Delmino: «Tenho vivido momentos de vazio e alguma tristeza»

Delmino Pereira decidiu dizer adeus a uma carreira de 17 anos como ciclista, 14 dos quais como profissional. E, em jeito de balanço, admite que poderia ter ido mais longe, lamentando, por outro lado, ter competido sempre pela mesma equipa, o Boavista, e não ter, por isso, “experimentado outros ambientes”. Agora, dedica-se de corpo e alma à sua fábrica de quadros e molduras e às novas funções que ocupa no clube axadrezado

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DELMINO Pereira colocou um ponto final, aos 34 anos, na sua vida de ciclista, uma carreira sempre ligada ao Boavista, a única equipa que representou como profissional. Foram 14 anos de casamento, ligação, essa, que continua, pois o cilista de Campeã aceitou um novo desafio no clube axadrezado, na área da Imagem e Promoção, mas nega a ideia de que os dirigentes do clube tenham tido alguma obrigação em oferecer-lhe trabalho.

"Tive um final de carreira com uma certa dignidade. Por outro lado, os dirigentes do Boavista respeitaram o que fui no clube e os anos que defendi a equipa. Por tudo isso, penso que não foi por obrigação que continuo ligado ao clube", confessou Delmino Pereira, que faz questão de referir que não teve "padrinhos" em toda a sua carreira. "Orientei-me sempre sozinho. O que sou, ou antes, o que fui como ciclista, devo-o apenas a mim e ao meu suor."

Abandono na hora certa

Delmino fez a última corrida como ciclista em Setembro, no Circuito de Gondomar, onde foi quarto classificado. Foi a hora de dizer adeus à estrada e aos colegas.

"A época passada foi a altura e o momento exacto para abandonar. O meu tempo acabou, tudo o que tinha para fazer como ciclista já fiz", frisou o corredor, que concorda plenamente com o director desporivo do Carvalhelhos/Boavista, José Santos, quando este afirmou que Delmino Pereira não tinha motivação para correr mais uma época.

"É verdade. Em termos fisícos, tinha condições para continuar a ser um bom ciclista, mas falta-me a motivação. Porque é que a deixei de ter? Bem, em parte deve-se ao facto de não existirem novidades na equipa, de tudo ser sempre da mesma maneira... e também aos negócios. Tenho uma fábrica de molduras e quadros, criada por mim, na minha terra, Campeã."

O negócio de quadros e molduras, ainda de acordo com Delmino Pereira, está a revelar-se extremamente importante para o corredor em termos financeiros. "É o meu maior potencial para sustentar a família", admitiu o ciclista, para quem a realidade não é um mar de rosas. "Quando um ciclista chega ao fim, o contacto com a vida real pode ser chocante", disse, negando, porém, que com estas palavras esteja a confessar passar dificuldades financeiras.

Momentos difíceis

Já lá vão mais de três meses que Delmino deixou a bicicleta. Se tivesse continuado a correr estaria nesta altura a treinar e a preparar a temporada de 2002, que começa a 3 de Fevereiro, no Algarve.

"Está a ser mais difícil deixar de correr do que pensava. Tenho vivido momentos de vazio e alguma tristeza, apesar de estar a ter a solidariedade dos meus colegas", admitiu o axadrezado, para quem os 17 anos na estrada deixam marcas profundas. "A minha cumplicidade com o ciclismo foi total. Mas sempre ouvi dizer de outros ciclistas que abandonaram, que o primeiro ano é o mais difícil", frisou Delmino, que confessa ainda nutrir uma "profunda admiração pela vida de um corredor. Ser ciclista de corpo e alma é prescindir de muita coisa. A palavra sacrífio é a que melhor o define. Em suma, um ciclista é um desgraçado".

Delmino Pereira faz questão, de resto, de dizer que se despediu de uma carreira como ciclista e não do ciclismo, modalidade que estará sempre no seu coração.

"Terminei uma carreira como corredor, mas a qualquer momento poderei começar uma outra", confessou, admitindo, desse modo, poder um dia estar do outro lado como director desportivo. "Uma coisa é certa, estarei sempre disponível para o ciclismo, pois sou um homem do ciclismo, um homem de acção e de iniciativas", disse Delmino Pereira, que se não tivesse enveredado pelo desporto teria sido, sem dúvida, o que hoje é, um homem de negócios. "Tenho características de empresário."

Santiago, o melhor colega

Muitos foram os colegas, adversários e dirigentes que privaram de perto com o ciclista axadrezado. Delmino Pereira não recusa a dizer na primeira entrevista que dá após a retirada da competição quais foram algumas das pessoas que mais o tocaram ao longo dos 17 anos de carreira.

"O senhor Tavares Rijo foi o pai da minha carreira, sempre olhou por todos os corredores do Boavista; o Joaquim Gomes considero-o o melhor ciclista da minha geração: o José Santiago foi o melhor colega", sublinhou.

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