Joaquim Gomes: «Vou sentir muito a falta de tudo isto»

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Chega hoje ao fim, no Festival de Pista de Tavira, a carreira de um dos mais emblemáticos corredores da história do ciclismo português. Joaquim Gomes, de 36 anos (completa 37 a 21 de Novembro), disputa no Algarve a sua última prova de elites profissionais, pondo termo a um percurso iniciado em 1986, no Sporting, e de onde se destacam dois triunfos (1989, 1993) na Volta a Portugal.

Na hora da despedida, o trepador da Carvalhelhos/Boavista não esconde a tristeza que lhe vai na alma. "Tento disfarçar a situação, mas é difícil. O ciclismo é uma modalidade que se vive de forma intensa e até agora passava mais horas com o meu colega de quarto do que com a minha mulher... Por isso vou sentir muita falta de tudo isto: das bicicletas, dos amigos, dos treinos, das corridas", reconhece o lisboeta, confidenciando, porém, que o momento mais dramático do adeus aconteceu "no último dia da Volta, depois do contra-relógio. Aí sim, custou-me imenso!"

Com um total de 56 vitórias (curiosamente nunca se sagrou campeão nacional), Gomes garante que sai consciente do "sentido de dever cumprido", agradecendo o "reconhecimento demonstrado pelo público e todas as organizações". De resto, e apesar de não se ver como um ídolo popular, aborda o sucesso sem falsas modéstias. "Em termos de montanha era um superdotado. Contudo nunca me senti um ídolo: sei que cativo as pessoas mas tenho a perfeita noção de que também lhes dei muitas desilusões . E, por vezes, a diferença entre ser um ídolo e não ser nada é uma linha tão ténue que nem dá para perceber. Aliás, só percebi o quão importante era ganhar uma Volta quando vi o meu pai a chorar e a olhar para mim como se fosse um rei..."

Das alegrias para as frustrações. E a maior para o veterano corredor que cumpriu a formação no Carnide (1981-85) será o facto de nunca ter representado uma equipa fora de Portugal. "Tive propostas para ir para o estrangeiro desde muito novo. Da Seur, da Reynolds, da Malvor... Primeiro não fui por causa do serviço militar, onde estive 17 meses, e depois porque, admito, tinha um bocado de receio do que ia encontrar lá fora", declara Joaquim Gomes, acrescentando: "Em determinados momentos acusaram-me de falta de ambição e neste ponto sou obrigado a dar a mão à palmatória: fui demasiado comodista. Devia ter arriscado, naquela faixa entre os 22 e os 26 anos."

De qualquer forma, a opção baseou-se em bons motivos. "Quando surgiam convites mais interessantes do estrangeiro, a minha equipa oferecia-se sempre para me pagar o mesmo ordenado... Portanto, mal ou bem, preferi ser acarinhado no meu país, até porque já era casado e tinha um filho. Ainda assim, ganhei mais dinheiro do que um miúdo com 14 ou 15 anos, filho de pessoas honestas e humildes, pensou alguma vez vir a ganhar..."

Futuro em dúvida

Ao deixar de correr, Joaquim Gomes prepara o futuro com um projecto ambicioso: o Lisboa Clube de Ciclismo. Porém, neste momento ainda existem muitas dúvidas por clarificar, desconhecendo-se nomeadamente se a equipa profissional poderá avançar já na próxima época. "Vivo na expectativa de saber se o projecto vai resultar, porque infelizmente a economia atravessa uma fase pouco propícia à confiança dos potenciais patrocinadores de uma equipa", sublinha Gomes, acentuando a apreensão. "Precisamos urgentemente de algo palpável, caso contrário as pessoas começam a chamar-nos aldrabões. Mas acredito que até ao final do mês poderá surgir alguma coisa em concreto. Se isso não acontecer teremos de repensar por completo o projecto do LCC."

Uma eventualidade que acarretaria a redefinição do papel a desempenhar pela Câmara Municipal de Lisboa. "Ou surgem os apoios ou então mudámos a política e a Câmara passa para segundo plano, envolvendo-se num nível diferente ao que se comprometeu connosco por intermédio de um protocolo."

Um livro para recordar

Uma das ideias que Joaquim Gomes pretende concretizar, ainda sem prazo definido, passa pela publicação de um livro de memórias dedicado à serra da Estrela, o local onde viveu "os melhores e os piores" momentos da carreira. "Existe entre a serra da Estrela e eu, corredor de bicicletas, um relacionamento tão íntimo como entre mãe e filho... Uma mãe que tão depressa faz carinhos como dá uns açoites para 'abrir os olhos'", afirma o corredor de 36 anos.

E uma das histórias obrigatórias nesse "livro de aventuras reais" é a da primeira subida à Torre, em 1985, representando uma selecção de amadores. "Fui segundo, atrás do Venceslau Fernandes. Tinha apenas 19 anos e era um miúdo sem qualquer experiência... Mas acredito que foi esse dia que me abriu as portas do ciclismo profissional."

Tentado pelo 'doping'

Joaquim Gomes garante que nunca utilizou qualquer substância dopante ao longo da carreira. Mas alguma vez se sentiu tentado? "Já. Claro que já me senti tentado muitas vezes. Principalmente quando estava desequilibrado psicologicamente, porque trabalhava, não conseguia obter resultados e via outros corredores que andavam na 'balda' fisicamente melhor."

O tema "doping", enquadrado na realidade actual do ciclismo, merece, de resto, uma curta mas incisiva reflexão por parte do lisboeta. "O que acontece, neste momento, é que existe um conjunto de substâncias, ninguém percebe muito bem se são estimulantes ou 'doping', que aumentam o rendimento e não acusam nos controlos. É uma barreira que é preciso delinear mais concretamente", defende Joaquim Gomes, completando: "Não se vêm muitos ciclistas a dar positivo e por isso pensa-se que é porque não tomam 'doping'.... Mas é completamente falso!." E, por outro lado, é legítimo recorrer a essas substâncias? "Não. Mas se encararmos o ciclista como um trabalhador, com uma família para sustentar..."

Percurso

"VERMELHO". Com o segundo lugar na etapa da Serra, em 1985, Gomes ingressa no Sporting. "Uma sensação estranha ao princípio. Era benfiquista e estava numa equipa que ajudei a 'destruir' desde miúdo..."

VITORIOSO. Extinta a secção do Sporting, surge o Louletano (1988) e a primeira grande época de resultados. "Foi das equipas que mais me marcou pelas pessoas que conheci."

GLÓRIA E DOR. Na Sicasal, ganhou a primeira Volta (1989), ultrapassando a revelação Cássio Freitas. No ano seguinte, perdeu no último dia para Fernando Carvalho. "Um dos momentos mais difíceis da minha carreira. Senti-me imensamente prejudicado."

"NEGRO". Depois da saída conflituosa da Sicasal, a passagem na Calbrita (91). "Para esquecer. Metade da equipa desistiu da Volta com uma intoxicação alimentar muito mal explicada..."

RAIVA. Na Recer/Boavista (92-94), entrou com "vontade de repor a verdade dos factos e uma enorme vontade de ganhar." Conseguiu a segunda vitória na Volta (93) e um 17º lugar na Volta à Espanha (94).

VIDA NOVA. Frustrada outra experiência na Sicasal (acabou em 95), presidiu à criação da LA Alumínios (96-99). Abandonou a equipa por discordar da "política de contratações."

ADEUS. Falhadas duas "tentativas" (Benfica e Nettispor), Gomes regressou ao Boavista. E na Volta de 2001, com 35 anos, terminou em quinto. Agora, o adeus...

Quem é quem

Nome: Joaquim Augusto Gomes de Oliveira

Local de Nascimento: Lisboa

Data de Nascimento: 21-11-1965

Idade: 36 anos

Profissional desde: 1986

Vitórias: 56

Participações na Volta a Portugal: 18

PALMARÉS

1986: 3º GP do Minho, 5º Campeonato Nacional de Estrada.

1987: 1º GP Abimota (1 etapa), 1 etapa GP JN, 10º Campeonato Nacional de Estrada.

1988: 1º Troféu RDP-Algarve, 1º Volta ao Alentejo (1 etapa), 1º Volta ao Algarve, 1 etapa GP Jornal de Notícias, 1 etapa GP Joaquim Agostinho, 1º GP do Minho (1 etapa), 3º Volta a Portugal ; 4º Campeonato Nacional de Estrada.

1989: 1º Volta a Portugal (3 etapas), 1º Circuito de Setúbal, 1º Critério do Alto da Arrábida, 1º Circuito Setúbal-Portinho, 6º Campeonato Nacional de Estrada.

1990: 2º Volta a Portugal (2 etapas), 1º GP Joaquim Agostinho (1 etapa).

1991: 1 etapa Volta ao Algarve, 1º GP O Jogo, 1 etapa GP Joaquim Agostinho, 3º Campeonato Nacional de Estrada.

1992: 1º Volta ao Algarve (1 etapa), 1 etapa GP O Jogo, 4º Volta a Portugal (1 etapa), 2º Tour du Vaucluse (1 etapa).

1993: 1º Volta a Portugal (2 etapas), 1 etapa Volta Santa Maria da Feira, 1º Volta a Portugal do Futuro, 1º GP Marinha Grande, 10º Dauphiné Libérè, 20º Quatro Dias de Dunquerque.

1994: 1º GP Joaquim Agostinho (1 etapa), 3º Volta a Portugal (1 etapa), 3º GP Correio da Manhã (1 etapa), 17º Volta a Espanha.

1995: 1º GP Jornal Notícias (1 etapa), 1º GP do Minho (1 etapa), 1 etapa GP A Capital, 1 etapa GP Lacticoop, 3º Volta a Portugal, 3º Volta ao Alentejo, 83º Volta à Itália.

1996: 1 etapa Volta a Trás-os-Montes, 4º Volta a Portugal, 10º GP Joaquim Agostinho, 6º Campeonato Nacional de Estrada.

1997: 1º Circuito da Malveira, 1 etapa GP Abimota, 1 etapa GP Sport Notícias, 1º Circuito São João da Madeira, 2º GP Joaquim Agostinho (1 etapa), 3º Volta a Portugal, 10º GP Jornal de Notícias.

1998: 1º Circuito Nafarros, 5º Volta a Portugal, 10º Volta ao Alentejo.

1999: 1º Prémio Celorico da Beira, 1º Circuito S. Lourenço, 1º Campeonato Nacional de Estrada por Equipas (c/r); 4º Volta ao Algarve, 8º GP Joaquim Agostinho, 9º Volta às Astúrias, 9º GP Mitsubishi.

2000: 7º Volta a Portugal, 8º GP Portugal Telecom.

2001: 5º Volta a Portugal, 10º GP Joaquim Agostinho, 31º do Campeonato do Mundo de Contra-Relógio.

2002: 19º GP Joaquim Agostinho, 11º Volta a Portugal.

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