Orlando Rodrigues: «Sempre criei algum mistério»
O abandono aos 34 anos, depois de duas décadas dedicadas ao ciclismo. Conseguiu duas vitórias consecutivas na Volta a Portugal, participou em 14 grandes Voltas e foi considerado um dos melhores "équipiers" do Mundo
Record – Porque decidiu retirar-se?
Orlando Rodrigues – Decidi o ano passado. Considerei que era a altura ideal, porque juntavam-se vários factores. Alguma falta de motivação, a frescura física, que já não é a mesma, e o aparecimento de óptimos valores que dentro de pouco tempo serão o futuro do ciclismo português.
R – Estava sem objectivos?
OR – Os objectivos escasseavam e limitavam-se à Volta a Portugal. Um ano inteiro a preparar uma única corrida acaba por ser desmotivante.
R – E o futuro?
OR – Não tenho nada programado a curto prazo. Estou a aproveitar o descanso.
R – Pretende continuar ligado ao ciclismo?
OR – Não é uma prioridade. Mas a experiência será sempre uma mais--valia, se voltar para pôr em prática algumas ideias.
R – O que ficou por fazer em vinte anos de carreira?
OR – Pouco. Os objectivos foram alcançados e nalguns casos superei as minhas expectativas. Mas talvez uma vitória numa etapa no Tour.
R – Na Banesto sacrificou objectivos individuais. Está arrependido?
OR – Não. Estou extremamente orgulhoso pela carreira que tive e pelos anos em que a minha posição na equipa era privilegiada, embora por vezes dura e pouco reconhecida. Sentia dos responsáveis da Banesto um grande apreço pelo meu trabalho.
R – Há quem considere que passou ao lado de uma grande carreira...
OR – Penso que não. Em Portugal, podia ter conseguido mais uma vitória na Volta. Mas houve anos importantes, principalmente 1996 e 1997, em que estava em excelente forma e não participei.
R – Sete participações na Vuelta, quatro no Tour e três no Giro. O que significa ter estado em 14 grandes Voltas?
OR – Significa ter feito parte de uma elite mundial, com o privilégio de alinhar nas corridas mais importantes. Essa experiência hoje equivale a olhar para trás e dizer que não estou arrependido por tudo o que aprendi e vivi.
R – E as quatro etapas em que foi segundo?
OR – Lembro-me de três. A mais amarga foi na Volta à França (1996), em que numa curva a cerca de 150 metros da meta bati com o pedal no chão e fiquei arredado da vitória. Era uma etapa de montanha e vinha sozinho com um corredor dinamarquês (Rolf Sorensen), que acabou por ganhar.
R – Em Portugal venceu duas edições consecutivas da Volta. Como recorda essas vitórias?
OR – Trouxeram-me uma vida nova, principalmente a primeira, que foi o culminar de um feito que talvez não pensasse vir a conseguir. Mas 1991 foi a chave do sucesso. Era o meu primeiro ano como profissional e fiz segundo, atrás do Jorge Silva.
R – Qual era o nível de competição quando ganhou?
OR – Grande. Lembro-me de 1994, ganhei a Volta por 20 ou 30 segundo ao Vítor Gamito, o que diz bem da concorrência que houve até ao fim. Em 1995, a vitória foi mais folgada, com praticamente três minutos de avanço. Fiquei líder logo ao quarto dia, mas até meio ainda havia bastantes rivais por perto.
R – Há ou não consumo de ''doping" no ciclismo?
OR – Depende do ponto de vista. O "doping" existe em qualquer desporto e em qualquer actividade. Se tem de ser uma resposta curta, tem de ficar por aqui, se não...
R – ...
OR – Um simples café é "doping", altera-nos o estado físico.
R – Alguma vez utilizou substâncias dopantes?
OR – Não. Em 20 anos de carreira nunca tive qualquer problema com "doping".
R – Que comentário lhe merecem os casos na Maia este ano?
OR – São sinónimo de que o controlo existe e é cada vez mais apertado. Espero que as outras modalidades sigam o exemplo.
R – No "meio" comentava-se que o Orlando veio gozar uma "reforma dourada" com o regresso a Portugal.
OR – Nunca fui um ciclista que primasse pela simpatia, principalmente dos meus adversários. A melhor resposta que tenho são os meus resultados: um lugar nos 10 primeiros da Volta (9º, 2001) e outra feita a trabalhar para o Nuno Ribeiro com o êxito da vitória. Penso que é o espelho de que não vim simplesmente para apanhar sol e daí também o motivo para o meu abandono. Sinto frescura física para continuar a ser ciclista mas não o quero fazer em baixa condição.
R – Disse que não colhe a simpatia dos seus adversários. Porquê?
OR – Porque sou um solitário nos treinos e sempre criei algum mistério, por não ser muito aberto nas minhas conversas.
R – O reconhecimento pela carreira de Joaquim Gomes parece superior. Sente inveja?
OR – Não, antes pelo contrário. Tenho uma grande admiração pelo Joaquim Gomes. Foi uma referência e um colega de treino, durante o meu início de carreira. Talvez a amizade não tenha sido mais efectiva por ele ter passado a ser o meu maior rival na Volta, principalmente em 1995.
R – Alguma "estória" mal resolvida?
OR – Dois adversários nunca podem ser muito amigos porque lutam pelo mesmo objectivo. Um sai vencedor e outro derrotado.
R – O que aconteceu em 1995?
OR – Antes da Volta, o Joaquim Gomes era meu colega de treino. Não foi nada grave, prefiro ficar por aqui.
R – Insisto no reconhecimento. Sente algum tipo de mágoa por saber que se fosse mais simpático teria conquistado mais "adeptos"?
OR – Não. Fico sensibilizado com os adeptos que tenho, porque são pessoas que me admiram, mesmo sabendo que não primo pela simpatia.
Indurain sacrificava alguns privilégios
R – Foi colega de Miguel Indurain na Banesto. Como era o ciclista que ganhou cinco edições do Tour?
OR – Era uma pessoa extremamente simples. Um atleta invulgar nas suas capacidades físicas mas dentro da equipa mais um atleta. Procurava ser o mais igual possível aos outros e sacrificava alguns dos seus privilégios para estar junto dos colegas. Marcou uma geração.
R – E a principal característica?
OR – Era completo e bastante seguro. Sabia claramente quando podia vencer e quando estava em forma lutava por esse objectivo. Era extremamente confiante nas suas capacidades e essa confiança transmitia-se aos restantes companheiros de equipa.
R –Talento nato ou "fabricado"?
OR – Indurain progrediu bastante. Quando venceu a primeira Volta à França tinha 26 ou 27 anos. Mas a nível físico tinha qualidades completamente fora do comum.