Fernando Mendes (1946-2001) marca época de rivalidades

Fernando Mendes, pelo Benfica, e Joaquim Agostinho, pelo Sporting, conseguiram transpor para fora dos relvados, a rivalidade existentes entre os clubes da Segunda Circular, e fazer do ciclismo uma modalidade que despertou e ainda desperta grandes paixões. A morte de Fernando Mendes, aos 55 anos, volta a enlutar a família nacional velocipédica, que hoje se despede do vencedor da Volta a Portugal de 1974

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FERNANDO Mendes, pelo Benfica, e Joaquim Agostinho, pelo Sporting, conseguiram transpor para fora dos relvados, mais concretamente para a estrada, a rivalidade entre os dois clubes da Segunda Circular, e fazer do ciclismo uma modalidade também de grandes paixões, levando o “povo” sair à rua para aplaudir os craques dos pedais. Benfica e Sporting já não têm ciclismo; Joaquim Agostinho desapareceu há 17 anos; Fernando Mendes, esse, vai hoje a enterrar, sensivelmente um mês e meio depois de completar 55 anos.

Mendes e Agostinho, a que se juntam outros nomes, marcaram uma geração de ciclistas que fez história no ciclismo nacional, mas que acabaram por falecer de forma trágica e ainda com muito para darem ao ciclismo. A mística que envolvia a modalidade em Portugal face à presença do Benfica, Sporting e também FC Porto na estrada, há muito que desapareceu, e hoje são algumas as vozes que apelam ao seu regresso.

A “sombra” de Agostinho

Segundo depoimentos recolhidos junto de antigos colegas e adversários, a rivalidade entre Fernando Mendes e Joaquim Agostinho só existia na estrada, pois fora dela, a amizade prevaleceu sempre.

“De facto, existia uma certa rivalidade, mas entre o Benfica e Sporting, e não entre o Fernando e o Agostinho. Eles sempre foram muito amigos”, frisou Joaquim Andrade, antigo ciclista. Aliás, um dos filhos de Fernando Mendes, Pedro Agostinho Mendes, é afilhado de Joaquim Agostinho.

O vencedor da Volta de 1974, no entanto, nunca escondeu, em diversas entrevistas que deu, que Joaquim Agostinho foi o “percalço” na sua carreira, ou seja, o antigo ciclista do Benfica não teve um currículo mais rico, porque foi sempre a ”sombra” do ”rival” de Alvalade. A sua carreira, assim como a de Agostinho, ficou também marcada por alguns casos de ”doping”, nomeadamente aquele que o levou à desqualificação na Volta de 1978, acabando a vitória por sorrir a Belmiro Silva, na altura seu colega.

Fernando Mendes nasceu em 1946 anos, em Rio Meão (Sta Maria de Lamas), no dia 15 de Setembro. Deixa viúva, Maria Fernanda, e três filhos, o já citado afilhado de Joaquim Agostinho, e mais outros dois rapazes: Fernando Joaquim Sousa Reis (26 anos) , e Miguel Ângelo Mendes, de 15 anos, que está a seguir as pisadas do pai.

A alma benfiquista

Quem de perto conviveu e competiu com Fernando Mendes diz que se tratava de um corredor completo, mas com apetências especiais para o “sprint”. E foi ao serviço do Benfica que se notabilizou, embora tenha competido em algumas equipas estrangeiras, ao lado de Joaquim Agostinho, chegando, inclusive, a participar na maior corrida do Mundo, o Tour, nos anos de 1972 (desistiu), 1973 (18º), 1975 (desistiu) e 1977 (27º). Passou também uma temporada pelo FC Porto, depois de ter deixado o clube da Luz.

De águia ao peito, Fernando Mendes competiu mais de uma década, conquistando vários triunfos, o maior deles na Volta a Portugal de 1974. Do seu currículo fazem parte outros importantes triunfos, como a Clássica Porto-Lisboa e a Volta à África do Sul, em 1975.

Morreu a ensinar

Depois de ter abandonado a competição, em 1980 – na equipa dos Calçados Zala, de Guimarães –, Fernando Mendes manteve-se ligado ao ciclismo, tendo sido treinador de várias equipas. E ao serviço de uma delas (Ruquita/Feirense) venceu, igualmente, uma Volta, por intermédio de Fernando Carvalho, pessoa que mais de perto conviveu com o falecido nos últimos anos. “Era um pai para mim e teve muita influência na minha carreira. O Fernando Mendes era um treinador calmo e eu um ciclista muito nervoso. O melhor técnico que tive”, disse, emocionado.

Fernando Mendes morreu a ensinar a arte do ciclismo, pois era um dos monitores da escola de Fernando Carvalho. ”Os miúdos ouviam-no com muita atenção, pois sabiam o seu passado”, sublinhou Carvalho.

Reacções de antigos ciclistas

MARCO CHAGAS



MARCO CHAGAS

“TIVE a oportunidade de correr com o Fernando Mendes, apesar de nunca termos sido colegas de equipa. E para ser curto e duro, o Fernando Mendes, à parte do Joaquim Agostinho, foi o melhor ciclista português da anterior geração. O seu único azar foi ter existido um Agostinho. Tratava-se de um corredor muito inteligente”.

VENCESLAU FERNANDES

“TRATA-SE de uma grande perda para o ciclismo português. Era um amigo muito especial, pois fomos colegas durante anos no Benfica. Para mim, o Fernando Mendes faz parte, sem dúvida, dos dez melhores ciclistas nacionais de todos os tempos. Era um colega que ajudava os colegas”.

FIRMINO BERNARDINO

“A NOTÍCIA deixou-me profundamente chocado e quero desde já transmitir os meus sentimentos à família. O Fernando era um excelente rapaz, e foi sempre para mim, enquanto corri no Sporting e ele no Benfica, um adversário respeitável. Como ciclista, sempre teve muita garra e era difícil batê-lo”.

JOAQUIM ANDRADE

“NO INÍCIO das nossas carreiras profissionais fomos sempre colegas em equipas e também na selecção nacional. Depois, cada um seguiu para equipas diferentes. A sua morte é uma grande perda e tristeza para o ciclismo. O Fernando Mendes era um ciclista completo, com uma fibra que hoje já não se vê”

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