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Susana Godinho e a maratona: «Inspirei-me a ver os atletas a chegar à meta. 'Se eles são capazes, eu também sou'»

• Foto: Bruno Colaço

Pode uma atleta de elite, com uma marca que a coloca entre as melhores do mundo, tirar inspiração naquilo que os atletas populares fazem? A resposta pode surpreender, mas é isso mesmo que assume Susana Godinho na hora de comentar o salto (inesperado) das distâncias mais curtas para a maratona, a prova que a levou (também inesperadamente) aos Jogos Olímpicos.

R - De certa forma, já perto dos 30 anos, o teu corpo começa a estar numa idade boa para dar esse salto...

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R - Já estava saturada de preparar a época sempre da mesma forma. Era o Nacional de Estrada, o Nacional de Corta-Mato Curto e o Corta-Mato Longo. Não tinha nada a aliciar-me. Depois também me inspirei a ver os atletas a chegar à meta, mesmo aqueles que só participam para bater os seus recordes pessoais. Pensei ‘se eles são capazes, eu também sou’. Só não queria o sofrer de dizer que faltava treino. Não queria que acontecesse, por isso mudei a minha mentalidade no treino. Fui mais disciplinada e aprendi a reclamar menos… Porque reclamava muito! Tive de mudar a minha forma de encarar o treino. Por isso é que as pessoas ficam muito admiradas com os resultados que tenho feito. Tem a ver com a maneira com que encarava os treinos. O meu treinador dizia que tinha 12x400 e fazia para o ritmo que me era confortável. Ele sabia que era capaz de correr mais. Era serviços mínimos, como ele dizia. Depois quando tenho este objetivo… Mas quando faço a primeira maratona nunca pensei no objetivo de um dia ir aos jogos. Só queria ter a experiência de fazer uma maratona. Mas como correu tão bem, que aí já pensamos de outra forma. Nessa altura, nunca me passou pela cabeça fazer os mínimos para os Mundiais, que acabei por fazer. Estava elegível para ir, mas como a nossa opção foi fazer a qualificação para os Jogos Olímpicos, e era só a minha segunda maratona, ter de fazer outra depois... não queríamos estar a passar por isso. É estranho, porque nunca me tinha passado pela cabeça que fosse a maratona a levar-me aos Jogos Olímpicos. Porque sempre gostei de fazer pista, os 5.000, 10.000 metros, por exemplo. Mas as marcas vão sendo cada vez mais difíceis. A maratona, por seu turno, assustava-me pelos quilómetros.

R - Qual foi a maior diferença na preparação da pista para maratona?

SG - Normalmente nunca passava dos 110 quilómetros por semana. E, depois, o máximo que fiz para Valência foram 172. Como trabalho, uma das coisas que disse foi que ia fazer a maratona, mas tinha de pensar no meu trabalho, porque não consigo meter muitos quilómetros e ter o descanso. No início não foi fácil, porque chegava a casa do trabalho e dizia ao Hélder ‘tenho de dormir 5 minutos’. E ele ‘5 minutos?’. Eu fechava os olhos e parecia que tinha dormido uma hora. Estava habituada a fazer 110 quilómetros e começar a fazer semanas de 150, faz diferença para quem não descansa.

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R - É essa a diferença de quem só vive para isto...

R - Tive um estágio no Algarve durante uma semana e senti uma diferença! De um treino para o outro estava a recuperar muito mais rápido do que normalmente. Olhava para o relógio, o treino era lento, e eu ia muito rápido. Estava a sentir-me tão bem. O descanso é fundamental.

R - Como são, normalmente, os teus dias?

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R - Sou fisioterapeuta. Faço domicílios e isso dá-me alguma flexibilidade. Antes de treinar costumo fazer um paciente. Vou treinar e depois do treino vou continuando a trabalhar, ir a casa dos pacientes. Muitas vezes, nos dias das séries a minha hora de almoço é reduzida, porque como me ocupa mais tempo, tenho de puxar os pacientes para a hora de almoço. Tenho a vantagem de comer em casa, isso ajuda imenso. Almoço e às 13:30 já estou a sair outra vez para começar a trabalhar. Às 16:30 estou a sair. Estou sempre em movimento. Se tivesse de trabalhar 8 horas na clínica era ainda mais difícil. Com esta flexibilidade é mais fácil gerir. Às vezes ando a correr, não é fácil.

R - Isso leva a outra questão: achas que devia haver mais projetos de apoio aos atletas no nosso país, para que se focassem mais?

SG - Sim, porque isso fazia os atletas terem continuidade. Porque há atletas que não têm apoio e acabam por desistir. Os resultados de hoje em dia não são como antigamente também por causa disso. No meu caso tive a sorte dos meus pais me ajudarem sempre e nunca cobrarem nada. Se não fossem eles eu hoje tinha de estar num trabalho de 8 horas.

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R - Mas mesmo assim continuas a ter de trabalhar?

SG - Sim, porque o atletismo não é suficiente, pois de um momento para o outro... Hoje estamos no topo e mas depois podemos estar lá em baixo. Tenho de ter alguma coisa segura, até porque os apoios não duram para vida toda.

R - Que tipo de apoios tens?

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SG - Agora tenho a apoio da adidas. É uma ajuda muito boa, porque para preparar maratonas o desgaste das sapatilhas é enorme. Depois os suplementos, tenho o apoio da Gold Nutrition. Os suplementos não ficam assim tão baratos… Mas foi só agora. Nas duas maratonas que fiz, fui eu quem investiu. Estou agora a colher os frutos. E não foi fácil!

R - Falando de nutrição, que cuidados tens na alimentação?

SG - Tenho uma boa alimentação. Como de tudo, mas não sou uma pessoa de comer fritos, doces. Claro que quando tenho um chocolate acabo por comer. Mas não sou de comer todos os dias! Como com qualidade. Legumes, fruta, sopa e tento também normalmente grelhados. E hidratos de carbono também.

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R - Tens algum tipo de 'guilty pleasure' pós maratona?

SG - Na primeira maratona que fiz, o meu treinador disse que se corresse bem íamos ao Five Guys. Em Valência repetimos. E agora em Paris, não sei se tem. Acho que se comermos um pouco de cada coisa, em quantidade certa, dá para ter equilíbrio. Não tenho essa restrição, de ter uma prova importante, de não comer chocolate, por exemplo. Não corto nada, mas não vou comer a tablete toda!

Por Fábio Lima
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