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Ricardo Ribas - ‘Fugitivo’ transmontano regressa às origens

Quando ainda era juvenil, Ricardo Ribas – que venceu o Crosse de Chiba, no Japão, pontuável para a IAAF – pôs a GNR atrás de si e os pais ficaram em alvoroço durante dois dias. Saiu de casa de manhã, disse que ia trabalhar e nessa noite não regressou. Já estava de abalada para o Porto e no dia seguinte fez a viagem para Lisboa de autocarro sem nenhum saco de roupa e com o escasso dinheiro das poupanças que mal lhe deu para comprar, depois, o bilhete de comboio para Paço de Arcos, vila onde trabalhava um conhecido da sua aldeia, Malhadas (perto de Miranda do Douro).

Ribas tinha apenas o contacto telefónico desse amigo e essa era a única via para lhe abrirem uma porta no sonho que perseguia desde miúdo: o de querer ser alguém no mundo do atletismo.

“Quando ele chegou ao pé de mim tinha os calcanhares em sangue e estava sem dinheiro”, conta José Afonso, o tal amigo de Ricardo Ribas, natural de Malhadas. Pelo Natal cruzaram-se duas ou três vezes e nessa breve conversa, Ribas já tinha a ideia fisgada e ficou com o tal contacto, que veio a ser providencial. “A primeira coisa que fiz foi telefonar aos seus pais para eles não se preocuparem”, adiantou José Afonso, proprietário de um restaurante em Paço de Arcos. O seu sócio, António Jacinto, lembra as dificuldades por que passou o rapaz nos primeiros tempos. “Ele era uma pessoa muito dedicada ao trabalho e sabe reconhecer o apoio que as pessoas lhe deram. Veja lá que quando lhe pagámos o primeiro ordenado ele não o queria receber como sinal de gratidão por o termos acolhido. E como ficou engripado ao fim de uma semana disse-nos que parte desse ordenado era para pagar os remédios...”

Apesar de algumas dificuldades iniciais, Ribas lá se fez ao caminho e começou a treinar no Estádio Nacional com umas sapatilhas meio rotas. “Estás a 50 metros de ganhares cinco contos”, disse-lhe uma vez António Jacinto, numa prova na Amadora, meses depois.

Ribas entrou, entretanto, em contacto com os responsáveis do Maratona e durante cinco anos envergou de borla a camisola do clube. “Mas davam-me material. Isso não faltava.” Quando começou a dar nas vistas, em 2000, Rafael Marques abeirou-se então de Ribas e fez-lhe ver as vantagens de ser profissional. Pediu-lhe para deixar de ser o rapaz que servia às mesas no restaurante, mas em reconhecimento do gesto de gratidão, Ricardo Ribas ainda ia servir uns almoços para “matar saudades. Ele tem um jeito enorme para a cozinha e faz uns pica- -paus e uns bitoques muito bons. Um dia ainda há-de ser gerente de um restaurante”, afiança José Afonso.

Turista acidental em Lisboa

Ricardo Ribas fez uma autêntica vida de monge nos primeiros anos em Paço de Arcos. Longe dos pais “que sofreram bastante com a minha saída, mas que me ensinaram a ser homem”, o atleta diz que “só ao fim de alguns anos é que passei a conhecer alguma coisa para os lados de Cascais e na baixa lisboeta. Foi quando a Nédia me levou a passear como turista...”

«É o Maratona que me paga o ordenado»

O fundista transmontano está agradecido ao Maratona por lhe ter aberto as portas. “Ao princípio ganhava 25 contos, mas apostaram em mim. Eu não faço provas a mais pelo clube, pois é o Maratona que me paga o ordenado certo. Fiz algumas provas a mais, mas preciso de pagar os meus compromissos”, vinca Ribas, campeão de 5000 m.

Campeonato de corta-mato é equilibrado

“É bom para quem quiser ficar de fora a ver o espectáculo.” A frase é de Ricardo Ribas e refere-se à previsão para o Nacional de crosse, a 9 de Março, no Estádio Nacional. “É muito equilibrado e vai ser mais difícil para mim ficar entre os 10 primeiros do que ter ganho em Chiba. Há bons valores e pelo Maratona, que precisa de mim, vou abdicar do crosse curto.”

O namoro com Nédia

Ricardo Ribas tem levado a vida a poupar dinheiro e desde que meteu na cabeça que queria ser atleta, então tem profiado nessa via. A estabilidade acima de tudo. “Lá na minha aldeia sabia que não ira ter muito futuro e quando lá vou aquilo já é muito parado”, refere o atleta do Maratona, que há três anos se meteu na compra de um andar em Vila Fria, perto de Porto Salvo. E ali vive com a sua namorada, a atleta internacional Nédia Semedo, especialista de 800 m e grande revelação do Europeu de Munique. A vida a dois tem reflexos “positivos”, no entender de Ribas e Nédia. “Compreende-se melhor a pressão e outras situações”, diz Ribas. Nédia ajunta. “É mais fácil desabafar e falar de certas coisas com alguém de quem gostamos e também é atleta.”

No entanto, o namoro tem custos adicionais nas conversas telefónicas, quando um e outro competem no estrangeiro. “Quando estive em Pequim nas Universíadas foi ele a gastar, agora fui eu que ultrapassei o orçamento ao falar para Chiba...”

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