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Plouay - Uma queda a abrir (João Cabreira, com poucas centenas de metros percorridos), outra a fechar (Edgar Anão, no último quilómetro) e uma avaria mecânica (Rui Carneiro foi obrigado a parar para trocar de bicicleta) marcaram, sábado, a despedida das selecções portuguesas do Mundial, numa prova de juniores onde os melhores classificados da equipa lusa foram Bruno Sá e Nélson Pereira (respectivamente, 56º e 57º classificados, a 32 segundos do vencedor, o neozelandês Jeremy Yates), os quais apenas descolaram da frente da corrida na derradeira subida antes da meta.
Um final dramático (Edgar Anão sofreu diversas escoriações nas pernas, braços e tronco enquanto Bruno Sá não evitou as lágrimas pela frustração de ter ficado no "corte" gerado pouco antes da chegada, o que o impediu de marcar presença no "sprint" final) e marcado pelo azar mas que voltou a revelar um lote de ciclistas motivado e bem preparado para a competição mais importante dos escalões jovens.
O desempenho da selecção lusa (que, domingo, não apresentará nenhum atleta na prova em linha de elites, pelas razões já explicadas e que se prendem com a má "performance" de Sydney), embora não seja o ideal para um país que receberá, já no próximo ano, o Mundial, permite concluir que já existe alguma evolução, designadamente em termos de homogeneidade e capacidade competitiva.
É um facto que Portugal não possui foras-de-série e que ainda continua a ser um país "marginal" em relação às maiores potências, mas a necessidade de preparar uma representação condigna para actuar em "casa" pode acelerar o processo de crescimento competitivo.
Para Américo Silva, que encerra, neste Mundial, um ciclo de quatro anos como seleccionador nacional (será o próximo técnico do LA Pecol), o segredo para "encurtar distâncias é o planeamento das competições ao nível do trabalho efectuado ao longo da época. Para estar em boas condições numa prova com as características de um Mundial, é preciso realizar uma preparação específica, ao nível físico, técnico e psicológico. Isto tem acontecido nas selecções jovens, mas o mesmo ainda não ocorre nas elites, onde nos limitamos a tentar recuperar os atletas (depois de épocas desgastantes com outras metas prioritárias) não é suficiente".
De acordo com o técnico que assumiu o cargo de seleccionador apenas dois meses depois de abandonar a carreira como ciclista, "a melhor actuação em Plouay foi a dos sub-23, onde colocámos três atletas no grupo da frente. Isto prova que eles já possuem grande qualidade e, como na próxima época ainda pertencerão ao mesmo escalão, podem acumular mais trabalho, experiência e maturidade o que permitirá melhorar o nível tendo em vista o Mundial de 2001, em Lisboa. O que é importante é que se continue a trabalhar correctamente. É fundamental apoiar psicologicamente os ciclistas e criar condições para que continuem a ter vontade de competir ao mais alto nível e para acreditarem que podem estar entre os melhores".
ESTRELAS DAS CLÁSSICAS
Se Portugal conseguiu "uma actuação digna e demonstrativa de que, apesar de ainda termos um nível modesto, já estamos a encurtar distâncias em relação às maiores potências", como refere o director técnico nacional, o espanhol José Luís Algarra, o que é verdade é que a referida evolução parece cingir-se, por enquanto, aos escalões de formação, como se pode confirmar pelo facto de domingo, na prova em linha para elites, que encerra o programa dos Mundiais de Plouay, não alinhar qualquer corredor português.
A corrida rainha, que não contará com a presença das grandes estrelas da actualidade, Lance Armstrong e Jan Ullrich, parece, à partida, talhada para constituir uma prova extremamente aberta. É que, se os franceses, a "jogar em casa", já começam, em simulações saudosistas, a reconstituir o Mundial de 97 (com toda a gente preocupada com Jalabert, Brochard - ambos repetem a presença - saltou para o título) e contam, ainda, com a qualidade de Richard Virenque; também os espanhóis (mesmo com várias ausências em relação à equipa inicialmente escalada) apresentam uma equipa bastante forte para proteger o campeão em título, Oscar Freire.
O italiano Michele Bartoli também parece apostado em chegar, finalmente, ao ouro, ao passo que os belgas e os holandeses voltam a apresentar alguns dos melhores roladores e especialistas em clássicas do Mundo, com Andrei Tchmil (que ocupa o segundo lugar da geral da Taça do Mundo) à cabeça.