Fernando Pimenta recebido em apoteose após dobradinha no Mundial: «Movo-me pelas emoções que crio nas pessoas»
Limiano de 37 anos sagrou-se campeão do Mundo de K1 1.000 e K1 5.000
Seguir Autor:
Fernando Pimenta viajou para Poznan com a bagagem cheio de ambição e aterrou esta tarde no Porto com duas medalhas de ouro, em K1 1.000 e K1 5.000. Como merecia, o campeoníssimo de 37 anos foi recebido em apoteose por família e milhares de fãs, mar de gente que o enche de confiança para o que aí vem, nomeadamente os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028.
Dobradinha: "Sabia que estava em condições para poder lutar pelo título e fiquei também a umas milésimas de o conseguir fazer noutras ocasiões. Este ano as coisas foram muito tranquilas. A preparação correu bem nesta última parte da época, estava tranquilo, feliz e bem em termos físicos e consegui esta dobradinha. Sem dúvida que foram duas excelentes regatas. Gostei muito dos mil metros, por ser aquela vitória arrancada a ferros. Nos 5 mil gostei porque senti mesmo que estava num patamar um bocado superior aos meus adversários e, às vezes, isso também nos faz bem, porque nos faz acreditar ainda mais no trabalho e em tudo aquilo que temos vindo a fazer."
Trabalho diário: "São sete dias por semana dedicados ao treino. São muitas horas e depois estes momentos tornam-se curtos e pequenos para aquilo que foi a preparação e todo o processo até lá chegar."
Onde vai buscar motivação? "Vou buscar sempre aos objetivos que tenho a médio e longo prazo. É a estes momentos que também vou buscar energia para os dias menos bons. Na minha idade, com 37 anos e depois de tantas épocas desportivas, é impossível conseguir estar motivado e querer ser melhor todos os dias. Mas sei que tenho de dar todos os dias o meu melhor. Vou buscar às pessoas que me passam essa energia positiva, aos meus filhos e também às pessoas que diariamente se cruzam comigo e me dão sempre uma palavra de apoio. Foi aquilo que disse depois de Paris'2024: aquilo deu-me muito mais do que uma medalha que os Jogos Olímpicos me podiam dar. E, sem dúvida, hoje, com duas medalhas de campeão do mundo e os recordes que batemos, é prova disso."
Ouro em Los Angeles'2028? "Vou ser o mais sincero possível: neste momento, quero desfrutar do processo até lá chegar. Estou em primeiro lugar do ranking de apuramento olímpico, empatado com o atleta da Austrália, e isso é um grande passo que estamos a dar. Sei que no próximo ano vou ter de apresentar um nível de forma muito idêntico a este se quiser estar nos Jogos Olímpicos. E depois, nos Jogos, para ser sincero, acho que não tenho muito mais a provar. Uma medalha olímpica, uma terceira medalha, seria a cereja no topo do bolo. Mas, sinceramente, já não me movo só por causa das medalhas. Movo-me pelas emoções que estou a conseguir criar nas pessoas, e isso acho que é das coisas mais bonitas. Quando alguém me liga ou manda uma mensagem a dizer que chorou enquanto eu estava a competir ou que vibrou, acho que são essas as coisas mais bonitas que conseguimos. E deixar esse legado para os mais novos, para os meus filhos. As medalhas são importantes, mas não são tudo na vida. Há coisas, às vezes, bem mais importantes que desfocamos quando olhamos apenas para uma coisa, que é a medalha."
Trabalho invisível: "Claro. Quando vimos, em janeiro e fevereiro, as árvores a serem cortadas pela tempestade, telhados a serem arrancados e condições bastante adversas, esses dias também contam. Tive de ir treinar de forma mais precavida para não ter qualquer tipo de problema, com chuva muito fria, muito vento e dias em que parecia praticamente impossível poder treinar no rio. Fomos para a água. Não queríamos apresentar desculpas e foi mesmo isso. E esses dias custam. Custa chegar de um estágio de 15 dias, ter uma corrida ou um treino para fazer e os meus filhos poderem estar a brincar comigo. Tenho este compromisso, primeiro com eles, porque sou pai, e depois também com Portugal, de querer representar o melhor possível. Sei que esse treino também pode vir a fazer a diferença. Essa parte pesa muito, mas também ajuda depois, quando estou fora, a ser gasolina para dar o meu melhor todos os dias."
Há trabalho específico? "Não. Já no ano passado estava na mesma forma, em 2024 também estava. Acho que agora se calhar se dá mais ênfase por ter 37 anos, mas, nos últimos anos e nas últimas épocas, é algo natural do trabalho. Nesta última fase da preparação estive em Avis, no Alentejo, e cheguei a treinar com 45 graus. Fazia treinos de uma hora e vinte, uma hora e meia, e algumas vezes corria à uma da tarde, uma e meia. Tudo isso provoca desgaste e molda também o corpo. Claro que os cuidados e o estilo de vida saudável que tenho, em termos de alimentação e descanso, também ajudam muito."
Calos nas mãos: "Os calos nas mãos são aquelas medalhas invisíveis que vão ficar. São medalhas que as pessoas não veem, mas que, naqueles dias de grande frio, fazem sentir bastante dor."
Atual geração da canoagem portuguesa: "A equipa nacional está muito bem representada. Eu, o João e a Teresa somos da mesma geração. Eu e o João obtivemos a primeira medalha internacional em 2005, na mesma tripulação. Já vão 21 anos nestas andanças. Ontem disse-lhe que tenho um grande respeito por ele, não só por aquilo que conquistou, mas por ser também um dos ícones desta modalidade e por ter durado tantos anos. Estava a dizer-lhe: 'tens noção de quantas gerações já passaram por nós e nós continuamos aqui a representar Portugal?' Temos aqui uma grande geração e é continuar a trabalhar."