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Ciclista acabou precocemente a carreira aos 26 anos
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O ciclismo perdeu o encanto para José Sousa, que acabou precocemente a carreira aos 26 anos, desiludido com a permanente instabilidade numa modalidade sem o brilho de outros tempos em Portugal.
"Existe vida além do ciclismo, não é? Como casei no ano passado, começam a surgir outras responsabilidades: pagar contas, pagar a casa. Sentia que o ciclismo não me estava a dar estabilidade financeira, nem em termos de salários, nem em termos de contratos. Ter um contrato sempre só de um ano nunca te dá estabilidade para fazer uma vida", notou o agora ex-corredor, em entrevista à Lusa.
Com apenas 26 anos, José Sousa encostou a bicicleta após oito temporadas no pelotão profissional, no final de uma época "um bocado apagada", marcada por problemas de saúde, e que o deixou sem margem negocial para um novo contrato.
"Como não tinha também o poder para negociar as coisas com as equipas, não tinha tantas ofertas de trabalho, e as ofertas que tinha, em termos salariais, eram zero, basicamente, decidi tomar essa decisão para dar continuidade à minha vida e não ficar também parado", justificou.
A ideia da retirada foi ganhando forma "ao longo do ano passado", ao perceber que não tinha a mesma motivação, também por sentir que estava numa equipa, a Anicolor, que "basicamente" não valorizou o trabalho que fazia.
"Sinto que subi um patamar de 2023 para 2024 [...] e, depois, no entanto, fui deixado de parte nas corridas mais importantes [nomeadamente a Volta a Portugal]. Acho que isso também teve um impacto muito grande para mim em termos psicológicos e que depois nunca encarei o ciclismo da mesma maneira", confessou.
Medalha de bronze na prova de fundo de sub-23 dos Nacionais de 2020 e vencedor de uma etapa no Grande Prémio Douro Internacional em 2023, iniciou a carreira na Miranda-Mortágua (2018) e representou cinco anos a estrutura da Oliveirense, antes de rumar à Anicolor, onde esteve em 2024 e 2025.
Foi a 29 de novembro que, nas redes sociais, anunciou o final prematuro da carreira, dizendo que o ciclismo em Portugal já não era aquele pelo qual se apaixonou e, hoje, admite ainda ter dificuldades em explicar o que mudou.
"Lembro-me quando era miúdo, quando olhava para a Volta a Portugal e para as outras corridas, mesmo quando eu subi a profissional, acho que o ciclismo tinha outro brilho, tinha outra competição. Os ciclistas eram mais carismáticos, as corridas eram melhores, eram corridas de respeito. Sinto que nos últimos anos tem-se perdido um bocado isso. Estou a dizer isto não sei se é por culpa de terceiros ou se sou eu que estou também mudado e que não vejo o ciclismo com os mesmos olhos", confessou.
Para a sua desilusão contribuíram outros fatores, como o facto de os dirigentes, os organizadores ou as provas serem "praticamente os mesmos" há vários anos.
"Mesmo que as pessoas sejam muito boas no que fazem, se não tiverem alguém mais novo, com ideias diferentes ou que os desafie e que crie obstáculos, nunca vão evoluir. Se tiverem sempre esta maneira de viver, as pessoas nunca vão querer esforçar-se um bocadinho mais para ter uma coisa melhor, principalmente os mais velhos. E mesmo até os ciclistas", avaliou.
José Sousa era representante da Anicolor-Tien21 na Associação de Ciclistas e reconhece que eram poucos os corredores que iam às reuniões e ainda menos os que se interessavam por resolver problemas relacionados com a segurança ou o pagamento de prémios.
Vemos muitos ciclistas que vêm de fora, alguns até do WorldTour, e não vêm receber quase dinheiro nenhum. Vêm a troco de umas bicicletas para ter uma oportunidade para correr
Antigo ciclista
Contra si, e outros 'trabalhadores' portugueses, pesa também a 'invasão' de ciclistas estrangeiros, muitas vezes preferidos pelas equipas em detrimento dos corredores nacionais.
"Vemos muitos ciclistas que vêm de fora, alguns até do WorldTour, e não vêm receber quase dinheiro nenhum. Vêm a troco de umas bicicletas para ter uma oportunidade para correr. [Depois de uma época 'apagada'] como é que tu vais pedir a uma equipa para te meter a correr pelo salário mínimo, que é o mais justo, que são os 12 ou 13 mil euros, quando eles podem contratar alguém que só quer uma oportunidade para correr?", questionou.
Embora assuma ter saudades do ciclismo - mantém-se, no entanto, ligado à modalidade, a trabalhar como massagista na NSN, do WorldTour, e no InGamba, o projeto de viagens de ciclismo de luxo do empresário João Correia - Sousa afirma que não se sente arrependido.
"As coisas 'más' que me aconteceram e que me fizeram deixar o ciclismo, até acho que foi um mal que veio por bem. Do lado de fora, sinto que foi a melhor decisão que eu podia ter tomado. Tanto em termos financeiros como em termos emocionais e psicológicos, acho que é muito complicado para quem quer ser ciclista em Portugal", concluiu.
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