Mário Palma: «Não consigo compreender como o Barcelona joga assim»
Mário Palma confessa: "No futebol, atualmente, sou um apaixonado pelo Barcelona"...
Gostava de um dia poder sentir os portugueses mais familiarizados e orgulhosos com os feitos da Selecção Nacional, a exemplo do que acontece com outras modalidades?
Ricardo Costa, Horta
Claro que sim! Mas temos de fazer algo por isso. Sei que os bons resultados ajudam a trazer público. No entanto, numa primeira fase também precisamos de apoio das pessoas. Há que perceber que na Seleção desaparecem as camisolas dos clubes e que estamos todos do mesmo lado a defender o país.
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Sendo um treinador reconhecido por dar grande importância às questões defensivas, vai a Selecção Nacional basear o seu jogo ofensivo no contra-ataque? Teodomiro Contramestre, Montijo
Há que conseguir marcar pontos através da defesa. Este é um princípio base. Se não defendermos bem não há hipóteses de fazer frente a determinadas equipas. Quem defende e ressalta melhor está mais perto de ganhar os jogos. Nós somos, por tradição, mais baixos que os adversários, pelo que temos de ter essa ideia presente e saber adaptar o tipo de jogo a utilizar, partindo sempre do pressuposto que é essencial defender bem, de modo a poder ganhar mais ressaltos e sair em contra-ataque. Mas é preciso também definir outros aspectos como o jogo interior, o 5x5 em meio-campo e não esquecer que, face a adversários mais fortes, diminuir o número de posses de bolas pode ser uma ajuda fulcral. Jogar mais devagar é uma das formas de atenuar as diferenças de potencial. O modelo de treino integrado irá facilitar a assimilação de todos os conceitos. Teremos dias dedicados às várias áreas. Há que ter um jogo equilibrado, pois só defender não resolve todos os problemas.
Cada vez usamos mais jogadores naturalizados na selecção de futebol. É da opinião que deveríamos fazer o mesmo no basquetebol?
Jorge, Ovar
Os Estados Unidos, se pudessem e necessitassem, teriam 12 estrangeiros. Eles orientam-se pela excelência. Não foi por acaso que tentaram naturalizar a Ticha Penicheiro. Tim Duncan, Pat Ewing e Hakeem Olajuwon são exemplos de que também os Estados Unidos, e no basquetebol, optam por essa via. Creio que isso é um falso problema. Quem tem cidadania portuguesa tem de poder ser opção. Ainda por cima, no caso da nossa modalidade, por muitos naturalizados que existam só pode jogar um de cada vez na Seleção.
Espera conseguir trazer uma alma nova à Selecção, de modo a que se consiga arrastar os portugueses para os pavilhões?
Tiago Filipe, Lisboa
Não quero prometer nada, mas gostava que a modalidade fosse outra vez mais respeitada e acompanhada. A Seleção pode ser o embrião para a recuperação do estatuto do basquetebol entre o desporto português. Todos os que estão relacionados com o basquetebol têm a responsabilidades e o dever o moral de apoiar. Há que ter confiança uns nos outros.
A modalidade perdeu em Portugal o fulgor dos anos 90. De quem foi a culpa?
Rui Castro, Sernancelhe
De todos! E minha também. Não estive cá, mas também sou culpado. Estive a treinar fora do país, ajudando outras nações e não Portugal. Enquanto estive cá (11 anos), curiosamente, a realidade era outra. Há que tentar recuperar e pessoalmente pretendo ajudar, dar o meu contributo. Acredito muito no que faço. Ser sério é importante para gerar confiança. A minha filosofia basquetebolística já foi aplicada antes e tenho razões para acreditar que pode voltar a funcionar. Na Selecão, há que ser trabalhador e respeitar a bandeira. Ninguém está acima da própria Seleção. Todos teremos de olhar para cima.
Estar cerca de uma década no estrangeiro mudou a sua percepção do Mundo, de Portugal, da vida?
Carla Antunes, Funchal
Sim. Estive nos Jogos Olímpicos, nos Campeonato do Mundo e passei muito tempo no Médio Oriente, na Ásia, em África. Conheci novas culturas. Sou um verdadeiro cidadão do Mundo. Tenho o máximo respeito por quem é diferente. Vivi muitos problemas, mas essa experiência ensinou-me que tenho de respeitar os outros, nomeadamente os estrangeiros que trabalham no meu próprios país. Andar lá por fora ajuda-nos a compreender melhor os outros, a ouvi-los, mesmo podendo não estar de acordo. Tenho um orgulho muito grande de ser português. E neste aspecto de entendermos os outros, damos grandes lições a muita gente. Sou melhor treinador, hoje em dia, por causa das experiências que tive ambientes. A Jordânia, então, foi sensacional. Estar 6 meses à frente de uma seleção no país já era um recorde e eu estive lá 4 anos. Foi preciso ensinar as pessoas em inúmeras questões que eles desconheciam. Foi o meu trabalho mais difícil, talvez o melhor ao nível da liderança, da comunicação. E tive de aprender a dizer “não”!
Como é que um português se adapta a uma realidade tão diferente como a da Jordânia? Como era a sua vida lá?
Paulo Ferreira, Porto
Adaptei-me com um enorme respeito pelas pessoas e pela sua cultura. Em Portugal, a maioria da população desconhece que a Jordânia é uma nação altamente evoluída, onde se vive bem. Petra, por exemplo, é uma cidade muito bem organizada. Não há miséria evidente no país, apesar de algumas bolsas de palestinianos que não se conseguem adaptar. Aconselho os portugueses a visitar a Jordânia e a ficar lá uns dias. Vão confirmar que há grande qualidade de vida.
Qual a importância de Mário Gomes na sua carreira?Fernando Baltazar, Coimbra
Os treinadores têm de perceber que não podem ter ao seu lado simples ‘yes mens’. Têm de perceber que as suas costas precisam de ser defendidas. É essencial ter consigo alguém que corrija, que diga que não, que seja competente. O Mário Gomes é um extraordinário adjunto. Aliás, ele é um treinador principal que faz o favor de trabalhar comigo. Ele possui qualificações excepcionais ao nível da organização. Eu, pelo contrário, não sou pelos papéis, nem pelos computadores. Preciso de pessoas que me ajudem nessas áreas. O Mário é simplesmente imbatível nessas competência. O Ivan Kostourkov, o outro adjunto que me vai auxiliar na Selcção, também domina a informática, os vídeos e o scouting. E já que falo nele devo dizer que, por princípio, defendo que os membros da equipa técnica da Seleção devem ser portugueses. Só que o Ivan também já é português. E comigo as pessoas só entram se forem competentes. Ele tem muito mérito. Já há algum tempo que acompanho o seu trabalho e sei que ele tem grande futuro à sua frente.
Deixando de lado o basquetebol, que outras modalidades aprecia?
Pedro Canário, Ferragudo
Gosto de desporto no geral e tenho os meus ídolos, os desportistas ou as equipas por quem torço. Roger Federer e Michael Schumacher são dois deles. Sempre que algum dos meus favoritos abandonam ‘retiro-me’ algum tempo da modalidade, até adoptar outro preferido. No ténis, por exemplo, antes do suíço era fá do Sampras. Na NBA sou adepto dos Lakers e do seu técnico, o Phil Jackson, um verdadeiro génio. Não tenho dúvidas que a equipa se vai afundar com a sua saída. Mas, resumidamente, no desporto ‘vou a quase todas’. No futebol, atualmente, sou um apaixonado pelo Barcelona. Essencialmente por não conseguir compreender como é que se faz aquilo num desporto coletivo, como é que se atinge praticamente a perfeição, como é que se consegue evoluir quando já se está em patamares tão elevados.
Se tivesse chegado à Selecção Nacional há uns anos, quando existiam mais jogadores de qualidade (Paulo Simão, Luís Silva, Carlos Seixas, Alexandre Pires, Raul Santos, Rui Santos e outros), seria mais fácil conseguir resultados importantes a nível internacional?
João Pereira, Braga
Essa geração não é melhor que esta, logo não era mais fácil. A atual não é inferior. Diferente era a do Carlos Lisboa. Quem me dera que ele pudesse jogar. Já lhe disse, em tom de brincadeira, para se ir preparando e aparecer no dia do arranque dos trabalhos...
Vai ser diferente estar no banco a ouvir o hino nacional em vez dos hinos de Angola e da Jordânia?
Rui Horta, Guimarães
Terá uma carga emocional diferente, naturalmente. Sempre tive um imenso respeito pelo hino das selecões que orientei, mas Portugal não é a mesma coisa, é o meu país.