Albertina Dias: A campeã esquecida
Os princípios que sempre nortearam a carreira da campeã do Mundo de corta-mato, Albertina Dias, continuam a ser os mesmos. A pontualidade é norma para a dezena de miúdos que às terças e quintas-feiras se concentram no campo de Vila das Aves para um treino orientado por aquela que foi considerada com alguma propriedade a senhora do crosse. Vestindo ainda o fato de treino da selecção nacional e servindo-se de um velho cronómetro do seu companheiro Bernardino Pereira (que lhe tinha oferecido com mais uma outra colega ainda nos seus tempos de atleta no Boavista), Albertina Dias põe a rapaziada bem disposta, ainda que a variedade de percursos para o treino não seja muita.
Enquanto uns fazem umas voltas ao campo de um clube de futebol que chegou a militar na primeira divisão, numa pista de areia que circunda o relvado, outros, mais graúdos, vão completar o seu "footing" nas ruas de Vila das Aves. Depois é a habitual concentração, os indispensáveis exercícios de flexibilidade, algumas rectas e uma ou outra dica, um ou outro conselho a ter em linha de conta.
Albertina Dias orienta os treinos e as conversas com os miúdos ocorrem junto aos balneários. A antiga campeã do Mundo não tem um gabinete de trabalho e o Centro de Atletismo de Santo Tirso já tem algumas dificuldades para manter aberta a secção, que tem necessariamente algumas despesas, a partir do momento em que uma carrinha vai buscar os atletas às aldeias e os encaminha para o treino.
Durante dois dias por semana esta é a única actividade de Albertina Dias, uma campeã esquecida, que aos domingos leva a pequenada para treinos mais longos na praia da Apúlia ou para as provas de estrada. De resto, o frenesim não é muito. A reforma do atletismo foi ditada mais cedo que o previsto, por força de uma lesão, que a impedia de fazer séries ou treinos mais rápidos. "Sempre que forçava o andamento tinha dores enormes, a perna arrastava e não valia a pena continuar", afirma Albertina.
Das suas palavras nota-se uma grande mágoa por sentir que se não fosse a lesão ainda hoje poderia andar na competição, que é, no fundo, aquilo que ela mais gosta. "Quando somos novas só olhamos para o treino e para a competição e fervilhamos com tudo o que se passa com o objectivo de querer sempre fazer melhor. Hoje estou limitada na minha condição física".
O desabafo da campeã não tem apenas a ver com a sua retirada prematura. Implicitamente está ligado a um esquecimento que ela sente por parte de várias entidades. "Com o Maratona ainda há contactos regulares por telefone, mas da parte da Federação nem sequer me perguntam se preciso de um prato de sopa. Há muita coisa que está errada na nossa sociedade quando há atletas que desfrutam de um apoio e outros não. Se há para uns deveria haver para outros", justifica a antiga campeã do Mundo de crosse que tem algum orgulho em não andar a mover influências junto dos meios políticos para lhe resolverem a situação.
"Toda a gente sabe o que fiz pelo atletismo", sustenta Albertina, que adora estar ligada ao ensino do atletismo para os mais novos. "Desde os tempos em que fui atleta do Boavista que o meu sonho era ir às escolas falar com os miúdos e ensiná-los na área do meio-fundo", adianta a antiga atleta que tem em mãos a orientação técnica da campeã nacional juvenil de corta-mato Ercilia Machado. "Nunca me passou pela cabeça que ela fosse campeã, mas agora nos juniores já será diferente e é preciso treinar muito mais".
A opção por ser treinadora de atletismo já foi equacionada, mas Albertina sente que as suas aptidões estão mais dirigidas para os treinos dos miúdos. "Só se vir que daqui possa sair alguém que seja campeão olímpico..."
cada um nasce para o que é
No mesmo ano (1993) em que se sagrou campeã do Mundo de corta-mato, Albertina Dias fez uma estreia deveras promissora na maratona com 2.26,49 horas. Depois jamais voltou a bater esta marca e até sofreu algumas decepções na distância.
"Quando uma pessoa nasce para ser especialista de crosse não deve andar a fazer experiências noutras coisas. Foi muito bom essa estreia e só digo que deveria ter ficado por aí. Cada um nasce para o que é...", confessa Albertina Dias que nos últimos anos da sua carreira ainda ajudou o seu clube, o Maratona, (que a homenageou no Crosse de Oeiras, em 2001) a conquistar a Taça dos Clubes Campeões Europeus de corta-mato.
Algum azar nos negócios
Albertina Dias nunca teve muita sorte com os investimentos que fez. Primeiro chegou a investir algum dinheiro numa loja, mas não houve retorno. E quando sentiu que estava na hora de iniciar um outro tipo de investimento com vista ao futuro também não foi feliz. Albertina optou por ter um restaurante que funcionava num barco na zona ribeirinha do Porto, por altura dos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996.
"As preocupações eram imensas e isso obrigava-me a estar lá muito tempo, em prejuízo do treino. Como o restaurante não estava a dar, acabei por o passar". O melhor investimento que acabou por fazer foi na sua casa, onde vive em Alfena com o seu treinador de sempre, Bernardino Pereira, de quem tem uma filha com cinco anos. "Felizmente que a casa já está paga.
Mas as despesas são muitas".
Sem trabalho, Albertina Dias conta com o dinheiro certo que entra em casa e que provém da reforma de perto de mil euros de Bernardino Pereira (53 anos), um antigo empregado bancário. As apreensões estão na ordem do dia e já tem recorrido às suas poupanças com o dinheiro que conseguiu pôr de lado, enquanto fez atletismo. " Quando se tira dinheiro do saco e não se mete lá novamente, qualquer dia ele acaba..."
Quem é quem
Nome: Maria ALBERTINA da Costa DIAS
Local/data de nascimento: Porto, 26-4-65
Clubes: Boavista (1983 a 1990) e Maratona (1991 a 2000)
PALMARÉS
Campeã mundial de corta-mato em 1993; vice-campeã em 1990; medalha de bronze em 1992 (e ainda 5ª em 1994 e 6ª em 1991)
Quarta no Mundial de Meia-Maratona de 1994
4ª nos 3000 m do Mundial de Pista Coberta de 1991
7ª nos 10000 m do Mundial de 1993 (presente ainda em 1991 e 1995)
10ª nos 10000 m dos Jogos Olímpicos de 1988 (13ª em 1992)
Campeã ibérica de 10000 m em 1993 e 1995
6 medalhas colectivas em Mundiais de Estrada (1 de ouro, 2 de prata e 1 de bronze) e de Corta-Mato (1 de ouro e 1 de bronze)
29 vezes internacional (10 em pista, 1 em pista coberta, 11 em corta-mato e 7 em estrada)
Seis vezes vencedora individual nas Taças dos Campeões de corta-mato (3) e estrada (3)
Dez vezes campeã de Portugal (6 em pista, 3 em corta-mato e 1 em estrada)
Oito vezes no pódio do Campeonato de Portugal de corta-mato (3 vitórias, 4 segundos e 1 terceiro lugares)
RECORDES PEssOAIS
800 m - 2.07,9 (1988)
1500 m - 4.09,61 (1991)
Milha - 4.29,97 (1991)
3000 m - 8.43,08 (1992)
5000 m - 15.05,12 (1993)
10000 m - 31.33,03 (1993)
Meia-Maratona - 1.08.21 (1996)
Maratona - 2.26.49 (1993)