Cândido Barbosa. «Será difícil um dia poder vencer a Volta»
A VITÓRIA conquistada na quarta-feira na Volta ao Algarve voltou a colocar Cândido Barbosa no "topo" do ciclismo nacional, depois de quatro anos afastado dos grandes êxitos, período no qual esteve ao serviço da equipa espanhola Banesto (agora com a designação de ibanesto.com).
O ciclista de Rebordosa, com 25 anos, regressa, assim, ao patamar que deixou em 1997, ano em que conquistou, precisamente, a primeira vitória na corrida algarvia, com a proeza de ter ganho todas as etapas. Na edição deste ano impôs-se em duas, e, curiosamente, ao "sprint", especialidade que o deu a conhecer e que lhe permitiu conquistar a grande maioria dos triunfos do seu "palmarès", mas que, nos últimos anos, já estava a desaparecer, devido ao aperfeiçoamento de outras carecterísticas (montanha e contra-relógio), que acabaram por fazer dele um ciclista "todo-o-terreno".
"Fiquei até um pouco surpreso de ter ganho as duas etapas ao "sprint". Se foi um regresso às origens? Em certa medida foi, pois na pré-temporada trabalhei mais no "sprint", mas continuo a desenrascar-me bem na montanha, como se viu na Volta ao Algarve", explicou a Record Cândido Barbosa, que reconhece ter mudado o seu estilo durante os anos em que esteve no país vizinho.
"Quando representei a Maia, já me "safava" razoavelmente bem na montanha, mas foi em Espanha que tentei aperfeiçoar-me", acrescentou.
A preparação que Cândido Barbosa fez durante o Inverno foi canalizada, precisamente, para surgir em boa forma no início da temporada, facto que, aliás, já está a dar frutos. "Foi o que os responsáveis da equipa me pediram. O objectivo é ganhar algumas das primeiras provas. Trabalhei para isso."
Tour, Giro e Volta
Apesar de ter, agora, características de um ciclista de todo-o-terreno, a verdade é que Cândido Barbosa continua e continuará a ser conhecido como um velocista, e, agora, com 25 anos, e já com uma vasta experiência no ciclismo profissional e internacional, dificilmente melhorará mais na montanha e no contra-relógio, especialidades fundamentais para se ganhar uma grande volta por etapas. Por isso, é com grande naturalidade que reconhece que chegar ao pódio na Volta a Portugal é praticamente impossível.
"O melhor resultado que conquistei até agora foi o quinto lugar, em 1999. Dificilmente conseguirei vencer um dia a Volta a Portugal. As minhas carecterísticas e estrutura fisíca não me permitem, por exemplo, subir a Serra da Estrela com os melhores trepadores, o que é fundamental para se ganhar a Volta", confessou o ciclista do LA Pecol/Bombarral.
Durante os quatro anos em que esteve ao serviço da Banesto, Cândido Barbosa chegou a participar numa das três grandes voltas, o Giro, em 2000, terminando na 89ª posição. "A experiência foi bastante boa", sublinhou o corredor de Rebordosa, que lamenta, porém, não ter participado na mais carismática e emblemática corrida do Mundo, o Tour.
"O ano passado preparei-me para isso, e fiquei bastante decepcionado quando soube que não ia. Havia dez corredores para nove lugares e tocou-me a mim ficar de fora. Provei estar bem para ir ao Tour, pois na Volta ao Alentejo, que foi na mesma altura, fiquei em segundo", desabafou o primeiro vencedor da temporada de 2002 em Portugal.
A paz regressou
Ana Rita e Diogo, com ano e meio, são os filhos de Cândido Barbosa. Dois gémeos que fazem as alegrias dos pais - "estão cada vez mais traquinas", frisou o corredor -, mas que deram muitas preocupações antes e logo depois de nascerem.
"A minha esposa teve uma gravidez de risco e os bebés nasceram com apenas sete meses, tendo estado, depois, 40 dias na incubadora. Foi uma fase muito complicada da minha vida, a que se juntou também o facto de ter mudado de casa, de um apartamento, para uma vivenda. Foram demasiadas preocupações", explicou Cândido.
Estas são algumas das razões evocadas pelo ciclista para o facto de a sua passagem pelo ciclismo espanhol não ter sido muito fértil em êxitos.
"Na Banesto, as coisas não correram como esperava em termos de resultados. Podia, efectivamente, ter conquistado mais vitórias, mas a minha vida privada, nos últimos anos, acabou por influenciar o meu rendimento", explicou Cândido Barbosa, para quem, todavia, a passagem por uma equipa estrangeira foi enriquecedora.
"Fiz algumas das mais importantes corridas do calendário internacional, ganhei muita experiência, para além das amizades que fiz na equipa".
E foi em Outubro do ano passado que a vida voltou à normalidade para o corredor do LA Pecol. "Mudei de casa, para uma vivenda que construí, e na qual tenho um ginásio, onde posso trabalhar. Os meus filhos estão bem e regressei ao ciclismo português. Espero, agora, que tudo corra melhor. Posso dizer que a "minha paz voltou"."
ANA PAULA MARQUES