Foi um dos grandes nomes do pelotão mundial até colocar a bicicleta de lado o ano passado, devido a doença. Um cancro inesperado nos testículos, entretanto debelado, acabou por precipitar o adeus à competição. Encontrámo-lo ontem de manhã em Lagoa, partida da segunda etapa da Volta ao Algarve, onde faz a estreia como diretor-desportivo da Tinkoff. Bem-disposto e muito afável, o italiano, 38 anos, revelou como se supera uma doença que, num primeiro instante, traz à cabeça a palavra morte.
"Motivação e muito otimismo. É o mais importante para te ajudar. É uma doença que toca no coração de quem a tem, de quem lhe está próximo. Felizmente a Medicina hoje está muito mais avançada", confessou aos jornalistas.
Depois de muitos anos em cima da bicicleta, Ivan Basso faz parte agora da estrutura técnica da Tinkoff, a última equipa onde correu. "Para mim é uma coisa nova, é mais um momento da minha carreira, da minha vida. Vou tentar desfrutar ao máximo disto tudo", disse o italiano, admitindo ser uma mais-valia para os ciclistas da equipa e um grande apoio, sobretudo para o amigo Alberto Contador. "Tenho uma relação muito estreita com ele. Tentarei ajudá-lo ao máximo, a ele e a todos os outros para conseguirmos o objetivo". Objetivo esse que passa pela conquista da Volta a França, e que poderá marcar o adeus do espanhol ao pelotão.
E considera-se Ivan Basso um exemplo a seguir no modo como lidou com a doença que, por exemplo, mata em Portugal mais de 25 mil pessoas por ano? "Tento colocar toda a minha paixão no trabalho. Tento não cortar radicalmente com o que fiz no passado como ciclista e agora apreender ao máximo nas novas funções da minha carreira."
É um dos nossos
Sérgio Paulinho, um dos ciclistas da Tinkoff, fala de Ivan Basso com grande carinho e respeito, mas principalmente como se o italiano ainda corresse. "É certo que deixou a bicicleta, mas para nós continua a ser mais um. Continua a treinar connosco." Para o ciclista português, apenas três anos mais velho, Ivan Basso é pois um exemplo para toda a equipa, não só pelo que fez em cima da bicicleta, como fora dela. "É sem dúvida uma mais-valia para todos nós, só temos a aprender com ele, com toda a sua experiência, com todo o seu saber", elogiou.
Dois Giros e pódios no Tour
O ano passado, o italiano de Varese completou 17 épocas de carreira profissional, tendo sido um dos mais mediáticos ciclistas do pelotão. O auge dos seus resultados aconteceu sobretudo entre 2004 e 2010, quando venceu dois Giros (2006 e 2010) e acabou o Tour por duas vezes no pódio: 2004 (3.º) e 2005 (2.º), ambos ganhos (posteriormente retirados por doping) pelo norte-americano Lance Armstrong. O melhor na Vuelta foi o 4.º lugar em 2009.
Basso correu na Fassa Bortolo, CSC, Discovery Channel, Liquigás e por último na Tinkoff, onde seria o braço-direito de Alberto Contador. Só que em pleno Tour de 2015 veio a notícia que surpreendeu todos: abandonava a prova devido a um cancro. Foi operado e no final de setembro pôde então revelar ao Mundo que estava curado.
Por Ana Paula Marques