”FOI tudo demasiado rápido”, repete, vezes sem conta, o internacional luso Sérgio Ramos, protagonista – quando nada o fazia prever – da mais sensacional transferência da história do basquetebol nacional: do Benfica para a cotada formação transalpina do Olímpia Milão.
”Estive praticamente dois dias sem dormir, pois se é verdade que adorava ser jogador do Benfica, é preciso perceber que não surgem convites deste género a toda a hora. Tive de analisar a proposta dos italianos; falar com os dirigentes portugueses; escutar as opiniões das pessoas mais próximas e decidir num curto período”, recorda, agora já com um sorriso de alívio, o internacional português.
”Ir para o estrangeiro era um objectivo traçado há uns anos e se, até à data, por esta ou aquela razão, não foi possível concretizar esse sonho, desta feita era quase pegar ou largar. A carreira de um atleta é curta.
Temos de saber dar os passos certos no momento adequado, procurando conciliar a vertente desportiva e económica. Muito sinceramente, penso que se não saís- se agora, seria difícil voltar a ter uma hipótese tão boa para emigrar”, admite.
Embora já tenha dialogado, via telefone, com o técnico do Olímpia Milão, Sérgio Ramos não sabe, ao pormenor, o que vai encontrar na capital da Lombardia, mas mesmo antes da viagem – que terá lugar, esta manhã, às 11 horas – é possível encontrar várias diferenças entre o basquetebol português e italiano.
”Lá é tudo mais profissional. A estrutura que envolve uma equipa de basquetebol é algo de impensável para as formações portuguesas. E depois é preciso não esquecer os pavilhões; o interesse do público e todas as facilidades colocadas à nossa disposição. Que lhes prometi em troca? Muito trabalho e dedicação, tendo como objectivo ajudar a equipa e evoluir como jogador”, diz.
PRÉMIOS CHORUDOS
Caso Sérgio Ramos consiga em Itália aquilo que lhe escapou em Portugal – ser campeão nacional –, a sua conta bancária vai sofrer um aumento considerável. ”Independentemente do ordenado, que já é superior ao que auferia no Benfica, existe a possibilidade de somar alguns bónus. Porém, para que isso suceda, é preciso atingir determinadas metas, tanto individuais como colectivas. Vamos ver como corre a temporada, mas sei que, a exemplo do ano anterior, a aposta é para os lugares da frente”, explica entusiasmado.
Deixar o Benfica sem conquistar o título máximo é uma das mágoas que não esquece. ”Venci a Taça de Portugal, a Taça da Liga e a Supertaça, mas o Nacional fugiu sempre. Espero, um dia mais tarde, ainda ter possibilidade de rectificar essa situação. Quando regressar a Portugal, o Benfica será sempre a minha primeira opção. Porém, agora, vou concentrar-me na minha nova equipa e tentar justificar a opção do treinador, para além, claro está, de pretender dar uma imagem positiva do basquetebol português”, reforça.
AS SAUDADES E... O TELEFONE
Embora seja provável que a família e a namorada o visitem de dois em dois meses, Sérgio admite que as saudades das pessoas e da cidade de Lisboa ”serão muitas”.
”Nunca é fácil deixar para trás as pessoas de quem mais gosto e o local onde sempre vivi. Mas a família, namorada e amigos sabem o que está em causa e têm sido excepcionais no apoio que me estão a dar. O telefone ajudará a colmatar a sua ausência física. Gostava também de agradecer a todos os treinadores com quem trabalhei. Todos contribuiram para que o meu sonho pudesse transformar-se em realidade.
«QUERO IR AO FUTEBOL»
Viver em Milão, numa das cidades mais frenéticas do Velho Continente, tem as suas vantagens e o basquetebolista português sabe, de antemão, que poderá assistir a espectáculos de qualidade superior, nomeadamente se falarmos de... futebol.
”É claro que quero ir ao futebol! Sempre que for possível, pretendo ir ver o Milão e principalmente o Inter, visto nesta equipa alinharem o Paulo Sousa e o Ronaldo. E não posso esquecer o Rui Costa. Quando a Fiorentina jogar em Milão, vou fazer tudo para o ir ver”, diz.
Em suma, Sérgio Ramos tem a certeza que nada lhe vai faltar, inclusive um apartamento confortável; um automóvel para as deslocações e um restaurante fixo onde fará as suas refeições. ”Não tenho que me preocupar com nada. Apenas com a conta do telefone e com o frio no Inverno”, afirma irónico. ”E preciso de comprar um dicionário para começar a aprender a língua”, atira de seguida,
Sexta-feira, porém, quando chegar a Milão, Sérgio Ramos nem sequer vai ter oportunidade de conhecer a residência que vai ocupar, no mínimo, durante os dois próximos anos. ”O treinador adjunto vai buscar-me ao Aeroporto e sigo, de imediato, para o estágio da equipa, numa zona montanhosa, a cerca de duas-três horas de Milão”.
Por outras palavras, Sérgio vai chegar... e trabalhar. ”Nem sei o calendário da equipa, mas tenho tempo para estudar isso. Agora, quero é começar a treinar e procurar adaptar-me, quanto antes, à nova realidade”, diz.
SELECÇÃO NO PENSAMENTO
Mesmo assumindo que o Olímpia Milão é, de momento, quem lhe merece a maior atenção, Sérgio Ramos não esquece a selecção nacional.
”Espero continuar a fazer parte das opções do seleccionador. Temos hipóteses de atingir a nossa melhor classificação na próxima fase de qualificação e pretendo, lado a lado com os companheiros, contribuir para esse objectivo. Por outro lado, as eventuais convocatórias servirão, igualmente, para dar um ’saltinho’ a Portugal...”
LUÍS AVELÃS