Carlos Ramjanali e o Mundial WAKO: «Percebo o incómodo da federação que o estado reconhece...»
Lamenta ausência de apoio estatal e espera que questão do reconhecimento da FNKDA seja rapidamente solucionada
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Uma semana depois de ter visto, com orgulho, Albufeira receber um Campeonato do Mundo WAKO que foi bastante elogiado por todo os envolvidos, Carlos Ramjanali concedeu uma entrevista a Record na qual assume esperar que este "marco fundamental" seja o ponto de viragem para que a FNKDA seja finalmente reconhecida pelas autoridades estatais. Recentemente eleito para board member da WAKO para mais 4 anos de mandato, o empresário português pediu celeridade nesse processo e assumiu que a evolução da modalidade em Portugal, nomeadamente em termos de resultados, depende muito disso.
RECORD - Como uma verdadeira lenda vida do kickboxing português, qual a sensação de ver aqui a nata do kickboxing internacional?
Carlos Ramjanali - Este é um marco muito importante, não há dúvidas disso. Por vários motivos. O primeiro, desde 2006 que Portugal não recebia um Campeonato da WAKO e é o meu primeiro como dirigente e membro do board. Depois, é o último Mundial que nesta década se realiza na Europa. E, por fim, batemos o recorde de número de participantes e combates num Mundial em ringue. É um marco fundamental. Correu bem em termos de organização, de tal ponto que a organização do próximo Mundial, em Abu Dhabi, nos convidou para integrar e ajudar a organizar.
RECORD - Desportivamente podia ter corrido melhor…
CR - Em termos de resultados desportivos, não foi o que esperávamos, ainda assim seis medalhas e todos os atletas a fazer pelo menos 2 ou 3 combates. Houve ali algumas questões de arbitragem discutíveis. O nível de atletas e combates está cada vez mais alto, mas o nível de arbitragem não está paralelo a isso. Não é cordial, mas foi a verdade, mas até as equipas de arbitragem o assumiram. Mas isto é desporto. Tirando isto, nos campeonatos anteriores habituámos um pouco mal a comunidade portuguesa. Neste, a jogar em casa, não conseguimos obter resultados. Também tem a ver com um problema local do reconhecimento da Federação. Os que estão filiados não têm apoio do estado. Não é só questão monetária, mas sim isenção do trabalho, dispensa da escola... Tudo isso acaba por impactar no resultado final. Espero que com este evento a tutela ponha a mão na consciência, que veja que tem de apoiar quem de direito. Uma federação internacional organiza um campeonato em Portugal, onde existe uma federação que é reconhecida pela WAKO mas que não é reconhecida internamente... é algo bizarro.
RECORD – Mencionou antes da entrevista que houve alguns problemas, pode concretizar?
CR – Tivemos algumas tentativas de boicote do campeonato por parte da Federação Portuguesa de Kickboxing e Muay Thay. Umas ridículas, como costume, outras que dão até pena, como enviar cartas para embaixadas a dizer que o evento era ilegal e feito por privados. Entendo o incómodo por nada terem feito durante quase 14 anos e verem agora uma prova com esta grandeza ser realizada aqui. Disseram tantas vezes que este evento não se ia realizar que, acredito, em algumas cabeças ainda achem que não aconteceu. Mas houve de tudo, como pressões junto da Câmara, fornecedores ou da ASAE. Temos todas as comunicações trocadas, algumas que devem até envergonhar quem as assinou. Mas sobre a ASAE, já agora, há que dar duas informações: os inspetores foram fiscalizar o evento várias vezes, receberam a informação que pediram na hora, até informação extra depois de contactarem os seus superiores por telefone. Mais uma vez mostraram que o evento é legal e que pode ser escrutinado à vontade, como fizeram em todos os que visitaram. A segunda questão tem a ver com a recomendação que fizeram, não os inspetores, mas a ASAE, por escrito, sobre este evento. Isso vai ter de ser explicado, mas não por mim nem neste fórum.
RECORD – De que forma essas questões abalaram a organização da prova?
CR - O ridículo disto é que esta prova, um campeonato do Mundo, tutelado pela Federação Internacional e reconhecido pelo Comité Olímpico... estas coisas acabam sempre por atrapalhar. Nós estamos concentrados em fazer as coisas e depois perdemos tempo em fazer esclarecimentos ...
RECORD – Mas o resultado final foi positivo?
CR - Se falarmos do impacto financeiro deste evento, estamos a falar de direta e indiretamente, os números rondam os 3 milhões de euros. Tivemos cerca de 30 mil dormidas, houve seleções que chegaram a Albufeira uma semana antes da prova. Diretamente estivemos em 13 hotéis, alguns deles a funcionar exclusivamente connosco. Foi o melhor mês de Novembro da sua história para alguns deles, tivemos mais de 50 autocarros ao serviço de perto de 3000 participantes no evento, que foi acompanhado em streaming por cerca de meio milhão de pessoas em 75 países. O impacto económico, social e turístico foi enorme. Foi um sucesso que merecia ser mais apoiado. Não me lembro de nos últimos 15 anos alguém dentro da área do kickboxing ter feito uma prova desta envergadura com o impacto financeiro e de notoriedade que este teve. Nem metade. Com estes dados percebo o incómodo da federação que o estado reconhece, ao ver que, em 15 anos de tutela da modalidade, nunca fez nada que seja sequer parecido com isto. Alguém tem de perceber onde está o problema para apoiar a solução.
R - Que feedback foi recebendo?
CR - O feedback que recebemos, ninguém aponta nada, foi tudo impecável, desde os participantes aos parceiros. Isso deixa-nos orgulhosos. Apesar das autoridades do desporto português não nos terem acompanhado, o resto correu muito bem. Isto para ficar 100%, faltavam mais medalhas para Portugal. Mas como dirigente da WAKO, português e elemento da organização, estou super orgulhoso. Acho que o balanço é extraordinário.
Deixo só uma mensagem às autoridades portuguesas do desporto. Que prestem uma maior atenção a este fenómeno, que percebam o que é uma Federação reconhecida pelo COI e o que é uma federação sem esse reconhecimento, que entendam que esta questão tem de ser resolvida. Que não se criem entraves, até porque com este impacto a WAKO está a projetar novas provas para Portugal nos próximos 5 anos. O kickboxing português está numa fase em que precisa destes eventos para o seu desenvolvimento. Como se pode comparar esta prova com aquelas provas a que a Federação reconhecida pelo estado participa? Em 80 atletas, 75 ganham medalhas? Em que há mais de uma equipa por país? Em que participam países que nem sequer são reconhecidos como tal? Como fazem provas sem intervenção da WADA (controlo antidoping) ? Como não parar já de por cobro a isto?
R - Falando em desenvolvimento, como vê a nova geração de kickboxers portuguesa?
CR - Com muito otimismo, porque felizmente existe a globalização. Os atletas portugueses seguem muito os ídolos e é fácil aprenderem do que se vê na televisão e vídeos. Há motivação e talento nos nossos atletas. Estive nos últimos campeonatos dos escalões de cadetes, juvenis e juniores e, os resultados foram fantásticos, tanto em medalhas e eliminatórias passadas. Estou extremamente otimista para o futuro, mas desde que criem mecanismos legais para que os miúdos possam evoluir, sobretudo as facilidades escolares. Mas para isso é preciso que a Federação seja reconhecida. Os miúdos para irem para competições fora, têm de faltar às aulas. Sem justificação, os pais às tantas... Se em termos financeiros não é preciso injetar dinheiro, pois é uma modalidade auto sustentável - a WAKO tem patrocinadores fortes - o importante são os mecanismos legais para que possam competir, que possam ter todas as benesses. É um ponto fundamental. Uma mensagem às autoridades em relação a isso: sei que estão atentos, a acompanhar, e presumo que sendo responsáveis do nosso país terão o bom senso de resolver isto.
R - Espera que este Mundial seja o impulso final para a resolução do problema?
CR - Acho que sim. Dadas as circunstâncias da prova, as próximas competições que a WAKO vai realizar em Portugal, o impacto que teve... Tivemos aqui o Record aqui muito ativo. Isto teve um grande impacto, sem dúvida. E curiosamente fomos recebendo feedback das Câmaras Municipais do país, não só aqui da zona, mas até do norte. A perguntar quando era o próximo evento, a demonstrar interesse em receber e apoiar. Nesse âmbito requisitaram convites para estarem presentes e ver a prova ao vivo, são feedbacks importantes para nós, como promotores deste tipo de eventos, algo que já não viam em Portugal há muitos anos.
R - Se sem apoio governamental os campeonatos já correram bem...
CR - Este campeonato teve apoios privados. Não houve uma entidade do estado a acompanhar apesar do impacto gigante que este evento teve em Albufeira, na sua economia local e na projeção da terra além-fronteiras. As infra-estruturas foram-nos cedidas através de um protocolo com a Câmara Municipal e com um clube local mas não há um apoio efetivo perto da dimensão do impacto deste evento. Todos os custos foram nossos. Mesmo assim, teve o sucesso que teve com apoio de marcas e empresas com prestígio e impacto, local e internacional, como o Hospital dos Lusíadas ou a Adidas. Sentimos, há que realçar, por parte da sociedade civil e empresarial de Albufeira um acolhimento enorme e um reconhecimento do impacto que este evento teve no município. Mas nós já contávamos com isto e foi importante o evento acontecer e a sociedade perceber que Portugal pode receber eventos assim, apesar de nos últimos anos esta modalidade ser mais falada nos jornais por problemas legais do que por conquistas desportivas.
RECORD – Qual é a questão de base entre Federações?
CR - Relativamente ao Mundial nenhuma, já que foi a WAKO que o realizou. Mas enquadrando, não há um problema entre federações, há uma questão de legitimidade que a tutela vai ter de resolver. E é simples de explicar: o Estado reconhece a FPKMT com a utilidade pública desportiva com o kickboxing, apesar da mesma não estar filiada na federação internacional que rege a modalidade, que é a WAKO. Tem um contrato a termo com uma empresa chamada ISKA, que organiza provas de kickboxing. Por outro lado, a FNKDA não tem ainda reconhecimento estatal mas é reconhecida pela WAKO. Tecnicamente, no limite, nenhuma estaria habilitada nesta fase. Mas o problema de segurança que advém daqui é grande: a ISKA não tem protocolos com WADA, GAISF, nada que gira ou tutele o desporto a nível mundial. Não há controlo nenhum e o estado paga para que atletas participem em provas internacionais destas cujas medalhas servem para por na parede e cujo controlo de doping, segurança e outros são risíveis ou inexistentes. Tirando estas coisas péssimas, penso que apesar de estarmos num processo de transição governamental, qualquer dirigente político do país tem a mínima noção da importância de ter uma federação reconhecida, de ter apoios normais. Se não, vamos entrar numa espiral... a federação internacional reconhece uma entidade, o governo reconhece outra. Por exemplo, em 2030 o Mundial de futebol será cá: imagine que a FPF não era reconhecida? Ridículo!