Bostjan Nachbar, antigo jogador da NBA entre 2002 e 2008 e atual diretor da Associação de Jogadores da Euroliga (ELPA), será um dos participantes na conferência subordinada ao tema 'Representatividade dos atletas e proteção dos seus direitos', agendada para a próxima segunda-feira (dia 9), entre as 19h e as 22h00, e organizada pela Universidade Europeia no âmbito da licenciatura e mestrado em Gestão do Desporto.
O ex-basquetebolista estará no Auditório 1 - Oriente Green Campus, da Universidade Europeia, falando numa fase inicial sobre 'perspetivas sobre representatividade e direitos dos atletas na Europa'. Em seguida, participará numa mesa redonda, cujo tema será 'o papel das organizações na proteção e valorização dos atletas', e onde estarão também Carlos Barroca (professor na Universidade Europeia), Luiz Haas (professor na Universidade Europeia) ou Pedro Pereira (presidente da Associação de Jogadores de Basquetebol). Pode seguir a conferência em direto neste link. [ver programa completo na imagem em cima].
Antes da chegada a Portugal, Nachbar, antigo internacional esloveno que representou equipas como Houston Rockets, New Orleans Hornets e New Jersey Nets, falou sobre a presença no evento mas também sobre basquetebol europeu e português, o desempenho de Neemias Queta nos Boston Celtics e, obviamente, do seu compatriota Luka Doncic, um dos melhores do Mundo.
Qual é a importância de um evento como este, que aborda um tema tão importante como, por exemplo, a proteção dos direitos dos jogadores de basquetebol?
BOSTJAN NACHBAR - É um tópico muito importante, que muitas vezes as pessoas ou público em geral desconhecem. Acho que é importante alertar para o tema, em primeiro lugar, e em segundo é importante compartilhar as experiências de diferentes associações de desportos, de pessoas na indústria ou de atletas. A melhor maneira é aprendermos com os outros. Estou feliz por este convite e por poder partilhar o que aprendemos na Associação dos Jogadores da Euroliga nos últimos oito anos, desde que começámos a trabalhar, pois demos grandes passos em frente.
Quais são, para si, os maiores desafios como diretor da Associação dos Jogadores da Euroliga?
BN - Os desafios têm várias camadas. Há uma diferença entre os problemas que os jogadores têm individualmente e os problemas que têm dentro de um coletivo. Uma das coisas mais difíceis, ou desafiantes, é navegar por algumas das maiores crises no Mundo, já que elas influenciam diretamente os desportos. Por exemplo, em 2020, houve o Covid no Mundo. Em 2022, a guerra entre Rússia e Ucrânia, em que tivemos que ajudar os jogadores a viver nas equipas na Rússia. Depois a situação em Israel, onde tínhamos uma equipa - agora são duas, Maccabi e Hapoel. E, recentemente, o que está a acontecer no Médio Oriente. Vamos relocalizando equipas e ajudando jogadores a sair dessas zonas. Esses são os maiores desafios, pois muitas vezes estão fora do âmbito do desporto. Lidar com os desafios de desporto é um pouco mais fácil, mas quando algo acontece no mundo da política, ou uma crise mundial, aí é quando as coisas ficam muito complicadas. Essa é uma parte do desafio. A outra é lutar sempre por condições melhores para os jogadores na liga. Demos já alguns passos em frente, mas ainda queremos melhorar. E isso não é sempre fácil, já que depende de outras partes, neste caso liga e clubes, e o quanto terão de negociar. Mas a coisa mais recompensadora é quando ajudamos o jogador individualmente ou como coletivo.
Como tem visto o basquetebol português?
BN - Portugal não tem uma equipa na Euroliga, portanto não estamos diretamente conectados ao país. Mas joguei contra a Seleção e algumas equipas portuguesas, por isso sei que tem uma longa história, mas também sei que não é o desporto número um, como acontece noutros países. Acho que é um país que está a crescer em termos de basquetebol. Têm um jogador na NBA e ajuda sempre ter uma estrela que pode motivar a próxima geração. Estou feliz por poder aprender nesta conferência, ao mesmo tempo que vou estar em Portugal. A última vez que lá estive foi para um NBA Jr. Camp, há cinco anos, creio. Mas foi uma ótima experiência. Vi algo muito interessante, que é uma grande paixão das crianças pelo basquetebol. Quando passei alguns dias lá, fiquei surpreendido com a quantidade de crianças, a paixão e o amor que eles têm pelo jogo. Espero que isso continue a crescer, porque sempre que visitei Portugal, tive sempre experiências incríveis.
Assistiu já a algum jogo do Neemias nos Boston Celtics?
BN - Assisto à NBA em geral. Os Celtics têm uma boa equipa e estão numa das melhores posições. Não se chega lá com erros. Os Boston Celtics são, obviamente, nos últimos anos, uma das melhores equipas e proporcionam entretenimento a quem os vê. Será interessante ver como eles terminam a temporada, agora que Jayson Tatum vai voltar [n.d.r.: esta sexta-feira, diante dos Dallas Mavericks]. Acho que serão um forte candidato para, potencialmente, disputar as finais da NBA.
E a evolução de Neemias ao longo do tempo?
BN - Digo sempre que é mais fácil chegar à NBA do que ficar na NBA. É uma liga com muita competitividade entre os jogadores. Cada vez que tens uma oportunidade, tens de aproveitá-la. E eu acho que, no caso dele, ajuda estar a representar uma das melhores equipas. Porque uma coisa é atuar numa formação que está no fundo da classificação, outra completamente diferente é numa equipa que luta pelo título. Espero que continue a melhorar seu jogo e a solidificar o seu papel na NBA. Sei que isso também vai ser uma grande ajuda para o basquetebol português em geral, pois lembro-me o quão importante foi quando, há 25 ou 30 anos, tivemos os primeiros jogadores eslovenos na NBA e o quanto isso mudou o basquetebol no nosso país. É, provavelmente, muito similar ao que está a acontecer em Portugal agora.
Falando sobre a Eslovénia, é, como Portugal, um pequeno país a nível de habitantes mas consegue ser uma potência no basquetebol europeu. Qual é o segredo e o que os portugueses podem aprender com a Eslovénia?
BN - Estarmos nesta localização geográfica faz a diferença, pois a antiga Jugoslávia era um país muito forte no basquetebol. Muita da história e da paixão vem do facto de a Eslovénia ter feito parte disso, tendo um basquetebol muito bom por várias gerações. O que se vê nos últimos 20, 25 anos é que os jogadores não ficaram apenas na Eslovénia ou nos países da ex-Jugoslávia, mas começaram a jogar lá fora. Espanha, Itália ou outros lugares. Inclusive na NBA. Foi aí que as pessoas começaram a perceber o nível do basquetebol esloveno. Essa é a grande vantagem, ter a oportunidade de exportar os jogadores para as ligas mais fortes, como está acontecendo com o Neemias. Queres mostrar o talento local, mas esses jogadores precisam de ir para as ligas mais fortes e mostrar o que podem fazer. E é assim que a liga doméstica ou o basquetebol cresce internamente, visto que estás a provar a todos que consegues criar grandes jogadores. Acho que é isso que está a faltar em Portugal. Precisa de fortalecer as escolas de basquetebol, a sua formação e criar mais jogadores como Queta. Não só para a NBA, mas também para o nosso continente, como a Euroliga, por exemplo.
Depois de todos estes anos, ainda fica impressionado com Luka Doncic a fazer a sua magia? Vai ter sucesso nos Lakers?
BN - Vai, com certeza, continuar a fazer o que faz individualmente e isso já não surpreende ninguém, dado o nível de talento e os números que alcança. A maior questão para ele vai ser se os Lakers vão conseguir fazer uma equipa ao seu redor para competir pelo título. E isso será muito desafiante com todas as regras da NBA sobre quem podes contratar, em que condições e por aí diante. Terá de ser um esforço coletivo, não só do Luka, mas também da direção de basquetebol, para juntar a melhor equipa possível para o Luka ganhar. Se colocares jogadores bons o suficiente ao seu redor, como fizeram em Dallas, ele pode levar-te à final. Já provou isso. E espero que aconteça de novo em Los Angeles.
Como ex-jogador da NBA, como vê a competição hoje em dia e quais as diferenças para o seu tempo?
BN - Acho que mudou muito, vejo-a muito diferente, para ser honesto. O jogo mudou muito. Ainda é muito competitiva, mas muito mais aberta. As regras mudaram. Tem os maiores talentos do Mundo. As regras, ao mudarem um pouco, mudaram também o próprio jogo. É um estilo diferente do do basquetebol europeu. Mas, no final do dia, eles têm os melhores talentos, os melhores atletas e o produto mais entretido. A NBA é, obviamente, muito divertida de se assistir, mas acho que o basquetebol europeu não está muito longe. É menos talentoso, mas extremamente competitivo. Até por isso, as duas ligas têm muito a oferecer.
Por João Socorro Viegas