Bassó Pires: dos trabalhos na pesca e na restauração ao Campeonato do Mundo de Kickboxing
Atleta esteve em Itália a representar a Guiné-Bissau
Seguir Autor:
O facto de Bassó Pires ter visto a Guiné-Bissau criar uma federação de desportos de combate só para que pudesse participar no Campeonato do Mundo de Kickboxing já é assinalável, mas a história ganha contornos ainda mais extraordinários se se analisar o trajeto de vida do atleta. Com vários trabalhos no currículo e muitos países no passaporte, Bassó diz ter encontrado o seu caminho, mas não quer ficar por aqui.
Sendo certo que a história do lutador começou em África, a verdade é que a ‘roda-viva’ que tem sido o seu percurso teve início muito cedo. Nascido em 1993, Bassó mudou-se para Portugal em 1997, mas a sua estadia em terras lusas durou pouco tempo, tal como começou por contar a Record.
"Em 2001 os meus pais decidiram emigrar para Espanha e estive lá durante dez anos, passei lá toda a minha adolescência. Pelo meio, os meus pais divorciaram-se e as coisas acabaram mal. Por causa disso, houve problemas na renovação dos nossos documentos tanto em Espanha como em Portugal. O meu pai voltou para Portugal em 2009 e, em 2011, falou com a minha mãe e disse que, através dele, podíamos voltar a conseguir os documentos aqui em Portugal. Assim, a minha mãe foi 'obrigada' a deixar-nos voltar viver com o nosso pai. Nenhuma das partes queria que isso acontecesse e isto obrigou-me a crescer muito", recorda o lutador. Apesar disso, a estadia em Portugal foi curta.
A relação de Bassó com o pai não era propriamente a melhor e, perante isso, o jovem decidiu voltar a reunir-se (2012) com a mãe, que entretanto tinha emigrado para França. Sem a documentação necessária para trabalhar, o atleta guineense, que viveu na cidade de Evreux, auxiliou a sua progenitora no sentido em que ficou responsável por tomar conta dos dois irmãos mais novos. Este aspeto, revela, fez com que os seus índices de maturidade aumentassem imenso. A situação do jovem nesta fase parecia estável; no entanto, a vontade de Bassó em construir a sua vida sem depender de terceiros levou-o a regressar a Portugal.
‘Lançar a rede’ para poder viver da modalidade
De regresso ao bairro Fim do Mundo, em Cascais, Bassó Pires alcançou então um objetivo que há muito ambicionava: "Voltei a Portugal em 2014 para conseguir, finalmente, os documentos- de 2004 a 2014 eu não tive certidão de residência. Mal consegui a residência, fui trabalhar, na altura como pescador. Aquilo durou pouco tempo porque o capitão do barco fugiu com o dinheiro. Em 2015 comecei a trabalhar num restaurante em Cascais, foi o meu primeiro trabalho com contrato".
Foi também nesta altura que o jovem teve o primeiro contacto com o kickboxing, através do projeto social ‘Lubuss’. Francisco Mango era um dos responsáveis pela atividade e acabou por se tornar o primeiro treinador de Bassó. A paixão pela modalidade fez com que, apenas um ano depois de a ter começado a praticar, o atleta guineense tomasse uma decisão que acabaria por lhe mudar a vida. "Comecei o kickboxing com 21 anos, que é muito tarde. No entanto, sinto que o kickboxing me deu um propósito na vida e percebi que é mesmo isto que eu quero. Assim, em 2015 passei a dedicar-me em exclusivo à modalidade, na altura estava a trabalhar no restaurante e já não conseguia conciliar os horários para treinar. Ser atleta é o meu foco, mas também dou aulas para juntar dinheiro e conseguir viver", frisa, recordando, no entanto, que nem tudo foi um ‘mar de rosas’: "Fui muito criticado na altura em que decidi fazer isto. Chega a uma altura em que é suposto teres uma carreira, uma certa segurança e eu não tinha isso. Essas críticas eram um pouco no sentido de preocupação, mas eu fazia e faço o que gosto e o que me dá motivação. É certo que o kickboxing não dá grande dinheiro em Portugal, mas se não for eu a beneficiar disso, será a próxima geração. Eu vejo o caso do João Diogo e do Raúl Lemos, que trabalharam muito para nos dar boas condições. Acredito que, com trabalho, podemos fazer coisas que nunca nos passaram pelo cabeça".
Assumindo que a mãe é a sua maior inspiração e mostrando-se orgulhoso por ser de um bairro social, Bassó salienta ainda a importância que o kickobxing teve para si em termos de "confiança, autoestima" e perda de "timidez".
"Quero incentivar os atletas portugueses e guineenses"
Na sua primeira prova internacional, Bassó Pires terminou o Campeonato do Mundo em 5º lugar (K1 -81 kg). Apesar disso, o atleta não esconde que ficou um pouco frustado com o resultado. "Sinto que estou a melhorar a cada dia que passa e sinto isso de forma mais evidente desde há um ano para cá, altura em que conheci a minha mental coach, a Mariana Feijão. O facto de ter desenvolvido mais a minha mente tem-me ajudado imenso no kickboxing e há também muitas pessoas a quem tenho de agradecer. O João Diogo abraçou-me como atleta e como um filho e uma das coisas que me deixa frustrado nesta competição é não ter feito mais por ele. Ele ajudou-me imenso, sacrifica-se muito pelos alunos e dói muito não ter alcançado o pódio por ele",vinca, traçando ainda os objetivos para o futuro: "Dar o meu máximo enquanto atleta, conquistar os grandes palcos e lutar contra os melhores. Quero incentivar os atletas portugueses e os atletas guineenses e mostrar que podes vir de África ou de um bairro social, podes ter uns pais com poucas condições e uma família numerosa, mas que, se lutares, vai dar certo".