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Mário Elie tem um longo trajecto até atingir a fama
SE É verdade que ser profissional de uma equipa da NBA é uma profissão apetecida e mesmo invejada - é difícil conseguir contratos financeiros mais avultados noutros desportos -, nem todos os "astros" que fazem as delícias dos amantes da Liga norte-americana tiveram uma vida fácil até alcançarem a fama.
Mario Elie, tal como muitos outros, quase abdicou do sonho de uma vida. Porém, quando as esperanças já não eram muitas, a sorte sorriu-lhe. Depois, "apenas" foi preciso demonstrar nos "States" aquilo que já havia exibido a argentinos, irlandeses e... portugueses: uma capacidade invulgar para praticar basquetebol.
Escolhido numa impensável 160ª posição do "draft" de 1985 (pelos Milwaukee Bucks), este afável nova-iorquino - que para além da paixão pelos cestos, não dispensa uma boa gargalhada, de preferência intervalada por uns petiscos... - teve de esperar quase seis anos até conseguir cumprir o principal objectivo da sua infância: alinhar no mais competitivo, espectacular, exigente e mediático campeonato mundial de basquetebol.
Foram os históricos Sixers de Philadelphia que proporcionaram ao cidadão Mario Antoine Elie, agora com 36 anos, a entrada na NBA. Decorria a temporada 1990/91. A experiência, porém, não foi intensa, nem duradoura. Com um contrato de dez dias - ainda hoje em dia utilizados quando as equipas precisam, pontualmente, de colmatar a ausência de alguns jogadores lesionados ou castigados -, o extremo/base somente disputou três encontros, não conseguindo melhor que somar meia dúzia de pontos em 20 minutos de utilização. Terminada a experiência, regressava à CBA (outra liga profissional, a segunda mais importante dos Estados Unidos), onde era figura de proa ao serviço dos Patroons de Albany (médias de 24,4 pontos, 5,7 ressaltos e 4,8 assistências).
Um mês volvido, os Golden State Warriors - a contas com a lesão do lituano Marciulonis (um dos primeiros atletas europeus a impor-se na NBA) - também recorreram aos préstimos de Elie. No entanto, desta vez, o vínculo de dez dias acabou por se transformar num contrato até final da temporada.
Chegara a hora dos Estados Unidos reconhecer a valia deste lutador...
IRONIA DO DESTINO
Mario Elie jamais poderá esquecer a sua passagem pela modesta turma californiana. Afinal de contas, foram os Warriors que o projectaram para uma carreira dourada onde já cabem três anéis de campeão. Manda o bom-senso que o jogador também nutra algum carinho pelo técnico que acreditou em si.
E tal verifica-se, apesar de nunca ter percebido porque razão é que o mesmo responsável - o experimentado Don Nelson - não o deixou sequer acabar o período de treinos em Milwaukee, quando foi seleccionado pelos Bucks, dispensando-o ainda antes da temporada começar. Mas, como diz o povo, "o que tem de ser, tem muita força" e, à segunda tentativa, Nelson acabou mesmo por ser o "padrinho" que Elie necessitava...
Depois de brilhar nos Warriors, a ascensão foi meteórica.
Mereceu a confiança dos Portland Trail Blazers e, um ano mais tarde, foram os Rockets de Houston que o cativaram. Ao lado de Hakeem Olajuwon ajudou à conquista de dois títulos (94 e 95), sendo de destacar as magníficas prestações conseguidas nas finais, particularmente no primeiro ano, época em que os finalistas vencidos foram os Knicks de Nova Iorque, a equipa da sua terra (a sua casa dista apenas cinco minutos de metro do lendário Madison Square Garden)...
Em 1996/97, Elie já era uma estrela na NBA. Exibia dois anéis de campeão; era titular indiscutível em Houston e tinha direito a um contrato milionário. Porém, dois anos mais tarde, a aquisição de Scottie Pippen, fez com que voltasse a mudar de ares, optando pelos também texanos Spurs. Com Tim Duncan e David Robinson na equipa, Elie tinha tudo para voltar a ser feliz. E foi mesmo. Sempre titular, voltou a ser decisivo na conquista do primeiro título do historial de San Antonio. E, para não variar, o destino voltou a ser irónico. Os finalistas derrotados foram... os Knicks e a festa do título foi feita em... Nova Iorque, num pavilhão que Elie conhece desde miúdo... o Madison Square Garden!
«EXPLOSÃO» EM OVAR
Há mais de 12 anos, na temporada 1987/88, a Ovarense era um clube, no que a títulos diz respeito, sem expressão no basquetebol português, embora apostasse forte na tentativa de quebrar a clara hegemonia do Benfica liderado por Carlos Lisboa. Orientada por Luís Magalhães - hoje ao leme da Portugal Telecom -, a turma vareira incluía, entre outros, Mário Leite, Rui Leitão, Vítor Ferreira e Rui Chumbo. Porém, como não poderia deixar de ser, esperava que a dupla de estrangeiros pudesse fazer a diferença. "DJ" e Mario Elie foram os eleitos...
No final da competição, os dirigentes da Ovarense tinham razões para sorrir. O título tinha deixado de ser uma miragem e o desempenho dos norte-americanos não podia ter sido melhor, nomeadamente nos embates decisivos com o Benfica.
Mario Elie, nessa altura, já não enganava. Lutador incansável, não dava um segundo de descanso aos adversários. No ataque, mesclava poderosas penetrações, com eficientes lançamentos de curta e média distância, não se esquecendo também de assinar assistências primorosas. Na defesa - contrariando uma prática comum dos norte-americanos que alinhavam em Portugal -, "dava o litro", batalhando por todas as posses de bola e coleccionado um sem-número de ressaltos, recuperações, intercepções e desarmes. Não é por acaso que, mais de uma década depois, os jornalistas norte-americanos que cobrem a NBA o qualificam como "um dos melhores defensores da Liga"...