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Carlos Ramjanali recorda tempos de lutador: «Comprava o passe InterRail e andava pela Europa a fazer combates»

Aos 61 anos, Carlos Ramjanali é uma das grandes figuras do kickboxing em Portugal. Em entrevista a Record, o agora dirigente da WAKO (Federação Internacional), recordou os seus tempos de atletas e algumas das suas conquistas mais importantes.

Record: Olhando para aquilo que é o seu trajeto, o Carlos comemora este ano 50 anos desde que calçou as primeiras luvas. Que importância tem para si esta marca?

Carlos Ramjanali: "É uma marca simbólica que me diz muito. Toda a minha vida estive ligado à modalidade e passei por muita coisa. Fui vendo o crescimento deste desporto e sinto-me muito honrado e grato por termos conseguido, em 50 anos, atingir este nível. Há dez anos não me imaginava vivo quando pudessemos entrar no programa olímpico, por exemplo. No entanto, já aconteceu. É muito gratificante, sou um privilegiado por poder viver tudo isto no ativo. Dá-me ainda mais motivação para continuar a ajudar na evolução dos jovens. Nesta fase da minha vida sou um doador, isto depois de já ter recebido muito do kickboxing"

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R: Como surgiu o kickboxing na sua vida?

CR: "Eu sou natural de Moçambique e, no colégio interno em que andava, uma das modalidades práticas que existia era o boxe. Foi ali que calçei as minhas primeira luvas, com 11 anos. O diretor do meu colégio tinha nacionalidade portuguesa e sul-africana, mas tinha estudado nos Estados Unidos da América, daí ter muitas referências no desprto de combate. Quando ele implementou o boxe no colégio, criou também uma regra: só alunos com notas superiores a 15 valores é que poderiam praticar o boxe. Eu era preguiçoso, mas aí fui obrigado a estudar para ter notas altas. A partir dessa altura fui-me entusiasmando e, mesmo tendo praticado outros desportos, os de combate foram mesmo o que me atraiu. Mais tarde comecei a fazer kickboxing e, quando vim para Portugal, em 1975, já tinha um nível mais avançado do que havia cá.

Quando me fui inscrever num ginásio, em Lisboa, o dono disse-me logo que tinha um nível técnico muito alto e fui contratado para ser monitor lá. Aos 15 anos já era monitor e foi aí que começou a minha carreira mais a sério. Estudei em França e grande parte da minha carreira foi feita no estrangeiro. Na altura, comprava o passe InterRail, que dava para 30 dias, e andava pela Europa a fazer combates. Dormia nos albergues da juventude ou em casa de amigos e passava a vida a fazer torneios na Europa."

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R: Ser reconhecido por muitos como o principal impulsionador do kickboxing em Portugal é algo que aceita com naturalidade?

CR: "Não pode haver falsas modéstias, mas houve muita gente que esteve à minha volta e que me ajudou muito neste processo. Sem dúvida que fui o mais persistente e resiliente e, também por isso, quando olham para Portugal, olham muito para a minha forma de estar na modalidade. Felizmente, tenho uma vida confortável e o meu único vício é este desporto. Se tiver de despender algum dinheiro e tempo, é aqui que o faço."

R: Acredita que existe um antes e um depois da ‘Arena de Lisboa’, o espaço criado por si, e dos combates realizados nos casinos?

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CR: "Absolutamente, foi o incentivo para que o kickboxing em Portugal tivesse mais praticantes, referências e heróis. Eu criei a Arena de Lisboa, em 2000, e depois incentivei à criação de mais, no Porto, no Algarve, em Coimbra... Os torneios nos casinos, que decorreram de 2005 a 2010 faziam parte de um circuito mundial sobre a almerela da WAKO. Os melhores atletas do circuito mundial passavam por este torneio, era a nossa Champions League. O torneio continua a existir, deixou é de passar por Portugal. Este dois aspetos foram fundamentais para que o kickboxing atingisse o nível que tem agora e para que mais pessoas se juntassem à modalidade. Havia um nível de competição muito alto e isso é fundamental para o desenvolvimento de qualquer desporto. Nos últimos 15 anos houve um 'apagão' na modalidade, as grandes figuras, como o Raúl Lemos, o João Diogo e os irmãos Reis, não tiveram sucessores. Agora começam a aparecer novamente atletas de grande valor. A WAKO tem interesse que o desporto cresça de forma sustentada em todo o lado. Em Portugal havia má governância, falta de transparência e os estatutos da Federação não eram compatíveis com os da WAKO, situação que levou à expulsão. No entanto, a Arena de Lisboa é uma projeto que vai voltar a existir. Com calma, estou a ver terrenos que possa comprar para que a 'coisa' aconteça um dia destes.

No plano geral, o continente africano e o continente asiático estão a sofrer grandes transformações em termos de kickboxing e sentimos que a modalidadade vai crescer a nível mundial. Aliás, a Ásia já está bem estruturada e o futuro líder será uma pessoa dos Emirados Árabes Unidos que quer muito investir no kickboxing. É fácil este país gerar interesse e o presidente lá, que está ligado à família real, viu uma oportunidade de criar um mercado turístico-desportivo. Esta é das modalidades com os índices de audiências maiores e isso é que vende."

R: Que memórias guarda da conquista da medalha de bronze no Campeonato do Mundo em Inglaterra?

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CR: "Foi na antiga Wembley Arena e, sempre que me encontro com britânicos, eles falam disso. Eu fui à meia-final com um britânico e, na altura, não havia estas eletrónicas todas: a jogar em Inglaterra, contra um inglês.... ainda neste Campeonato do Mundo me voltaram a falar desse combate, associam o que se passou comigo ao que aconteceu com Portugal no jogo frente a Inglaterra, no Mundial de 1966. Na altura tinha dois parceiros de treino em Portugal, mas acabei por ir para esse torneio sozinho. Assim, os meus dois 'treinadores' do canto eram um italiano e mais outra pessoa. No entanto, eu eliminei três ou quatro atletas e, depois, calhou-me um italiano. O que me auxiliava disse que ia ficar com o coração dividido e que não me podia ajudar nesse combate [risos].

Agora, neste Campeonato do Mundo, houve um dia que me pediram para dar uma palavra aos atletas e o que lhes tentei mostrar foi o meu próprio exemplo. Andei sozinho de mochila às costas e eles agora têm um staff incrível. Acredito que a minha história pode ajudar a motivá-los. Aliás, sinto que esta modalidade pode ajudar muito naquilo que é o dia-a-dia. Trabalhamos muito o raciocínio rápido e isso ajuda-me ainda hoje em termos profissionais na empresa de família."

R: Foi por todas essas dificuldades que sentiu enquanto atelta que decidiu fundar a primeira Federação de Kickboxing em Portugal?

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CR: "Inicialmente era 'Federação Portuguesa de Full Contact', depois foi alterada para 'Federação Portuguesa de Kickboxing'. Eu fui um dos fundadores, juntamente com dois colegas. Infelizmente, as pessoas que tomaram conta da Federação nos últimos 16 anos desestruturaram totalmente a modalidade, visto que são pessoas que não têm qualquer ligação ao kickboxing. Surgiu assim uma espécie de ditadura, a modalidade foi caindo e depois houve a intervenção da WAKO."

 

R:Como surgiu a possibilidade de chegar ao cargo de membro do conselho da WAKO?

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CR: "Eu fazia parte da comissão da WAKO desde 2008 e, de há cinco anos para cá, estou no 'board'. Sou vice-presidente, mas tenho uma relação muito próxima com o presidente, que me ouve muito nas decisões que tomo. Sou a pessoa mais velha da direção e sinto que me a minha opinião é importante. Nas últimas eleições tentaram convencer-me a avançar como presidente, mas não tenho tempo. Ainda tenho negócios, agora tenho uma neta... gosto disto, mas não quero fazer disto a minha profissão. Vou ajudando conforme a minha disponibilidade."

Por Diogo Matos
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