José Azevedo: «Subir ao pódio foi magnífico!»

«É lógico que gostava de ganhar uma Volta à França. Mas, para já, só penso em continuar a melhorar como ciclista e ajudar a equipa da ONCE a vencer ou a fazer o melhor possível»

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– Está inteiramente satisfeito com o sexto lugar?

– É uma alegria imensa. Algo de extraordinário: consegui ajudar o Beloki a ser segundo classificado e eu próprio fui sexto, só posso estar satisfeito. No fundo, é aquilo que eu sempre ambicionei. Trabalhei para o Tour, especificamente, desde o início do ano, mas o que acaba de suceder é o resultado do esforço de muitos anos. Na época passada fui quinto na Volta à Itália, mas esta sexta posição no Tour vale muito mais.

– Mas não acha que até poderia ter ido mais além? Com outro estatuto na equipa...

– A ONCE chegou aqui com as coisas perfeitamente definidas: há um chefe-de-fila, o Joseba Beloki, o ciclista que mais garantias dava ao Manolo Saiz (n.r. director desportivo) e toda a equipa queria ajudá-lo a ganhar o Tour. Foi segundo, vencemos por equipas, metemos três corredores nos dez primeiros. Sinceramente, estou muito contente com o que consegui e com o papel que desempenhei no conjunto.

– E face ao que conseguiu, acha que o seu estatuto pode mudar. Não pensa, por exemplo, regressar no próximo ano como um dos líderes?

– Não penso nisso, nem é algo que me preocupe. Cheguei aqui no máximo da minha forma e consegui uma bela recompensa. Os meus objectivos não vão mudar: quero continuar a evoluir e, para isso, sei que tenho de trabalhar bem. Acho que, para o ano, Beloki continuará a ser o chefe-de-fila e eu só quero voltar a ajudá-lo... cada vez melhor.

– Quais foram os melhores momentos da corrida para si?

– Houve muitos, mas o contra-relógio por equipas foi especial. Ganhámos e subi ao pódio... foi magnífico...

– Mas ainda vai voltar a subir, hoje, em Paris...

– Sim, mas a primeira vez, é sempre a primeira vez (risos)... Aquilo foi a realização de um sonho. Estava habituado a ver na televisão e, agora, era eu que estava lá, no pódio da melhor corrida do Mundo, uma competição com um nível de grandeza superior ao Mundial ou aos Jogos Olímpicos. Depois, vieram as etapas de montanha e não escondo que me senti orgulhoso por subir os Pirenéus e os Alpes na frente, com gente como Beloki e Armstrong. Finalmente, a sensação de hoje (ontem), ao garantir o sexto lugar.

– E os momentos maus?

– Felizmente, as boas recordações superam as más. Essencialmente, o sofrimento. Nesta corrida sofre-se muito. E houve o dia da pedra (n.r. logo nos primeiros quilómetros da quinta tirada, uma pedra projectada pela roda de uma bicicleta atingiu Azevedo, partindo-lhe um dente). Foram quatro horas em cima da bicicleta com dores horríveis.

– Há poucos dias, afirmou que, se não tivesse saído de Portugal, nada disto teria acontecido. É só porque as equipas nacionais ainda não conseguem colocação no Tour ou trata-se de assimetrias que ainda subsistem em termos de métodos e intensidade do trabalho?

– Em primeiro lugar tenho de agradecer ao Manolo Saiz, por me ter convidado, e ao Pablo Anton, o "manager" da ONCE. Sem a aposta deles, nunca teria evoluído desta forma. Devo ao Manolo, à sua orientação e apoio, aquilo que tenho conseguido. É verdade que só saindo de Portugal poderia "dar o salto". É que as equipas nacionais trabalham de acordo com as provas onde participam e o calendário que têm. Na ONCE, tudo é feito tendo em vista as melhores corridas. Por isso, as diferenças são bastante marcadas. No calendário português só existe uma grande etapa de montanha por ano, na Volta à Portugal, com a Serra da Estrela. Numa prova como o Tour, são vários dias a subir montanhas iguais e mais duras do que a "Estrela".

– Quer dizer então que, nestes dois anos, trabalhou mais?

– Uff... com uma diferença enorme. Muito mais.

– Também já disse que não se sente como um herói. Mas a verdade é que as repercussões do seu desempenho são enormes, tanto em Portugal como em França, e nenhum português, depois de Agostinho, tinha conseguido algo semelhante em termos de geral final. A situação não traz novas responsabilidades?

– A única responsabilidade – e, simultaneamente, objectivo – é melhorar como ciclista e continuar a ser útil à ONCE/Eroski na procura de vitórias. Quero ser, simplesmente, o José Azevedo e recuso qualquer comparação com Joaquim Agostinho, que foi único e o melhor ciclista português de sempre. Eu tive a oportunidade de ingressar numa equipa de topo, que me permitiu atingir este patamar. Aliás, até tenho a certeza que, se outros corredores portugueses tivessem oportunidades semelhantes, também conseguiriam bons resultados ao mais alto nível.

– Na Volta à Espanha, que começa dentro de pouco menos de um mês, pode esperar-se um José Azevedo ao mesmo nível?

– Agora vou descansar uma semana e depois recomeço a trabalhar tendo em vista a Vuelta. Vamos ver, mas as expectativas são sempre as mesmas.

«Armstrong é... imbatível»

Azevedo e a ONCE abordaram o Tour convencidos de que conseguiriam colocar um ponto final no reinado de Lance Armstrong. É normal que assim seja numa equipa de "top". Trabalharam mais do que qualquer outra formação para isso, mas o norte-americano revelou-se, mais uma vez, intransponível.

O português teve de dar a mão à palmatória em relação à entrevista publicada pelo Record antes do início do Tour. Afinal, Lance "é imbatível. Temos de reconhecer que, neste momento, ele é o nº 1. Mostrou que é mais forte do que nós e mereceu inteiramente ganhar o Tour. Não sei se nos próximos anos vai estar ainda mais forte ou se manterá o nível. O que posso dizer é que nós, na ONCE, vamos continuar a trabalhar para melhorar e, para o ano, cá estaremos outra vez para tentar derrotá-lo".

Do Tour para a Taça do Mundo

Manolo Saiz já afirmara que a grande preocupação de Azevedo em Agosto deveria ser descansar, para recuperar do esforço do Tour e estar de novo em boa forma a partir de 7 de Setembro, quando arranca a Volta à Espanha.

Repouso não implica, no entanto, apenas treino e o português volta a competir já no próximo fim-de-semana (dia 4) na HEW Cyclassics Cup, em Hamburgo, prova que marca o regresso da Taça do Mundo após o interregno para as Grandes Voltas. Depois, Azevedo correrá outra prova da Taça do Mundo, a Clássica de San Sebastian (dia 10), ficando mais um dia no País Basco para disputar a Subida a Urkiola, uma clássica espanhola.

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