Clarisse Cruz: «Saltava a vala sempre a medo»

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Foi um recorde-surpresa, o de Clarisse Cruz nos 3000 metros obstáculos no Meeting de Milão. Até para a própria atleta, uma ilustre desconhecida, que nos pelotões nacionais costuma ser a melhor do segundo grupo de atletas, ainda a alguma distância de Helena Sampaio, Anália Rosa, Analídia Torre, Marina Bastos. Nascida em Ovar há 23 anos, ali continua a viver e a praticar atletismo, treinando a partir das 7.45 horas da manhã e das seis da tarde, depois de sair dos Serviços Municipalizados de Ovar, onde trabalha. "Quando é preciso treinar pista, faço-o em Aveiro, a 30 km", conta a atleta, que começou a praticar atletismo no desporto escolar aos 11/12 anos, mas só como júnior, aos 17 anos, se federou na Ovarense.

A nova prova de 3000 m obstáculos foi uma "aventura" que surgiu quase por acaso. "Falei ao meu treinador na hipótese de experimentar, mas antes de correr a prova em Viana do Castelo, no fim-de-semana passado, só tinha treinado duas vezes a passagem dos obstáculos. E nunca tinha passado a vala da água. Fi-lo pela primeira vez em plena prova e aquilo mete um bocado de impressão. Saltei sempre a medo..." Quatro dias depois, segunda experiência, em Milão. "Aí fui um pouco mais à vontade e a vala já me pareceu mais curta..." No último quilómetro, Clarisse recuperou bastante terreno relativamente a Analídia Torre. "À entrada para a última volta já estava perto dela, passámos o último obstáculo lado a lado e, depois, como sou mais rápida, ganhei. Mas só me apercebi do recorde quando a Analídia me disse."

Agora, Clarrise Cruz espera ser convocada para a Taça da Europa. "Nós as duas e a Anália Rosa temos tempos muito iguais, mas sou eu a recordista e, por isso, penso que terei a primazia. Mas o seleccionador é que sabe..."

Patrocinada mas receptiva a convites

Clarisse Cruz teve convites de outros clubes (nomeadamente de FC Porto, Boavista e JOMA) no final da época passada mas, "por motivos pessoais", preferiu continuar no Clube de Atletismo de Ovar, que nada lhe paga, mas lhe arranjou um patrocínio. No entanto, no final desta época, a atleta diz-se receptiva a mudar de ares. "A ideia é sair para outro clube, mas ainda não recebi convites. Falta bastante para o final da época...", comenta a atleta, que não pretende tornar-se profissional, antes querendo continuar no seu emprego, nos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Ovar. "Não compensa ser profissional e não teria paciência para só fazer atletismo..." Mesmo assim, a atleta quer chegar-se ao grupo das melhores fundistas nacionais. "Sou das mais novas e das menos experientes. Elas começaram como juvenis. Penso, pois, que em breve poderei estar ao nível delas..."

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