mundial e conseguirmos usar esse dinheiro para apoiar atletas mais jovens. Eu não queria ir ao Mundial de Corta-Mato porque não passa de todo no meu plano competitivo desta época. Acho que a opção da Federação de não levar é sensata. As pessoas criticam sem saber, ninguém nos perguntou a nós se queríamos ir. Apenas criticam a Federação ou os técnicos quando eles apenas estão a seguir o que nós atletas dissemos aos nossos treinadores.

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«Atletismo português está a renascer»

R - Dizes que não és atleta de 5.000m nem 10.000m, mas conseguiste marca de qualificação para os 10.000m no Europeu com os 27:37 de Valência. Qual a opção, ir aos 1500m?

JCP - Sim, vou aos 1500m ao Europeu de ar livre e estou a decidir se vou aos 800m ou aos 5.000m. 10.000m na pista não, eu não treino para 10.000m. Sei que posso correr uma prova, mas é diferente estar a competir contra pessoas que fazem um treino específico para 10.000m em que conseguem mudar de ritmo no último quilómetro.

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R - O teu grande objetivo será o Europeu de Birmingham. O Mundial de pista coberta faz sentido?

JCP - Ainda estamos a decidir. Internacionalmente é muito bom estar presente num Mundial, mas acaba por não ter muita expressão nas provas de ar livre. As pessoas lembram-se normalmente da pista ao ar livre. O que me interessa mesmo é o ar livre e tentar fazer alguns recordes nacionais na pista.

R – Como perspetivas esta nova geração no atletismo?

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JCP - Acho que estamos muito bem entregues, não só no meio-fundo e fundo mas também na velocidade e nos saltos. O atletismo português está a renascer. É muito bom, finalmente podermos dizer que o atletismo português não está morto.

Por Fábio Lima
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