Mário Gomes critica "falta de condições": «Duvido que presidentes de câmara trabalhem assim...»
Selecionador obrigado a reduzir tempo de treino por ausência de ar condicionado
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A preparar os primeiros dois jogos da segunda fase de qualificação para o Mundial de basquetebol, no Qatar em 2027, Mário Gomes, selecionador nacional, abordou estas semanas de trabalho, mas, antes de antever a visita a Espanha (dia 28), fez questão de tirar algo do peito: a "falta de condições para treinar". A equipa das quinas viu-se obrigado a reduzir o tempo das sessões de trabalho devido à falta de ar condicionado no Pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa.
Falta de condições: "Ando com isto atravessado na garganta há muito tempo e tenho de fazer este desabafo. Este treino de hoje, tal como o de amanhã, estava planeado para ter cerca de duas horas. Ao fim de uma hora e dez minutos tivemos de parar porque não há condições para continuar a treinar.
Isto é uma tristeza, é uma vergonha. Somos o único país da Europa onde não há pavilhões públicos com ar condicionado. Duvido que nos gabinetes ministeriais e os senhores presidentes de câmara trabalhem assim, com estas condições em que nós estamos a trabalhar. Isto é demais. Já foi demais o jogo que fizemos em Matosinhos. Não são condições para se trabalhar, porque, além do mais, arriscamos lesões dos jogadores.
Quando chegar a altura de cobrar os resultados, estou cá para assumir a responsabilidade. Estou cá agora também para dizer aquilo que deve ser dito.
Primeiras semanas de trabalho: "Relativamente à equipa, a semana passada foi muito dura. Os jogadores fizeram um trabalho extraordinário para nos aproximarmos o mais possível da forma desportiva que é possível ter nesta altura do início da época. Esta semana é muito mais para afinar as coisas em termos táticos. Em termos de carga de treino, como vamos ter dois jogos, não é preciso estar tão preocupado com essa componente.
É óbvio que não só o Neemias [Queta], mas também o Rúben [Prey], obrigam a equipa a fazer algumas coisas diferentes. Não é mudar muita coisa, mas procurar encontrar a forma de aproveitar aquilo que eles nos podem trazer e que, sem eles, não temos."
Neemias e Prey ao mesmo tempo? "Depende. Temos as coisas organizadas de maneira a que possam estar os dois em campo ao mesmo tempo. O Rúben pode jogar a 4 e não haverá problema. Quando tivermos um 4 mais lançador, vamos à procura de umas coisas; quando tivermos um 4 menos lançador e mais forte perto do cesto, vamos à procura de outras. Não temos muito tempo para trabalhar, mas os jogadores estão a trabalhar muito bem e a assimilar as coisas. Estou confiante de que vamos ser uma equipa forte, uma equipa competitiva, à qual vai ser difícil ganhar."
Continuamos a ser, neste conjunto de equipas, o 'underdog'. Mas um 'underdog' que já mostrou que pode morder. Vamos tentar morder!
Mário Gomes
Selecionador nacional de basquetebol
Portugal substimado? "Eu sei que isso pode acontecer. Não vou estar aqui a ser hipócrita. Sou treinador há mais de 50 anos e sei que isso pode acontecer. O fundamental em qualquer jogo é a cabeça, é a maneira como as equipas entram nos jogos. Frequentemente, depois, durante o jogo, tenta-se mudar o chip, como se costuma dizer, e não se consegue.
É possível que isso tenha acontecido com a Grécia. Nós sabemos que a Grécia é, por norma, mais forte do que nós. O facto é que, naquele jogo, fomos mais fortes do que eles. Fizemos talvez a melhor exibição defensiva desde que estou na Seleção Nacional, tirando talvez o jogo com a República Checa no ano passado, no EuroBasket. Temos tido momentos assim, mas defendemos muito bem nesse jogo.
É possível que isso tenha acontecido, mas, muito sinceramente, com os argumentos que os gregos apresentaram naquele jogo, acho que a chave não foi essa. Acho que a chave do jogo foi o nosso mérito, especialmente em termos defensivos.
Não levo isso nada a mal, nem utilizo isso de uma maneira especial, até porque os jogadores sabem disso e automotivam-se com essas coisas. Não sou muito adepto dos 'mind games'. Nunca ganhei jogos nem campeonatos com isso. Ganha-se com duas coisas: confiança em quem trabalha connosco, a começar pelos jogadores, e treino. Eu acredito no treino.
Evolução de Rúben Prey: "Evoluiu bastante. É o que posso dizer: evoluiu bastante. Quer do ponto de vista físico, quer do ponto de vista técnico, quer até do ponto de vista mental, da maneira como está em campo. Aliás, outra coisa não seria de esperar. O Rúben está numa grande universidade, com muita tradição, com um dos treinadores mais bem-sucedidos da história do basquetebol americano. Portanto, está muito melhor a todos os níveis."
Aproximação do próximo nível: "É uma coisa que transmito aos jogadores. Temos de ter uma noção clara da equipa que somos. Hoje em dia somos uma equipa forte, mas somos uma equipa que, se não estiver no seu melhor, quer do ponto de vista defensivo, quer do ponto de vista ofensivo, quase qualquer equipa nos pode ganhar. Temos de ter noção disso. Foi o que aconteceu na Roménia. Jogámos metade do jogo, não jogámos no meio-campo defensivo praticamente, e perdemos com uma equipa relativamente à qual, neste momento, somos mais fortes. Portanto, a questão é mesmo essa: temos de ter noção de que somos fortes, somos competitivos, temos de ter confiança, mas sabendo que, para conseguir resultados a este nível, temos de estar no nosso melhor dos dois lados do campo."
Luta pela qualificação: "Como vocês sabem, a qualificação é muito difícil. É possível, mas é muito difícil. Eu diria que continuamos a ser, neste conjunto de equipas, o 'underdog'. Mas um 'underdog' que já mostrou que pode morder. Vamos tentar morder."